quarta-feira, 28 de maio de 2025

Não é só copos e gajas

 Tenho, para mim, que é o planeta todo condensado num retângulo com o tamanho de uma rua de escala global e aromas que, de tão ricos e heterogéneos, ligam paladares de todos os povos Por muito, temos pouco de país e tanto de nação. Sendo ancestral a fundação que entrega história e, por isso, cheiro, sabor, arte e valor , depois, a sorte de, neste pedaço, conseguirmos concentrar todas as paisagens de todos os continentes. Uma maravilha ao alcance de afortunados tristes que não enxergam a fortuna e carpem à exaustão sabe-se por quê. 

Depois, até somos relativamente organizados, felizes, frescos e gente boa. E competentes, competitivos e bons. Lembro-me disto acabado de regressar do norte de África e ainda tocado pela dose de, como costumamos caraterizar: cultura, diferença, ritmo, e tudo aquilo que gravamos na pele. E, se me move uma profunda paixão por aquele território, no regresso a casa valorizo as coisas boas do meu.  

É bem mais que sol e praia, montanha ou património. Nem “copos e gajas”, como um neerlandês, perdido, ousou descrever. Nós até deixamos, além disso, algum malgasto, mas, final das contas... bate tudo certo. E, bate mesmo, porque cabeça fora de água e, refletindo, sabemos bem que, este país, que é para novos e velhos, está bem-feito para eles e tem caminho para se lhes construir com o planeta todo à frente dos olhos.  

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Nem te vou dizer o nome que tu conheces

 Eu tenho orgulho em ter nascido e viver no país que vivo, desde a sardinha assada ao belo do bacalhau, que é mundialmente conhecido por ser da Noruega, mas que como nós ninguém o faz, do ir com os amigos ver o gigante encarnado contra o vizinho cor de alface à tasca do vizinho ao ir ver a equipa da minha terrinha jogar no campo pelado. Do fado da eterna fadista que nos deixou perto da viragem do século ao hip-hop do João Ricardo, do calor infernal da terra que é invadida por turistas no verão, ao cantinho gelado no centro do território. O meu país é incrivel e eu vou-vos dizer porquê.


 Porque de onde venho, cada esquina tem uma história e cada rosto tem memória. Porque sabemos rir da desgraça e brindar até nas derrotas. Porque aqui a vida tem um sabor diferente, sabe a petiscadas ao fim de semana, aquele copinho depois de um dia de trabalho com os amigos, a bola no pé de uma criança que sonha ser o próximo número sete da seleção. É incrível porque conseguimos juntar mundos que parecem opostos: o silêncio profundo da região onde toda a gente se conhece e batem todos uma sesta depois de almoço ao caos delicioso das festas de Santo António em Lisboa que se encontrares alguém conhecido é porque foste com ele e o tinhas perdido no meio de tanta confusão. Porque tanto cantamos a saudade com uma guitarra como denunciamos a realidade com um beat.

É o país onde se diz “desenrasca” com orgulho, onde se improvisa com mestria, onde o “olhómetro” é a unidade de medida preferida do povo, onde pode acontecer a maior catástrofe possível que vai haver sempre alguém a dizer: “Já vi pior”.

Não consigo explicar o que sinto pelo meu país, só consigo senti-lo e por mais que continue esta crónica sobre um país que em termos de dimensões é tão pequeno e que de coração é tão grande não iria encontrar palavras para o descrever.

E querem saber  qual é a melhor parte disto tudo, é que ainda não vos disse que país é esse; que quando menciono pessoas, eventos, cidades ou regiões nunca disse o nome dos mesmos e mesmo assim quem está a ler isto sabe exatamente de que país estou a falar.


domingo, 25 de maio de 2025

Ao sol da liberdade

 

Esplanar”. A palavra não existe, mas tão usada e a atividade praticada, qualquer dia passa a oficial – como desporto nacional e partícula de dicionário. Por isso para poder dizer qualquer coisa sem, à partida, me por a jeito, é preciso contextualizar… no espírito. Adiante. Lá estava eu, a fazer algo de que não sou particular adepto, e, por isso, descrevo como os grandes adeptos. Fumando a vaporeta de um dos vizinhos do lado, um grupo heterogéneo, malta de várias idades, que no pensar estavam uns para os outros. Nós também, pelo menos no desporto de ocasião: “esplanávamos”. Lusco-fusco, mais que 5/7 minutos, uns refrescos, e mais outros refrescos, destrava línguas, pensamentos.

