segunda-feira, 27 de abril de 2026

O Colecionador de Instantes

     O cronista é um ser estranho que sofre de uma espécie de miopia invertida, ele vê mal o que é óbvio e demasiado bem o que ninguém nota. Enquanto o historiador se ocupa das grandes batalhas e o jornalista das notícias de última hora, o cronista está ocupado a observar o modo como uma senhora idosa segura o saco das compras ou a forma melancólica como a chuva escorre por um vidro de uma paragem de autocarro. Ser cronista não é uma profissão; é um vício de perspectiva. É, essencialmente, a arte de olhar de lado.

    Quem escreve crónicas vive numa caça permanente ao banal. O cronista é um mineiro que escava o quotidiano à procura de uma pepita de poesia no meio do cascalho das horas mortas. Muitas vezes, as pessoas perguntam-me: "Como é que tens sempre tema?". A resposta, embora pareça romântica, é uma maldição, o tema está em todo o lado, o problema é que ele não grita. Ele sussurra. E para o ouvir, é preciso estar em estado de alerta, como um caçador na selva de betão, mas um caçador que, em vez de disparar, se limita a anotar.

    Ser cronista é ser um intruso profissional. É entrar num café e, em vez de ler o jornal, "ler" a conversa da mesa ao lado. É tentar adivinhar a vida das pessoas pelos sapatos que calçam ou pela forma como pedem o açúcar. Há uma certa falta de educação inerente ao ofício. Estamos sempre a roubar pedaços de realidade alheia para os transformar em metáforas. Somos ladrões de instantes.

    Mas há uma responsabilidade pesada nesta leveza. A crónica é o género literário do "quase". É quase um conto, quase um ensaio, quase uma confissão. Ela tem a duração de um suspiro, o tempo de uma viagem de metro ou de um café curto. E, nesse curto espaço, o cronista tem de realizar um milagre, fazer com que o leitor sinta que aquela observação sobre uma folha seca a cair é, na verdade, uma reflexão sobre a própria finitude humana.

    A grande dificuldade de ser cronista em 2026 é o ruído. Vivemos num mundo que grita certezas de cinco em cinco minutos nas redes sociais. Toda a gente tem uma opinião blindada sobre tudo. O cronista, pelo contrário, vive da dúvida. Ele prefere a pergunta à resposta. Ele não quer convencer ninguém de uma verdade absoluta; ele quer apenas dizer: "Reparaste nisto? Não é curioso que sejamos assim?". A crónica é um aperto de mão entre duas solidões: a de quem escreve e a de quem lê.

    Muitas vezes, sento-me diante da folha branca ou do cursor intermitente do computador  e sinto que não tenho nada para dizer. O mundo parece mudo, cinzento, desprovido de magia. É nesses dias que o ofício se torna um exercício de fé. Saio à rua. Caminho sem destino. E, de repente, acontece. Um cão que espera pelo dono à porta do talho com uma paciência digna de um santo; um miúdo que descobre uma poça de água e a transforma num oceano; o modo como o sol de fim de tarde doura as fachadas dos prédios velhos. E a crónica nasce aí, nesse pequeno espanto.

    Dizia um mestre que a crónica é como a água que corre, nunca é a mesma e está sempre a passar. Ela é o género do efémero. O que escrevo hoje pode não fazer sentido daqui a dez anos, porque a crónica está colada à pele do presente. Ela é o bilhete de identidade de um tempo. Através das crónicas de antigamente, sabemos como se namorava no Chiado, como se vestiam as pessoas, o que se comia e do que se ria. O cronista é o guarda-noturno da memória coletiva do que parece não ter importância.

    Ser cronista é também lutar contra o próprio ego. É fácil cair na tentação de querer parecer inteligente, de usar palavras caras para impressionar. Mas a boa crónica é nua. Ela exige uma simplicidade que é, ironicamente, a coisa mais difícil de alcançar. Escrever como quem fala, mas com a precisão de quem esculpe. É preciso ter a coragem de ser ridículo, de confessar pequenas fraquezas, de admitir que também nós ficamos tristes com o fim de um domingo ou que perdemos a paciência com o comando da televisão.

    No final do dia, ser cronista é uma forma de não morrer. Ou, pelo menos, de não passar pela vida anestesiado. Enquanto houver uma história para contar sobre um encontro fortuito numa esquina ou sobre o mistério de uma gaveta desarrumada, o mundo ainda não nos venceu. Continuamos aqui, a olhar de lado, a anotar o que os outros ignoram, tentando provar que a vida mesmo a mais banal vale a pena ser escrita.

    Fecho este texto com a sensação de quem cumpriu o ritual. Amanhã, o sol voltará a nascer e eu estarei lá, de caderno na mão (ou telemóvel, que os tempos mudam mas o vício permanece), à espera que a realidade me dê um sinal. Porque ser cronista é isto: saber que a maior aventura do mundo acontece precisamente agora, no intervalo de dois batimentos cardíacos, à espera que alguém a transforme em palavras.

Sem comentários:

Enviar um comentário

O Amor na Era do "Visto por Último"

       Namorar já teve as suas regras bem definidas. Houve um tempo  que hoje parece saído de um romance histórico em que namorar envolvia e...