segunda-feira, 8 de junho de 2026

O Amor na Era do "Visto por Último"

     Namorar já teve as suas regras bem definidas. Houve um tempo  que hoje parece saído de um romance histórico em que namorar envolvia esperar ansiosamente que o telefone fixo de casa tocasse, torcendo para que não fosse o pai da outra pessoa a atender. Envolvia cartas escritas à mão que demoravam dias a chegar e cassetes gravadas com as músicas que melhor traduziam o que sentíamos. O namoro alimentava-se da distância e da expectativa.

    Hoje, namora-se através de um ecrã de alta definição. O namoro moderno tem uma linguagem própria, feita de gostos (likes) estratégicos em fotografias antigas, reações com corações nos stories e a partilha diária de vídeos curtos que servem para dizer: "Vi isto e lembrei-me de ti".

    No entanto, esta hiper conectividade trouxe um novo tipo de ansiedade. O amor dos nossos dias mede-se, muitas vezes, na tortura silenciosa do "Online" ou naquelas duas setas azuis que confirmam que a mensagem foi lida, mas não respondida. Passámos a fazer arqueologia digital, a tentar decifrar o tom de um ponto final num SMS ou a demora de trinta minutos numa resposta. "Estará a fazer fita? Estará com outra pessoa? Ou foi só o telemóvel que ficou sem bateria?".

    A verdade é que a tecnologia mudou o embrulho, mas o conteúdo do namoro recusa-se a mudar. O frio na barriga antes de um encontro continua a ser o mesmo, quer o convite tenha sido feito por carta ou por mensagem direta no Instagram. O ciúme, a cumplicidade, a partilha de piadas privadas que mais ninguém entende e o conforto de saber que há alguém que nos escolhe todos os dias permanecem intactos.

    Talvez o grande desafio do namoro atual seja aprender a desligar o Wi-Fi para ligar a atenção. Porque, no fim de contas, nenhuma inteligência artificial ou algoritmo de conversação consegue substituir o luxo analógico que é olhar nos olhos de alguém, em silêncio, e perceber que encontrámos o nosso lugar no mundo.

O Luxo de Não Fazer Nada

    Diz o ditado popular que "o tempo é dinheiro", mas algures na azáfama do século XXI transformámos essa máxima numa obsessão perigosa. Hoje, estar ocupada é o novo símbolo de estatuto social. Se perguntamos a alguém "Como estás?", a resposta raramente é "Estou em paz" ou "Estou tranquila". O mais provável é ouvirmos um suspiro cansado, seguido de um "Sempre a correr" ou "Com imenso trabalho, nem imaginas". Olhamos para a nossa agenda preenchida como um guerreiro olha para o seu escudo: uma prova de valor perante o mundo.
       
    A verdade é que desaprendemos a arte de não fazer nada. E não me refiro a deitar no sofá a fazer scroll infinito no ecrã do telemóvel  porque isso, embora pareça descanso, continua a ser consumo ativo de informação. Refiro-me ao ócio puro, àquele tédio gerador de ideias que os gregos antigos tanto defendiam.
    
    Pensamos que estamos a otimizar a vida quando ouvimos um podcast enquanto cozinhamos, ou quando respondemos a e-mails na passadeira do ginásio. Mas a que custo? A nossa mente tornou-se um navegador de internet com demasiadas abas abertas em simultâneo. O computador acaba por bloquear, e nós também.

    O verdadeiro luxo dos nossos dias já não é a posse de objetos caros; é a posse do nosso próprio tempo. Reivindicar uma tarde para ver as nuvens passar, para tomar um café sem olhar para o relógio ou para, simplesmente, deixar o pensamento circular sem rumo, não é preguiça. É um ato de resistência e de sobrevivência mental. Afinal, as melhores ideias da humanidade não nasceram sob a pressão de uma data-limite (deadline), mas sim no silêncio de um momento de pausa.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Entre o cansaço e a superação

O ginásio é um espaço onde o corpo se movimenta, mas onde também a mente aprende a resistir. Entre halteres, passadeiras e música alta, cada pessoa trava batalhas silenciosas contra o cansaço, a insegurança e a falta de motivação. Há quem procure saúde, quem queira mudar a aparência e até quem apenas precise de fugir ao stress do dia a dia. No fundo, todos chegam ali com um objetivo diferente, mas com a mesma vontade de melhorar.