Claro que, da minha mesa à tua vai a mesma distância e, nem sempre os desportos coincidem. Guardam-se as fontes, mas ficam os conteúdos. “Vais votar”; “Não sei, mas se for voto no X que limpa isto tudo”.  O excerto não é rigoroso, mas se alguém estiver a ler isto compreende que o gasoso dos refrescos faz mal à memória de curto prazo. Moral da história, e dado que, isto é um facto, aconteceu fora do círculo eleitoral de qualquer dos líderes partidários candidatos às últimas legislativas: ninguém, naquela conversa, estava com a noção do que se iria votar, para que se iria votar, mas havia uma certezinha absoluta da marca e numa pessoa.

Há a total emancipação democrática para fazer escolhas, poder expressá-las e votar. Talvez não se esteja a explanar muito bem, ao grosso da população e, principalmente, aos novos votantes a arquitetura institucional do país e as conquistas dos últimos 50 anos. Também é verdade que, defendendo a liberdade, defendemos todos, numa esplanada ou a partir dela ainda que conscientemente num quadro de preocupante retrocesso e eventual perda de direitos liberdades e garantias, porventura cavado pelo punho daqueles que os dão como adquiridos.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Portugal, um país de promessas por acabar

 Crescemos a ouvir que somos o futuro, mas o futuro nunca mais chega. Em Portugal, ser jovem é andar com a sensação de que estamos sempre numa sala de espera. Há quem diga que somos a geração mais preparada de sempre, e talvez até sejamos, mas preparados para quê, quando tudo à nossa volta parece ser feito para nos empurrar para fora?

Dizem-nos que temos de estudar, trabalhar, fazer estágios, aprender línguas, ter iniciativa, mostrar vontade. Fazemos isso tudo. E no fim? Contratos a prazo, salários de miséria e rendas que nos mandam de volta para casa dos pais. O caminho é sempre a subir, mas a paisagem raramente muda.

Portugal adora a juventude, mas somente nos cartazes. Nos discursos. Nos relatórios que ninguém lê. Mas quando chega a hora de dar espaço, oportunidades, ou sequer um voto de confiança, somos tratados como se ainda não soubéssemos nada do mundo. Como se fôssemos um rascunho à espera da versão final. E enquanto isso, os que podem, vão embora. Os que ficam, vão aprendendo a sobreviver no intervalo entre a frustração e o conformismo.

Existe talento em todo o lado. Em escolas secundárias onde faltam aquecedores, mas sobram ideias. Em universidades onde se cria com o que há, mesmo que seja pouco. Em bairros onde se inventa arte, se escreve, se dança, se vive com força apesar do aperto. Mas o país tem uma maneira estranha de tratar os seus jovens como se fossem um luxo, e não um investimento.

Somos muitas vezes acusados de não querer trabalhar, de viver na internet, de querer tudo de para ontem. Mas o que queremos, na verdade, é simples, a possibilidade de construir uma vida aqui. Com dignidade. Com tempo. Com espaço para errar sem que isso nos custe tudo. Com futuro.

Portugal não é um país mau. É bonito, é nosso, tem coisas boas que nos seguram mesmo quando tudo nos empurra para longe. Mas também é um país que ainda não aprendeu a cuidar dos seus jovens como deve ser. Que ainda olha para nós como um problema a gerir, e não como a solução que já cá está.

Mas era bom que um dia, o país também viesse ao nosso encontro. Que deixasse de dizer “um dia” e começasse a dizer “agora”.

terça-feira, 20 de maio de 2025

Estrangeirismo à la carte

Portugal, o país onde damos a volta ao mundo sem precisar de apanhar  um avião, terra onde é moda falar inglês e tanto se come um “brunch” ou um “sushi” quanto uma feijoada ou uma fartura.

Pois bem Portugal é mais dos de fora do que dos que cá vivem. 

