sexta-feira, 24 de abril de 2026

Vemos e seguimos

A guerra cabe num ecrã de telemóvel, num vídeo de poucos segundos que vemos e esquecemos.

Deslizamos para o lado e seguimos com o dia, como se nada fosse. Em poucos segundos, aquilo que é a realidade de alguém torna-se apenas mais um conteúdo entre tantos outros. Vemos, reagimos por instantes e continuamos.

No meio de tantas imagens, a guerra deixou de ser um choque para passar a ser rotina. Já não nos surpreende, já não nos pára. Tornou-se mais uma notícia, mais um vídeo, mais um som de fundo num mundo que não abranda.

Mas do outro lado do ecrã, não há filtros nem pausas. Há casas destruídas, famílias separadas, vidas interrompidas. Há pessoas que acordam sem saber se o dia seguinte vai chegar. Pessoas como nós, com rotinas que poderiam ser as nossas, mas que foram substituídas pelo medo, pela perda e pela incerteza.

Talvez o mais preocupante não seja apenas a guerra em si, mas a forma como nos habituámos a ela. A facilidade com que transformamos sofrimento em algo distante, quase irreal. Como se, por estar longe, deixasse de ser urgente.

No meio de tanta informação, esquecemo-nos de algo essencial, não são números, são pessoas. Cada imagem que passa diante dos nossos olhos carrega uma história que não conhecemos, uma vida que continua, ou que, na maior parte das vezes, termina ali.

E enquanto continuarmos a tratar a dor dos outros como algo que se pode simplesmente deslizar para esquecer, a guerra não deixa de acontecer, apenas deixa de nos afetar.

Inês Garção


Ligados, mas cada vez mais distantes

 

Uma coisa que se tornou automática, tirar o telemóvel do bolso. Não por causa de uma notificação ou de um motivo. Basta não haver nada para fazer ou uma conversa ter acabado, que lá está ele nas nossas mãos.

Antigamente as pessoas encontravam-se, hoje, conectam-se. Parece a mesma coisa, mas não é. Aqui em casa, as coisas são muito claras, ninguém mexe no telemóvel à mesa. As refeições não servem apenas para matar a fome, servem para cada um contar como foi o dia, um momento de família.

O telemóvel aproximou bastante quem está longe, disso não há dúvida. Permite uma mensagem rápida, videochamadas, coisas que antes dependiam de cartas e muita espera.

Mas, por outro lado, afastou quem está perto. Às vezes estamos tão focados no telemóvel, que nos esquecemos da magia que é ter uma simples conversa com amigos e família. Por isso é que o apagão foi tão especial para mim, não havia rede nenhuma, mas estávamos todos mais ligados do que nunca.

Há algo que me deixa com os nervos à flor da pele, que é ver um grupo de amigos em silêncio, cada um no seu próprio mundo digital. Já não é estranho. Pelo contrário, tornou-se normal. E talvez seja isso que mais me assusta, a naturalidade com que olhamos para o ecrã, nem se aproveita o momento, o que verdadeiramente interessa, é registar.

E depois há a ansiedade. A necessidade de responder rápido, de não deixar mensagens “por abrir”, de manter uma presença constante. Como se desaparecer por umas horas fosse quase um ato de rebeldia. Como se o silêncio, que antes era natural, tivesse passado a ser interpretado como desinteresse.

Mas, apesar de tudo, o telemóvel não é o único vilão no meio disto tudo, porque afinal, é apenas uma ferramenta, poderosa, que amplia aquilo que já somos. A questão não é, nem nunca vai ser o objeto, mas o uso que lhe damos.

Talvez o desafio esteja em algo simples, estar. Estar numa conversa sem distrações, estar num jantar sem interrupções, estar num momento sem a necessidade de o partilhar imediatamente. Porque, no meio de tantas ligações, corremos o risco de perder o essencial, a ligação real, que é insubstituível.

E talvez, só talvez, a próxima grande revolução seja esta, pousar o telemóvel e olhar alguém nos olhos outra vez.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Trabalhos de grupo: uma experiência coletiva duvidosa

Há poucas coisas tão inevitáveis na universidade como os trabalhos de grupo. À partida, a ideia parece simples: colaborar, dividir tarefas, aprender em conjunto. Na prática, sobretudo em Portalegre, onde os grupos acabam por se cruzar dentro e fora da sala, tudo ganha outra complexidade.