Ao entrar num ginásio, percebe-se rapidamente que o esforço não se mede apenas pelo suor. Existem dias em que o treino parece leve e outros em que até levantar da cadeira custa. Ainda assim, é precisamente nessa disciplina diária que nasce a verdadeira mudança. O progresso não aparece de um dia para o outro; constrói-se lentamente, repetição após repetição. É uma lição que ultrapassa o exercício físico e serve para a própria vida.


Também é curioso observar como o ginásio se tornou um reflexo da sociedade moderna. Muitos treinam para publicar resultados nas redes sociais, enquanto outros preferem evoluir em silêncio. Há competição, vaidade e comparação, mas também amizade, incentivo e superação. Entre máquinas e espelhos, criam-se rotinas, hábitos e até relações humanas inesperadas. O ginásio acaba por ser um pequeno retrato das ambições e fragilidades de cada pessoa.


No final, mais importante do que ter músculos definidos é desenvolver força interior. O ginásio ensina persistência, paciência e autoconfiança, qualidades que fazem diferença fora daquele espaço. Cada treino concluído representa uma pequena vitória pessoal, mesmo que ninguém a veja. Talvez seja por isso que tantas pessoas regressam todos os dias: porque ali não treinam apenas o corpo, treinam também a capacidade de nunca desistir.



Tamir Varela


sexta-feira, 22 de maio de 2026

Não te quero perder

Existe amores que entram devagar na vida de uma pessoa, quase sem pedir licença. Chegam em conversas pequenas, em olhares demorados, em detalhes tão simples que ninguém imaginava um dia ser possível. E depois, sem percebermos quando aconteceu, aquela pessoa passa a morar nos nossos pensamentos, nos nossos hábitos, nos nossos silêncios. Passa a fazer parte daquilo a que chamamos “VIDA”.


E começa a nascer o medo.


O medo de perder alguém não começa no fim, mas sim quando percebemos o quanto a presença da pessoa nos acalma. Amar alguém é entregar uma parte vulnerável de nós. É confiar nas mãos de outra pessoa algo que demorámos anos a construir, o coração.

“Não te quero perder” não é apenas uma frase romântica, é uma confissão, é carinho, é a tentativa de salvar algo antes que o tempo, a distância ou o silêncio o destruam.


Existem muitas formas de perder alguém.


Há quem se perca por falta de amor, mas há quem se perca apesar dele. Acabamos por perder-nos no excesso de orgulho, nas palavras que não dissemos, nas mensagens ignoradas, nas discussões que começaram por coisas pequenas e que criaram muros enormes. Às vezes duas pessoas amam-se profundamente e mesmo assim afastam-se, porque amar nem sempre significa saber cuidar.


Talvez o amor seja exatemente isso: cuidado.


Cuidar é reparar quando o outro muda o tom de voz, é perceber o cansaço escondido atrás de um “está tudo bem”. É ficar nos dias difíceis, quando já não existe encanto cinematográfico nem frases perfeitas, porque o verdadeiro amor não vive apenas dos momentos bonitos, mas sim da paciência, da compreensão e da escolha diária de ficar.

Existem noites em que o medo de perder alguém pesa mais do que o próprio sono. Acabamos por ficar presos em memórias, a ler conversas antigas, a reviver os abraços, a pensar em tudo o que ainda queríamos dizer. E no meio disto percebemos algo assustador, algumas pessoas tornam-se insubstituíveis.

Não porque sejam perfeitas, porque nos conhecem de uma forma que ninguém mais conhece. Sabem onde sorrimos, onde fingimos ser fortes e mesmo assim escolhem ficar.

Talvez seja por isso que custa tanto imaginar a ausência, porque perder alguém que amamos não é apenas perder uma pessoa, mas perder uma rotina, um refúgio, uma versão de nós mesmos que só existia com ela.


O amor tem outro lado, o lado bonito da coragem. Dizer a frase “não te quero perder” exige verdade, exige baixar defesas, abandonar máscaras e admitir dependência emocional num mundo que nos ensina a parecer frios e independentes.