É sem dúvida um país de contrastes, onde o fado é abafado pela música “pop” , uma fotografia passou a ser um “selfie”, onde me sento numa esplanada  e oiço inglês e em vez de Português, adaptamo nos tanto à língua inglesa e às culturas internacionais  que passou a ser o nosso dia a dia .

Há uns anos passávamos  nas ruas portuguesas e  cheirava a sardinha, ouvíamos música portuguesa, comíamos comida tradicional, íamos ao cinema ver filmes portugueses , hoje são mais os restaurantes de comida Americana, Italiana, Tailandesa e Mexicana do que Portugueses  , a música  que se ouve é Americana e é rara a música portuguesa que ecoa nas ruas das cidades.

A nossa cultura foi-se desvanecendo enquanto as culturas internacionais foram conquistando o seu espaço. 

Até na roupa que vestimos fomos influenciados pelas modas e pelas tendências de lá fora e o vocabulário que usamos na área da moda  foi inundado com expressões americanas , uma camisola com capuz agora é uma “suéter” , o que eram apenas umas calças de ganga agora podem ser “skinny” , “baggy” , “wide leg” , “flare” e muitos mais porque umas calças de ganga nunca são apenas uma calças de ganga vêm sempre com uma palavra inglesa no bolso. 

E assim Portugal continua a reinventar-se entre o que é Português e o que chega do estrangeiro mas talvez não precisamos  de abdicar da nossa cultura para 

acolhermos outras,  porque o fado pode conviver com a música pop e o cheiro da sardinha pode muito bem dividir o espaço com o sushi ou com outras tantas gastronomias ao redor do mundo.

A cor da minha nacionalidade

 Ao longo da minha vida, quando me perguntavam de que país eu vinha, dizer que era portuguesa não era suficiente. Por ser uma jovem negra, assumem sempre que não nasci em Portugal.

"Mas de onde és mesmo?", insistem, como se a minha resposta estivesse incompleta. Eles querem uma origem que explique a cor da minha pele. Querem uma narrativa que faça mais sentido para eles do que a ideia de uma negra ser apenas portuguesa.

Sou portuguesa, com tudo o que isso implica, com os pastéis de nata e com o racismo subtil que se esconde nos detalhes do dia a dia. Com a saudade como herança e com a eterna sensação de não ser suficiente para um país que ainda não aprendeu a olhar para além do espelho colonial.

Ser negra em Portugal é viver constantemente a explicar-se. A minha nacionalidade é interrogada com mais frequência do que o meu nome. A minha identidade é vista como exceção, e não como parte integrante do que é ser português no século XXI.

Cresci entre livros, novelas e revistas que não tinham personagens que se parecessem comigo. Já ouvi a minha mãe a ser referida como “pessoa de cor”, o que honestamente deixou-me confusa. Por vezes, pergunto-me se o país em que nasci me reconhece. 

Recuso-me a ser apenas a filha de uma terra distante. Sou daqui. Faço parte deste chão, destas ruas, deste presente. O meu lugar não está à espera de ser legitimado. Já existe, mesmo quando insistem em ignorá-lo. Sou portuguesa. E isso devia bastar.


segunda-feira, 19 de maio de 2025

O País da Saudade

Portugal gosta de se imaginar como o país da saudade. Damos-lhe esse estatuto de património, exibimo-lo com orgulho como se fosse um traço de identidade nacional, quase tão nosso como o fado ou os cravos de abril. Mas poucas vezes paramos para pensar no que ela realmente significa. No que custa, a quem a carrega essa saudade do país que outrora era dele.

A saudade é bonita nas canções e nas campanhas turísticas. Lá fora, é sinónimo de alma profunda e coração quente. Mas para quem está fora é peso. É ausência. É aquilo que se sente quando o país que amamos, nos força a partir, como quem nos diz que gostava que ficássemos, mas não tem como nos manter.

Fomos fazendo deste sentimento uma bandeira. Como se fosse nobre viver de longe, lembrar de tudo com lágrimas nos olhos, idealizar o que ficou para trás. Mas a verdade é que o país da saudade é, muitas vezes, o país da desistência. O país que sabe cultivar a memória, mas não o futuro. Que embala com palavras bonitas os que partem, em vez de lhes dar razões para ficar.