O grupo forma-se com alguma rapidez. Trocam-se contactos, define-se um tema, marcam-se reuniões. No início, há entusiasmo. Todos querem contribuir, todos têm ideias. Fala-se de organização, de prazos, de divisão equilibrada do trabalho. Há uma espécie de acordo silencioso: isto vai correr bem.

Mas, com o tempo, a dinâmica começa a alterar-se. Há sempre alguém que responde menos às mensagens, alguém que adia, alguém que não aparece. E há também aquele que, por hábito ou necessidade, acaba por assumir a maior parte do trabalho. O equilíbrio, que parecia tão fácil no início, revela-se difícil de manter.

As reuniões tornam-se mais raras ou menos produtivas. As discussões alongam-se, mas nem sempre chegam a conclusões claras. E, muitas vezes, o grupo deixa de ser um espaço de construção coletiva para se tornar apenas uma forma de cumprir uma obrigação académica.

Ainda assim, há algo de interessante neste processo. Mais do que sobre a matéria, aprende-se sobre pessoas. Sobre responsabilidade, compromisso e limites. Sobre o que acontece quando vários ritmos têm de coexistir.

No final, o trabalho é entregue. A nota chega. E o grupo dissolve-se quase de imediato, como se aquela pequena comunidade temporária nunca tivesse existido.

Fica, no entanto, a experiência que nem sempre é fácil, mas difícil de ignorar.

“Preto é uma cor” – E Portugal está negro de Fúria

 Vivemos num país onde o “bom português” ainda acredita que discutir política no café é um desporto olímpico e que o “deixa andar” é uma filosofia de vida – peremptoriamente nacional. Portugal é aquela casa que está sempre “quase arrumada”, onde o caos é uma forma de decoração e a anarquia é só mais uma palavra cara que aprendemos a dizer entre um copo de tinto e uma bica curta.

Tudo aqui é feito a meias: meio indignados, meio conformados, meio revoltados – o que, somando tudo, dá um inteiro de nada. Somos o povo que protesta no sofá, consuma a sua revolta nas redes sociais e depois vota “no menos mau”, como quem escolhe o prato do dia depois de descobrir que já não há francesinha.

Há quem diga que Portugal é um país triste. Eu acho que é só um país com sono. Um sono antigo, daqueles pesados, de quem dorme desde o Estado Novo e só acorda de quatro em quatro anos, quando há eleições ou quando o Benfica perde. E mesmo aí, o despertar é breve – uma piscadela de olho, um bocejo de indignação e lá voltamos ao torpor confortável do “não há nada a fazer”.

A nossa anarquia é mansa, feita de filas nas Finanças e revoluções nos comentários do Facebook. Queremos mudar o mundo, mas primeiro temos de ver se há vaga para estacionar. Falamos da Europa como se fosse um condomínio onde nunca fomos à assembleia, mas pagamos as quotas todas, com ar de mártir.

No fundo, Portugal é aquele amigo que tem imenso potencial, mas prefere ficar no café a filosofar sobre o preço do café. Um país que se leva tão pouco a sério que até a tragédia vira piada – e a piada, inevitavelmente, acaba por se tornar tragédia outra vez.

Mas, enfim, preto é uma cor. E nós, os portugueses, ainda achamos que o cinzento é o suficiente.

Vivemos entre promessas de modernidade e vícios de aldeia. O capital continua a girar nas mesmas mãos – aquelas que seguram a pátria como se fosse um cofre pessoal. Esperamos sempre uma subvenção milagrosa que resolva a inércia nacional, como se o Estado fosse uma fada-madrinha de fato e gravata. O povo, com o seu plebeísmo ingénuo, vai rindo da desgraça enquanto os de cima escrevem discursos pernósticos sobre “resiliência”.

E, claro, lá vem o espantalho da vez: a “invasão” dos imigrantes. O novo brinquedo retórico da extrema-direita, que descobriu que é mais fácil culpar quem chega do que encarar o que nunca se fez. Falam de “identidade nacional” como quem fala de um objeto perdido, e berram nas televisões que “o país está a mudar”. Pois está – e ainda bem. Porque se dependesse de alguns, ainda andaríamos de carroça, mas com bandeira na janela.

