O cronista é um ser estranho que sofre de uma espécie de miopia invertida, ele vê mal o que é óbvio e demasiado bem o que ninguém nota. Enquanto o historiador se ocupa das grandes batalhas e o jornalista das notícias de última hora, o cronista está ocupado a observar o modo como uma senhora idosa segura o saco das compras ou a forma melancólica como a chuva escorre por um vidro de uma paragem de autocarro. Ser cronista não é uma profissão; é um vício de perspectiva. É, essencialmente, a arte de olhar de lado.
Quem escreve crónicas vive numa caça permanente ao banal. O cronista é um mineiro que escava o quotidiano à procura de uma pepita de poesia no meio do cascalho das horas mortas. Muitas vezes, as pessoas perguntam-me: "Como é que tens sempre tema?". A resposta, embora pareça romântica, é uma maldição, o tema está em todo o lado, o problema é que ele não grita. Ele sussurra. E para o ouvir, é preciso estar em estado de alerta, como um caçador na selva de betão, mas um caçador que, em vez de disparar, se limita a anotar.
Ser cronista é ser um intruso profissional. É entrar num café e, em vez de ler o jornal, "ler" a conversa da mesa ao lado. É tentar adivinhar a vida das pessoas pelos sapatos que calçam ou pela forma como pedem o açúcar. Há uma certa falta de educação inerente ao ofício. Estamos sempre a roubar pedaços de realidade alheia para os transformar em metáforas. Somos ladrões de instantes.
Mas há uma responsabilidade pesada nesta leveza. A crónica é o género literário do "quase". É quase um conto, quase um ensaio, quase uma confissão. Ela tem a duração de um suspiro, o tempo de uma viagem de metro ou de um café curto. E, nesse curto espaço, o cronista tem de realizar um milagre, fazer com que o leitor sinta que aquela observação sobre uma folha seca a cair é, na verdade, uma reflexão sobre a própria finitude humana.
A grande dificuldade de ser cronista em 2026 é o ruído. Vivemos num mundo que grita certezas de cinco em cinco minutos nas redes sociais. Toda a gente tem uma opinião blindada sobre tudo. O cronista, pelo contrário, vive da dúvida. Ele prefere a pergunta à resposta. Ele não quer convencer ninguém de uma verdade absoluta; ele quer apenas dizer: "Reparaste nisto? Não é curioso que sejamos assim?". A crónica é um aperto de mão entre duas solidões: a de quem escreve e a de quem lê.
Muitas vezes, sento-me diante da folha branca ou do cursor intermitente do computador e sinto que não tenho nada para dizer. O mundo parece mudo, cinzento, desprovido de magia. É nesses dias que o ofício se torna um exercício de fé. Saio à rua. Caminho sem destino. E, de repente, acontece. Um cão que espera pelo dono à porta do talho com uma paciência digna de um santo; um miúdo que descobre uma poça de água e a transforma num oceano; o modo como o sol de fim de tarde doura as fachadas dos prédios velhos. E a crónica nasce aí, nesse pequeno espanto.
Dizia um mestre que a crónica é como a água que corre, nunca é a mesma e está sempre a passar. Ela é o género do efémero. O que escrevo hoje pode não fazer sentido daqui a dez anos, porque a crónica está colada à pele do presente. Ela é o bilhete de identidade de um tempo. Através das crónicas de antigamente, sabemos como se namorava no Chiado, como se vestiam as pessoas, o que se comia e do que se ria. O cronista é o guarda-noturno da memória coletiva do que parece não ter importância.
Ser cronista é também lutar contra o próprio ego. É fácil cair na tentação de querer parecer inteligente, de usar palavras caras para impressionar. Mas a boa crónica é nua. Ela exige uma simplicidade que é, ironicamente, a coisa mais difícil de alcançar. Escrever como quem fala, mas com a precisão de quem esculpe. É preciso ter a coragem de ser ridículo, de confessar pequenas fraquezas, de admitir que também nós ficamos tristes com o fim de um domingo ou que perdemos a paciência com o comando da televisão.
No final do dia, ser cronista é uma forma de não morrer. Ou, pelo menos, de não passar pela vida anestesiado. Enquanto houver uma história para contar sobre um encontro fortuito numa esquina ou sobre o mistério de uma gaveta desarrumada, o mundo ainda não nos venceu. Continuamos aqui, a olhar de lado, a anotar o que os outros ignoram, tentando provar que a vida mesmo a mais banal vale a pena ser escrita.
Fecho este texto com a sensação de quem cumpriu o ritual. Amanhã, o sol voltará a nascer e eu estarei lá, de caderno na mão (ou telemóvel, que os tempos mudam mas o vício permanece), à espera que a realidade me dê um sinal. Porque ser cronista é isto: saber que a maior aventura do mundo acontece precisamente agora, no intervalo de dois batimentos cardíacos, à espera que alguém a transforme em palavras.
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