Quem vive no país da saudade aprende a habitar dois tempos em simultâneo: o do que deixou e o do que tenta construir. E quase sempre sente que não pertence totalmente a nenhum. O passado pesa como a herança, o presente exige reinvenção constante, e o futuro... o futuro, depende do visto, do contrato e da sorte.

Sim, continuamos a amar este país. Continuamos a cantar na sua língua, a comer os seus sabores com orgulho, a seguir à distância os jogos da seleção como se fosse ali ao lado. Mas amar não é o mesmo que pertencer. E o país da saudade, esse que só existe para quem parte, é um lugar feito de nostalgia e desilusão, é uma nação sem fronteiras, mas cheia de fronteiras invisíveis.

No fim, talvez sejamos mesmo o país da saudade. Não por escolha, mas por consequência. Um país que se orgulha daquilo que sente, em vez de se comprometer com aquilo que podia mudar, um país que prefere ver partir e viver de recordações, do que fazer ficar e criar memórias.

Portugal, esse pequeno lugar que é tudo

 Portugal, esse pequeno lugar que é tudo

Há um país à beira-mar, deitado, como dizia Pessoa, que não sabe muito bem se está a descansar ou a tentar levantar-se outra vez. Portugal é esse lugar onde a luz é mais leve, onde o tempo parece andar devagar, mas a vida corre depressa. Um país onde se fala baixinho nas filas, mas se grita nos cafés e onde os problemas se encolhem com um “logo se vê”.

Somos um povo de extremos suaves. Sofremos com intensidade, mas calados. Temos uma história imensa e um presente pequeno, mas que nos serve. Somos melancólicos por defeito e esperançosos por teimosia. Choramos com fado e rimos com pouco. Dizemos mal de tudo, mas não deixamos que ninguém diga mal de nós. Lá fora somos "os melhores do mundo", cá dentro somos sempre “poucochinhos”. Portugal é aquela casa antiga que precisa de obras, mas onde se vive bem. Com azulejos que resistem ao tempo e paredes que guardam memórias de gerações. Temos mar, sol e vinho, mas também salários baixos, rendas altas e promessas políticas que caducam mais depressa do que o iogurte no frigorífico.

O português sabe viver com pouco, mas sonha com muito. Há quem parta por necessidade, mas nunca por gosto. Lá fora, os nossos fazem tudo: limpam hospitais, constroem pontes, ensinam línguas, dirigem empresas. E cá dentro? Cá dentro lutam. Esperam por concursos públicos, por lugares que não abrem, por reconhecimentos que não chegam. E mesmo assim, continuamos. Continuamos a fazer sopa, a votar, a ir ao café todos os dias. A dizer “bom dia” ao vizinho mesmo que esteja de trombas. A fazer piadas com a nossa própria desgraça. A acreditar, de quatro em quatro anos, que agora é que vai ser. Portugal é um país em que se diz "desenrasca-te" como quem entrega a alma à criatividade. É onde há fila para tudo menos para mudar as coisas. É onde um abraço pode durar mais que uma solução política e onde a solidariedade aparece nas tragédias, mas se esquece no resto do ano.

Mas é o nosso país. É aquele onde a saudade tem morada permanente. Onde a comida sabe à infância e a praia sabe a liberdade. Onde o futebol ainda une (e separa), e onde as avós têm mais poder que muitos ministros. Portugal é pequeno, sim. Mas carrega dentro de si um mundo inteiro. Um país cansado, mas que resiste. Que se zanga, mas não desiste. Um país onde tudo muda para ficar mais ou menos na mesma, mas onde, com sorte, um dia tudo muda mesmo.

E quando isso acontecer, vamos olhar para trás e dizer: “Estava na cara que ia melhorar... só que demorou um bocadinho.”

quarta-feira, 14 de maio de 2025

O país onde a alma descansa

Há quem diga que Portugal é um país pequeno.Mas, se olharmos com atenção, percebemos que a dimensão de um país não se mede em quilómetros quadrados, mede-se pela sua história, persistência da cultura e, sobretudo, na capacidade de se reinventar a cada geração. O português é um povo que aprendeu a viver com pouco mas com beleza. Sabe rir com ironia, chorar com dignidade e cozinhar como quem reza. Em cada prato há uma memória, e em cada memória, um pouco de mar. Bacalhau, sardinha, polvo tudo temperado com azeite e silêncio. 