A cultura, coitada, é o parente pobre de um país que se gaba de Camões, mas não lê um livro desde o secundário. Vive à conta de apoios que nunca chegam, de artistas que sobrevivem com mais fé do que fundos, e de políticos que confundem arte com entretenimento. Mas tudo bem, desde que haja festivais e selfies.

Portugal é isto: um palco pequeno com ambições de Hollywood, onde todos querem ser protagonistas, mas ninguém quer decorar o texto. E talvez seja por isso que o riso é o nosso último ato de coragem – rir do que somos, rir para não chorar, rir porque é a única forma de manter viva a esperança de que um dia, quem sabe, o preto volte a ser apenas uma cor.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

O silêncio que se senta à mesa

A luz foi abaixo, a água parou de correr, a internet deixou de funcionar. Fez-se silêncio. Podia ter sido um corte geral, mas não foi. E é aí que a casa para. 

A água e a luz são o básico. Mas quando se fica sem, sente-se um vazio. É como se nos tirassem a roupa e ficássemos despidos. De repente, a casa parece outra. Sem o zumbido do frigorífico e sem as vozes da televisão, percebi que não sabia muito bem o que fazer comigo. É estranho como nos habituamos a ter sempre tudo pronto a usar, a não ter de pensar em como as coisas funcionam. O tempo começou a passar de outra maneira. Mais devagar. O silêncio deixa de ser ausência de ruído e passa a ser o palco onde os meus pensamentos, antes distraídos, agora se sentam à mesa comigo. Durante o dia aprende-se a apreciar a beleza das pequenas coisas. A luz do sol, o movimento da rua, os passarinhos, o movimento das nuvens. Sem ecrãs, sem luz, sem nada em casa que me prenda, tudo ganha outra dimensão. Quando nos debruçamos sobre a janela, parados ali a olhar para a rua os pensamentos multiplicam-se. A mente cria um nó difícil de desfazer. O corpo está ali, presente na casa em pausa, mas a mente voa sem darmos por isso. Aproveitar enquanto há luz lá fora para carregar telemóveis, ir buscar água às fontes tornou-se uma realidade do dia-a-dia. Tudo isto cria confusão. Cria frustração. Cria ansiedade. Cria acima de tudo incerteza. Depois do pôr do sol, tudo isso ganha mais peso. O céu passa de azul para preto. A claridade que irradiava as paredes deixa apenas a sombra das velas. Do lado de fora os prédios acendem. Do lado de dentro come-se sem se ver bem o que o garfo espeta. Toma-se banho sem luz no teto. Anda-se com a lanterna na mão. Deita-se com a esperança de um dia melhor. 


Pessoas que nos marcam

Há pessoas que nos marcam, especialmente quando estamos longe de casa. As pessoas deslocadas vão perceber isto que falo. Há um silêncio estranho que se instala quando tudo é novo: as ruas, os cheiros, as rotinas, até o próprio reflexo no espelho parece um pouco deslocado. E é nesse vazio que certas pessoas entram, devagarinho, sem pedir licença, e acabam por se tornar abrigo.

A minha madrinha de faculdade foi isso mesmo, um abrigo. Em Portalegre, onde tudo me parecia distante e frio ao início, foi ela que trouxe calor. Não com grandes gestos, mas com pequenas coisas que pesam mais do que qualquer discurso: um “já comeste?”, um abraço, uma mensagem nos dias mais difíceis. Fez daquela cidade, que não era minha, um sítio onde eu podia descansar o coração.

Há pessoas que não têm obrigação de ficar, mas escolhem ficar. E isso muda tudo. Porque quando alguém nos vê, na nossa fragilidade e decide permanecer, cria-se um laço que não se explica, sente-se. Foi assim que Portalegre deixou de ser só um ponto no mapa e passou a ser casa.

Hoje percebo que não são os lugares que nos prendem, são as pessoas. São elas que dão significado às ruas, às memórias, aos dias comuns. E a minha madrinha, sem saber, construiu em mim um lugar seguro que levo para onde quer que vá.

Porque no fim, são essas pessoas que nos salvam do vazio de estar longe, e nos ensinam que, mesmo fora de casa, nunca estamos verdadeiramente sozinhos.


Beatriz Maia

O comércio local nas Aldeias!

Nas aldeias, o comércio local continua ainda a ser muito importante para todos aqueles, que nela habitam. Nessas lojas de comércio local, não há a música alta, nem as promoções em cartazes fluorescentes, apenas uma música de ambiente, a conversa com os clientes e o arrumar sossegado das prateleiras.