No fundo, só queremos alguém que lute por nós. Alguém que, no meio do caos, escolha ficar. Alguém que transforme despedidas em recomeços.


Talvez o amor verdadeiro não seja aquele que nunca falha, mas aquele que mesmo ferido, ainda encontra força para dizer:


“FICA. ENTRE TUDO O QUE A VIDA ME PODE TIRAR, PERDER-TE SERIA A DOR QUE EU NÃO SABERIA SUPORTAR”

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Aquilo que deixamos de ver

Habituamo-nos tão depressa às coisas boas, que acabamos por deixar de as ver.

Transformamos pequenos privilégios em rotina sem sequer perceber. A casa onde voltamos todos os dias, as pessoas que estão sempre presentes, os momentos simples que, por acontecerem tantas vezes, deixam lentamente de parecer especiais. Como se aquilo que é constante deixasse automaticamente de ter valor.

Passamos tanto tempo focados naquilo que nos falta, que nos esquecemos de olhar para aquilo que já temos. Queremos sempre mais tempo, mais dinheiro, mais conquistas, mais qualquer coisa. E, no meio dessa procura constante, acabamos por ignorar coisas que, noutro momento da nossa vida, talvez tivéssemos desejado profundamente.

O mais estranho é que, muitas vezes, só percebemos o valor de algo quando deixamos de o ter. Quando a rotina muda, quando alguém se afasta, quando um momento deixa de acontecer da mesma forma. É aí que percebemos que aquilo que parecia normal era, afinal, importante.

Talvez a rotina tenha essa capacidade silenciosa de esconder as coisas boas debaixo do hábito. Tudo continua lá, mas deixamos de reparar. Como quem passa todos os dias pelo mesmo lugar e, passado algum tempo, já nem levanta os olhos para o observar.

E talvez seja por isso que estamos constantemente à procura de algo novo, como se a felicidade estivesse sempre no próximo momento e nunca naquele onde já estamos. Procuramos tanto aquilo que ainda não chegou, que deixamos escapar aquilo que já fazia parte da nossa vida.

No fundo, talvez o problema nunca tenha sido a falta de coisas boas. Talvez tenhamos apenas desaprendido a repará-las.


Inês Garção

quarta-feira, 20 de maio de 2026

​O Silêncio antes do Tiro

O despertador ainda não tocou, mas os olhos já estão abertos. Na verdade, há quem diga que o corpo acorda ali, naquele minuto, mas a verdade é que a mente nunca chegou a adormecer. Ficou em vigilância, a correr pistas imaginárias no teto do quarto, a antecipar curvas, a contar os passos até à meta. 

Há uma solidão tremenda nas horas que antecedem uma prova. Um turbilhão silencioso de sentimentos, entre os quais, nervos e ansiedade. O deitar na cama na noite antes da prova faz-nos quase ser filósofos, de tanto que pensamos. Pensa-se se podemos não fazer a prova. Se vão estar muitas pessoas ou se faremos um mau tempo.  

Verbalizar a palavra prova ou ouvi-la cria ansiedade no peito e complexos grandes na mente. O que queima no peito antes da partida não é o medo de perder a corrida, é o medo de não honrar o caminho que nos trouxe até aqui. 


O levantar, vestir e fazer a mochila deixa o coração a tremer, as mãos inquietas e as pernas fracas. O pequeno-almoço não tem grande sabor e a fome parece nem existir. Uma prova parece ser só correr e dizem-nos sempre para não ficarmos nervosos mas não fazem ideia de que a prova já começa ao acordar quando lutamos contra a nossa própria mente porque o atletismo mais do que físico é uma prova mental connosco próprios. 