Portugal é feito de contrastes suaves. Tem praias que se prolongam até onde a vista se cansa, mas também montanhas que se elevam em silêncio. Tem cidades cheias de história em cada pedra, mas onde a modernidade espreita nos elétricos que ainda percorrem ruas antigas. Lisboa, por exemplo, canta o fado entre becos e miradouros, enquanto o Porto guarda um orgulho que se serve em copos de vinho e se estende nas margens do Douro. E o Alentejo… o meu querido Alentejo onde os campos são infinitos e o silêncio tem som. As planícies ondulam em tons de dourado, como se o sol tivesse decidido morar ali. As aldeias brancas repousam entre sobreiros e oliveiras, e as pessoas falam devagar, como quem respeita cada palavra. No Alentejo, a vida é uma conversa à sombra, um pão com queijo e um copo de vinho tinto ao fim da tarde. 


Talvez seja a saudade, a palavra que melhor define Portugal. Saudade de quem partiu, de quem ficou, do que fomos e do que ainda queremos ser. Uma espécie de nostalgia que não dói, mas que arrebata. Portugal vive nessa melancolia doce que mistura passado com esperança. E, no fim do dia, quando o sol se põe, se despede nas margens do Douro ou mergulha devagar nos campos do Alentejo, há uma certeza silenciosa: Portugal continua aqui. Pequeno, talvez. Esquecido às vezes. Mas firme, resistente e profundamente belo na sua maneira discreta de ser eterno.


terça-feira, 13 de maio de 2025

Liberdade para todos (desde que pensem como eu)

A liberdade é um pássaro que todos dizem querer, mas que muitos mantêm engaiolado, por medo, por comodismo, ou por puro esquecimento de como é voar.

Há quem a confunda com o direito de dizer o que pensa sem consequências, mas a verdadeira liberdade começa quando se aceita que os outros também a têm. É fácil exigir liberdade para si; o difícil é concedê-la aos que pensam de forma diferente. Vivemos numa época em que se grita "Liberdade!" num único som, mas só quando todos os coros dizem o mesmo. O “outsider”, o estranho, o que fala fora do ritmo; esse é logo acusado de atrapalhar a melodia.

A liberdade não é só fazer o que se quer, mas também suportar o peso das escolhas. Há quem a troque por segurança, por aprovação, ou por uma vida mais leve, sem perceber que, ao fazê-lo, entrega algo que depois nunca consegue recuperar inteiro. Os tiranos de antigamente impunham grilhetas; os de hoje convencem-nos a colocá-las nós mesmos, em troca de uma falsa sensação de conforto.

E no entanto, a liberdade teima em resistir. Está no gesto do artista que pinta o que não deve, no riso que escapa a uma hora imprópria, no silêncio de quem se recusa a dizer o que não sente. Por vezes, é apenas um ato minúsculo, um não, dito baixinho, um passo dado na direção contrária à da multidão.

No fim, talvez a liberdade seja isto, a coragem de ser incomodativo, mesmo quando o mundo prefere que sejas apenas conveniente.

 

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Liberdade é poder dizer que não

Lembro-me de quando era criança e perguntava tudo. Porque é que o céu é azul, porque é que não posso ir ali, porque é que há coisas que não se dizem. A resposta vinha sempre com um “porque sim” ou num olhar sério que me mandava calar.

Hoje somos todos adultos e dizemos que somos livres. Mas continuamo-nos a calar. Por medo de perder o emprego, por medo de sermos julgados, por medo do que os outros pensam. A liberdade, afinal, ainda assusta.

Até no jornalismo, que devia ser lugar de perguntas, há silêncios que se sentem. Nem sempre por censura, às vezes por cansaço. Outras, por falta de espaço para dizer o que realmente importa.

Liberdade, para mim, é poder dizer que não. Que isto não está bem. Que queremos mais. Que não vamos aceitar tudo o que nos servem. Porque nem tudo o que nos serve nos fica bem.

Mas também é poder dizer “sim” ao que nos faz bem. Às escolhas fora do padrão, ao amor sem rótulos, à coragem de mudar ideia. Ser livre é viver com margem para errar, para tentar outra vez, para não saber tudo.