No comércio local não é apenas para vender os produtos das prateleiras, é diferente. Nestas lojas quem entra não é só cliente, é o “filho de alguém”, “a senhora que mora na rua de cima”, o menino que vem sempre comprar um geladinho”. São estas pequenas coisas, que criam as memórias, sem a presença de tecnologias, sem pressa, feita de pequenos gestos e hábitos repetidos.

Antigamente e nos tempos dos nossos bisavós, avós, o que existia nas aldeias e mesmo nas cidades era apenas as lojas de comércio local. O ir às compras deles, não eram apenas ir às compras, como nós atualmente fazemos, era de uma maneira diferente. Quando eles iam às compras faziam-no de uma forma sossegada, calma e de muitas histórias e memórias que contavam e que viviam enquanto faziam as suas compras. Isto é possível, porque nas aldeias a maioria das pessoas conhecessem umas às outras e conviviam muito, porque não saiam das aldeias e estavam sempre com essas mesmas pessoas.

Hoje em dia, esta realidade é bastante diferente, o comércio local continua a existir, mas já de uma forma muito diferente. Isto deve-se a existência de uma enorme diversidade de supermercados e não só, pelo aparecimento das tecnologias e de novas formas de fazer compras, porque à distância de um clique, podemos fazer compras online e tê-las à porta de casa. E no meio disto tudo, perdeu-se e está a perder-se alguma coisa difícil de nomear. Talvez seja o tempo. Talvez seja o encontro. Talvez seja essa estranha sensação de pertencer a um lugar.

As lojas das aldeias começam a fechar, e existem cada vez menos lojas de comércio local. Porque as pessoas mais antigas, eram elas quem compraram nestas lojas e atualmente existe este problema pelo facto de as pessoas já não comprarem nestas lojas e irem comprar para supermercados maiores com uma maior diversidade de produtos e de marcas. E, no entanto, ainda há resistentes. Abrem a porta do seu estabelecimento, não apenas para vender, mas para manter aquilo que é uma certa ideia de comunidade.

Esta situação acontece, pois a maioria das pessoas que fazem compras nestas lojas de comércio local nas aldeias, são as pessoas com idade mais avançada, ou não têm transporte para irem a outros sítios, também estão mais debilitados na saúde e preferem assim fazer a sua rotina ali na aldeia, mas também preferem continuar a ter um momento de convivência na loja da aldeia, onde vão todos os dias comprar o pão e ter sempre uma conversa com quem encontram pelo caminho, mesmo com a senhora da  loja e com os clientes, que por vezes são amigos, vizinhos, família.

As pessoas mais jovens, já não frequentem muito as lojas de comércio local nas aldeias, essas pessoas preferem frequentar os supermercados que têm uma maior diversidade de produtos e marcas, mas também para essas pessoas assim o exige irem outros sítios, uma vez que se temos mais diversidade vamos sempre às vezes experimentar coisas novas e atualmente com o preço das coisas, temos sempre em atenção os preços de supermercado para supermercado. Com isto, não é uma crítica às pessoas que não frequentem as lojas de comércio local, é perfeitamente compreensível que as pessoas mais jovens vão a esses supermercados maiores nas cidades, porque sempre estiverem habitados assim e agora tornou-se uma rotina para essas pessoas, e as pessoas mais idosas frequentem esses sítios, porque tiveram toda a sua vida a frequentar esses lugares e fazem disso uma parte da sua rotina no seu dia a dia.

Por isso, independentemente da existência de novos supermercados e de novos investimentos de supermercados, produtos, marcas, acho assim que as lojas de comércio local, devem continuar a existir nas aldeias, porque se acabar as pessoas que frequentem essas lojas iriam ficar sem a loja onde foram toda a sua vida e além disso com o fecho das lojas, a aldeia começa a ficar mais pobre, com menos convivência, com menos conversa, e mais pobre. 

O comércio local não é perfeito, nem precisa de ser, como nada na vida é. Mas é humano, e talvez seja isso que o torna tão frágil, tão necessário, tão memorável e tão interessante.

Vemos e seguimos

A guerra cabe num ecrã de telemóvel, num vídeo de poucos segundos que vemos e esquecemos. Deslizamos para o lado e seguimos com o dia, como ...