Sair de casa com a mochila às costas é cruzar uma linha de não retorno. O caminho até à pista é feito de um silêncio profundo de fones nos ouvidos a ecoar apenas a música para levar a mente a distrair-se enquanto ainda é possível. Mas quando o carro estaciona e temos de sair parece que nos falta oxigênio para respirar normalmente. O burburinho das bancadas, o som metálico dos altifalantes a anunciar as séries e o bater seco dos sapatos de bicos no chão transformam o ambiente. Vemos os outros atletas. Na nossa mente, já fragilizada, todos eles parecem mais calmos, mais rápidos, mais preparados. Sentimo-nos pequenos dentro da nossa própria pele. Entrar na pista para o aquecimento é como estar na praia e começar a chover. O coração bate na garganta, as mãos continuam frias e o suor que nos escorre pela testa ainda é de pura ansiedade. O corpo resiste, pesado, como se nos implorasse para não o submetermos àquela dor. Antes de pisar a pista, antes sequer de ouvir o barulho das bancadas ou o sinal de partida, a verdadeira batalha já foi travada e ganha no balneário: a batalha de aceitar o medo, respirar fundo e, ainda assim, dar o primeiro passo em frente. 


Mas depois, acontece o milagre 

do foco. 


Colocamos o dorsal na camisola, chamam o nosso nome e caminhamos para a linha de partida ou para os blocos. Os nervos não desaparecem por milagre. Eles continuam lá, a esmagar o peito. As pernas ainda parecem de chumbo. Mas há um segundo. Um único segundo. Entre o "aos vossos lugares" e o tiro, em que o turbilhão silencia. O erro de quem está de fora é achar que o nervosismo nos enfraquece. Não percebem que este turbilhão é o corpo a blindar-se. O medo não nos paralisa, afia os nossos sentidos. E quando o dedo do juiz de partida se aproxima do gatilho e o silêncio faz-se sentir na pista, aquela mente que nos massacrou desde o acordar finalmente cala-se. Ela sabe que a guerra connosco próprios já foi ganha. Agora, é só correr. 

E a verdade é que eu ainda não corri, mas já me sinto neste turbilhão de sentimentos só de escrever esta crónica. 


Não perturbes

 Há uma crueldade discreta em estar sentado numa cadeira, imóvel, aparentemente entregue ao grande desporto nacional de não fazer ponta de um corno, enquanto por dentro se passa uma espécie de congresso clandestino, com ideias a levantar a mão sem ordem, memórias a interromper assuntos que não lhes dizem respeito, frases que aparecem tortas mas com potencial, dúvidas a circular de um lado para o outro como funcionários das Finanças à procura de uma impressora que funcione, e tudo isto sem que haja, do lado de fora, qualquer sinal minimamente convincente de produtividade, porque uma pessoa que pensa não sua necessariamente, não levanta tijolos, não carrega sacos de cimento, não tem uma bata, não tem um crachá, não tem sequer a decência visual de estar a escrever num papel, o que ajudaria imenso, admito, porque o papel sempre dá aquele ar respeitável de quem sofre com método, mas às vezes nem papel há, nem caneta, nem secretária, nem espaço físico onde se possa dizer “pronto, agora vou isolar-me e transformar este caos numa coisa com princípio, meio e fim”, há apenas um corpo largado num sítio qualquer, talvez numa sala onde alguém vê televisão em volume de missa campal, talvez num café onde duas pessoas discutem o preço da dúzia de ovos como se estivessem a redigir a Constituição, talvez num quarto que não chega a ser abrigo porque também lá entram barulhos, mensagens, responsabilidades e pequenas merdas domésticas que parecem inofensivas mas têm a capacidade de assassinar uma ideia ainda em fase embrionária, e mesmo assim a cabeça trabalha, reorganiza, apaga, recupera, compara, rejeita, tenta outra vez, vai buscar uma imagem absurda, percebe que a imagem afinal é melhor do que a ideia original, abandona a ideia original com uma frieza quase criminosa e segue caminho, tudo isto enquanto quem passa olha e pensa que estamos apenas ali, parados, como um micro-ondas desligado, sem perceber que há um universo a tentar arrumar-se por dentro sem estantes suficientes, e talvez seja isso o mais difícil neste tipo de trabalho, não a escrita em si, mas a parte invisível antes dela, a fermentação, o tempo morto que afinal está vivo, o intervalo que afinal é oficina, a pausa que parece preguiça mas é só pensamento sem uniforme, até ao momento em que, finalmente, alguém nos vê calados e pergunta se se passa alguma coisa.

O Amor na Era do "Visto por Último"

       Namorar já teve as suas regras bem definidas. Houve um tempo  que hoje parece saído de um romance histórico em que namorar envolvia e...