Não é gritar mais alto, é poder escolher quando falar. E, às vezes, calar por vontade própria. Não porque mandam.

Ser livre não é ter medo, é conseguir respirar mesmo com ele ao lado. E isso, às vezes, já é uma pequena evolução.

A Liberdade

 

Existem palavras que ganham o seu próprio espaço, liberdade é uma delas. 

Grita-se alto quando se conquista, e fala-se com orgulho quando a sentimos. 

Em Portugal foi na madrugada de dia 25 de abril de 1974, que a liberdade mascarada de cravos vermelhos veio à rua e proclamou vitória com o povo português. 

Neste dia Portugal acordou diferente, um país onde antes se falava em segredo, onde a censura apagava as ideias e os pensamentos eram perseguidos, encontrou a coragem nas vozes de soldados que trocaram as balas das suas armas por cravos vermelhos que no dia 25 cobriram as ruas de portugal. 

A revolução devolveu o voto, a escolha, o pensamento, o direito de discordar, e principalmente devolveu o significado da palavra, liberdade.

Desde então que a liberdade está na sala de aula onde se debate sem receio, nas eleições que são feitas livremente, na imprensa que critica e informa, nas conversas de café que se fala de futebol, política ou arte sem censura.

Hoje a liberdade tem vindo a perder-se aos poucos, entre as leis que parecem inofensivas, discursos que levam ao ódio, e medos que justificam o controlo. 

Hoje cada vez mais a liberdade deixa de ser um direito e passa a ser um privilégio.

Como todas as conquistas, a liberdade exige memória, exige que ninguém se esqueça do tempo em que ela não existia. Que nunca se apague da história quem lutou por ela, e nem se banalize o seu valor. Porque a liberdade não é poder fazer tudo mas sim escolher tudo o que se faz, a liberdade é um direito e deve ser defendida acima de tudo. 


quinta-feira, 8 de maio de 2025

Liberdade, igualdade, atualidade

 Lembro-me de estar na aula de História no décimo primeiro ano e ouvir as palavras liberté, egalité, fraternité da Revolução Francesa. Toda aquela revolta com baguetes e queijo. Achei engraçado (não muito engraçado tendo em conta o contexto) a Maria Antonieta ter dito que se não havia pão, o povo poderia comer brioche. Refletindo sobre este acontecimento, sinto-me triste ao pensar que o povo francês estava na miséria e a rainha acreditava mesmo que eles conseguiriam arranjar um brioche.

O povo queria pão e queria liberdade. Liberdade para viver, para decidir, para existir com dignidade. Séculos depois, cá estamos nós, todos modernos, todos conectados, com mais direitos e hashtags do que cabe numa Constituição. E no entanto… ainda falta pão. Ou talvez falte liberdade.

Dizemos que somos livres. Que podemos ser quem quisermos. Que podemos dizer o que pensamos. Mas será mesmo assim? Há dias em que me pergunto se a liberdade não se tornou apenas mais um ideal bonito, uma daquelas palavras que se escrevem nas paredes das escolas e nos discursos dos políticos. Na prática, parecemos cada vez mais presos.

Presos ao medo de não sermos aceites. Presos ao receio de dizer algo que vá “ofender” alguém — não no sentido justo, de quem combate o preconceito, mas no sentido em que qualquer opinião pode ser distorcida, triturada e cuspida nas redes sociais por um grupo de desconhecidos com tempo a mais e empatia a menos. Vivemos numa era em que tudo é motivo para “dar hate”. Um erro, uma frase mal colocada, uma escolha diferente — e pronto, lá está o tribunal virtual a distribuir sentenças.

A liberdade, hoje, parece ter um preço: o julgamento constante. A vigilância disfarçada de likes. A necessidade de agradar toda a gente para não sermos “cancelados”. É cansativo e profundamente irónico.

Porque se há algo que a liberdade deveria significar, é precisamente o contrário: o direito a sermos autênticos, mesmo quando não encaixamos, mesmo quando discordamos. Liberdade é poder dizer “não penso como tu” sem medo de ser maltratado digitalmente. Liberdade é poder ser vulnerável. É poder existir fora da norma, sem ter de pedir desculpa por isso.

