O amor e os seus desvios
O
amor nunca chega na hora que está marcada. Ele ignora os planos, atravessa a
rua sem olhar para os lados e, sem aviso, instala-se onde menos esperamos. Às
vezes, vem com a delicadeza de uma brisa leve, outras, com a força de uma
tempestade. O facto é que ninguém passa ileso por ele. No início, o amor parece
um visitante que vem muito educado, desses que tiram os sapatos antes de
entrar. Mas logo se espalha pelos compartimentos da alma, confunde as certezas,
troca os móveis de lugar. O amor não pede licença. Ele faz-se presente de forma
inteira ou não se faz.
Há
quem tente decifrá-lo, classificá-lo, encaixá-lo em definições. Amor romântico,
platônico, fraternal. Mas o amor risse dessas tentativas. Ele não se prende a
rótulos, escapa pelas frestas do previsível e manifesta-se em gestos
inesperados: num olhar que se entende sem palavras, numa mensagem enviada sem
motivo aparente, num silêncio que diz mais do que um discurso inteiro. No amor,
há também os desencontros. Ele nem sempre é justo, nem sempre é recíproco. Às
vezes, aparece para um e esconde-se do outro. Há amores que nascem com um
prepósito determinado ao desenlace, como estrelas que brilham intensamente
antes de se apagarem. Mas mesmo os amores que não permanecem deixam a sua
marca. Eles ensinam, moldam, transformam.
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