Talvez a Maria Antonieta nunca tenha dito aquilo do brioche. Talvez tenha sido só um boato conveniente. Mas o que é certo é que, enquanto houver quem não tenha liberdade para ser, sentir ou expressar sem medo, continuaremos todos um pouco na miséria. Não de pão, mas de empatia, escuta e coragem.


quarta-feira, 7 de maio de 2025

Liberdade é quando ?

 

Liberdade é quando

Liberdade é quando deixamos de pedir desculpa por existir. É quando o corpo respira e não pede licença ao chão para pisar firme. É quando a voz sai sem medo de tropeçar nas sílabas, sem receio de ecoar onde antes só se sussurrava. Liberdade não é um lugar, é um estado. É um gesto invisível que se reconhece na pele, na alma e nos olhos que se erguem, finalmente, sem medo de encontrar os olhos do outro.

Lembro-me da minha avó dizer que a liberdade cheirava a pão quente. Era a primeira fornada da manhã, quando ainda não havia barulho nas ruas e o mundo parecia mais limpo. Para ela, que viveu mais sob silêncio do que sob palavra, a liberdade era simples: era poder sair de casa sem que lhe dissessem como vestir, era poder amar sem fazer contas às consequências, era poder não saber tudo e mesmo assim não ser punida por isso. Mas a liberdade também pode ser um grito e há gritos que não se ouvem. São os que vêm de dentro, que não fazem som, mas mudam tudo. São as mulheres que um dia disseram "não" pela primeira vez. Os homens que choraram diante dos filhos sem vergonha. Os jovens que disseram "eu sou" num mundo que preferia que fossem "eles". Liberdade é também saber parar. Dizer “basta” ao que magoa, “adeus” ao que aprisiona, “nunca mais” ao que nos torna pequenos. Liberdade não é fazer tudo, é saber o que não se quer fazer. É recusar a violência, mesmo quando parece justa. É escolher a ternura, mesmo quando o mundo pede dureza. E há quem confunda liberdade com solidão, com rotura, com caos. Mas não. Liberdade é o oposto da solidão. Porque só somos livres quando o outro também o é. Quando a nossa escolha não oprime, não cala, não cancela. Ser livre é dançar no espaço entre o “eu” e o “nós” sem pisar os pés de ninguém.

Os muros caem mais depressa quando somos muitos. A liberdade tem disso: é contagiante. Cresce em silêncio, passa de mão em mão, entra pelas pequenas aberturas que lhe damos. Uma ideia, uma canção, um gesto de coragem basta para acendê-la. E às vezes, é só numa pequena esquina da vida que nos damos conta do seu peso. Uma porta que se abre sem ser trancada. Um beijo dado sem medo. Um filho que pergunta e não é punido por isso. Um corpo que existe como quer. Uma memória que já não dói.

Sim, a liberdade é frágil e talvez por isso é que seja tão preciosa. Precisa ser cuidada como se cuida de uma flor no deserto. Requer coragem, mas também vigilância. Exige amor, mas daqueles que amam com responsabilidade. Porque no fim, liberdade é quando e só quando  ninguém precisa de perguntar se é livre.

terça-feira, 6 de maio de 2025

Os Limites da Liberdade

Desde pequeno que ouço que vivemos numa sociedade livre, onde cada um pode dizer o que pensa, um privilégio imenso, segundo os mais velhos, que travaram uma luta antes de nós pela liberdade, seja ela qual fosse.

Todos os dias, na escola, na esplanada e ainda mais nas redes sociais, falam e usam essa liberdade de expressão como se fosse um passe livre para insultar ou humilhar. E não estou a falar de críticas mais duras, que fazem parte da vida, e que são essenciais. Falo antes daqueles comentários, que se disfarçam de críticas, como se fosse veneno, como piadas com imensa ironia ou comentários desnecessários.

Há momentos em que dou por mim a pensar, se esta tal liberdade ilimitada que a nossa geração pensa que tem, não acabou por nos “cegar” um pouco? Será que podemos falar em liberdade quando as nossas palavras esmagam os outros? Será mesmo liberdade de expressão, se invés de construir, as nossas palavras ou ações destroem? Sinceramente, não sei responder a estas questões, porém, sei que há uma diferença enorme entre discordar de algo e fazer críticas construtivas, e humilhar alguém.

Estas perguntas podem ser vistas como uma armadilha. Sempre que se tenta traçar limites, surge o medo da censura, do abuso do poder, como se fossemos regressar aos tempos antes do 25 de abril, tempos mais sombrios da ditadura.

Pode parecer simples responder a isto, mas não o é. Acho que acima de tudo, temos de pensar que temos liberdade de dizer tudo o que queremos, mas temos de falar com consciência. E perceber que as palavras, mesmo que por vezes inofensivas, têm peso, que podem ser pontes ou muros. Que podem confortar ou agredir.

No fundo, a liberdade de expressão é uma dádiva que temos, porém frágil. E com essa liberdade veio uma grande responsabilidade, preservá-la e usá-la com cuidado, porque, a nossa liberdade termina, quando a do outro começa.

sábado, 3 de maio de 2025

Tive um apagão

Parecia um puto. Fechei os olhos e até cheirava a novo. Eu. O resto estava tudo igual, mas diferente, sem Net o que, parecendo que não, muda tudo. Vários problemas: sem rede, como é que digo que não tenho Net, se nem há rede telemóvel, nem, nem nada porque ligámos tudo. Tecnologias que, quando crescem e se tornam adultas, atiram-nos para uma meninice de trevas sem mão ou boia de salvação.
A meio da viagem de trabalho, quando a energia escapou do sistema , ainda não se sabia nada mas a internet logo deu sinal e eu: "oh pá, aqui, há gato"... e havia. Na radio logo começaram a aventar-se as primeiras hipóteses, seguiram-se confirmações e... Acordei. Não era gato, andava uma manada de elefantes a sambar na península ibérica. O tremor daí resultante era perfeitamente imprevisível.
Durou pouco aquele sono imberbe. Já a sensação perdurou. Infinitamente parolo andei, telefone em riste, a caçar pauzinhos no visor do telefone como se dependesse da entrada de dados a salvação do planeta. Andava no meio do novo zoo e era de ligar a bimby para bombar diretos. Nem os dados entraram, nem o mundo acabou.
Vingou o rádio a pilhas, essa tecnologia bruta que reviveu o sonho com fato de gala e deu baile. Estudassem.
Raro, estranho e muito fora de brincadeiras é que, se nem o Presidente da República recebeu a SMS da proteção civil por que raio não se comunicou pela rádio que faz parte do kit.


A Voz que Rasga o Silêncio

Há palavras que carregam em si o peso da história, o eco de vozes que lutaram, sofreram, e por vezes, morreram. Liberdade é uma dessas palavras. Portugal conhece bem o sabor da liberdade conquistada. Há 50 anos, em Abril de 1974, cravos vermelhos floresceram nas espingardas e os tanques desfilaram pelas ruas de Lisboa, não para oprimir, mas para libertar. A ditadura caiu sem disparar uma bala, mas com milhões de corações a bater pelo mesmo ideal: falar sem medo, escolher sem imposição, viver com dignidade. No entanto, hoje, noutros cantos do mundo, essa liberdade continua a ser um luxo. 

Olhamos para o Irão, onde mulheres arriscam tudo por um cabelo ao vento. Vemos a Rússia, onde uma simples opinião pode valer anos de prisão. Ou a China, onde a liberdade digital é vigiada por algoritmos mais atentos que qualquer polícia secreta do passado. 

E em Portugal? Somos livres, sim, mas nem sempre conscientes do valor dessa liberdade. Queixamo-nos com razão da corrupção, da desigualdade, da falta de oportunidades. Mas esquecemo-nos, às vezes, de como seria viver num país onde criticar o governo significasse desaparecer durante a noite. Esquecemo-nos de que há menos de uma vida atrás, uma simples canção podia ser censurada. 

A liberdade é frágil. Cresce em solo fértil, mas morre com facilidade onde reina a indiferença. É por isso que devemos educar, discutir, votar. Porque o maior inimigo da liberdade, é o esquecimento.

Vemos e seguimos

A guerra cabe num ecrã de telemóvel, num vídeo de poucos segundos que vemos e esquecemos. Deslizamos para o lado e seguimos com o dia, como ...