sexta-feira, 24 de abril de 2026

Vemos e seguimos

A guerra cabe num ecrã de telemóvel, num vídeo de poucos segundos que vemos e esquecemos.

Deslizamos para o lado e seguimos com o dia, como se nada fosse. Em poucos segundos, aquilo que é a realidade de alguém torna-se apenas mais um conteúdo entre tantos outros. Vemos, reagimos por instantes e continuamos.

No meio de tantas imagens, a guerra deixou de ser um choque para passar a ser rotina. Já não nos surpreende, já não nos pára. Tornou-se mais uma notícia, mais um vídeo, mais um som de fundo num mundo que não abranda.

Mas do outro lado do ecrã, não há filtros nem pausas. Há casas destruídas, famílias separadas, vidas interrompidas. Há pessoas que acordam sem saber se o dia seguinte vai chegar. Pessoas como nós, com rotinas que poderiam ser as nossas, mas que foram substituídas pelo medo, pela perda e pela incerteza.

Talvez o mais preocupante não seja apenas a guerra em si, mas a forma como nos habituámos a ela. A facilidade com que transformamos sofrimento em algo distante, quase irreal. Como se, por estar longe, deixasse de ser urgente.

No meio de tanta informação, esquecemo-nos de algo essencial, não são números, são pessoas. Cada imagem que passa diante dos nossos olhos carrega uma história que não conhecemos, uma vida que continua, ou que, na maior parte das vezes, termina ali.

E enquanto continuarmos a tratar a dor dos outros como algo que se pode simplesmente deslizar para esquecer, a guerra não deixa de acontecer, apenas deixa de nos afetar.

Inês Garção


Ligados, mas cada vez mais distantes

 

Uma coisa que se tornou automática, tirar o telemóvel do bolso. Não por causa de uma notificação ou de um motivo. Basta não haver nada para fazer ou uma conversa ter acabado, que lá está ele nas nossas mãos.

Antigamente as pessoas encontravam-se, hoje, conectam-se. Parece a mesma coisa, mas não é. Aqui em casa, as coisas são muito claras, ninguém mexe no telemóvel à mesa. As refeições não servem apenas para matar a fome, servem para cada um contar como foi o dia, um momento de família.

O telemóvel aproximou bastante quem está longe, disso não há dúvida. Permite uma mensagem rápida, videochamadas, coisas que antes dependiam de cartas e muita espera.

Mas, por outro lado, afastou quem está perto. Às vezes estamos tão focados no telemóvel, que nos esquecemos da magia que é ter uma simples conversa com amigos e família. Por isso é que o apagão foi tão especial para mim, não havia rede nenhuma, mas estávamos todos mais ligados do que nunca.

Há algo que me deixa com os nervos à flor da pele, que é ver um grupo de amigos em silêncio, cada um no seu próprio mundo digital. Já não é estranho. Pelo contrário, tornou-se normal. E talvez seja isso que mais me assusta, a naturalidade com que olhamos para o ecrã, nem se aproveita o momento, o que verdadeiramente interessa, é registar.

E depois há a ansiedade. A necessidade de responder rápido, de não deixar mensagens “por abrir”, de manter uma presença constante. Como se desaparecer por umas horas fosse quase um ato de rebeldia. Como se o silêncio, que antes era natural, tivesse passado a ser interpretado como desinteresse.

Mas, apesar de tudo, o telemóvel não é o único vilão no meio disto tudo, porque afinal, é apenas uma ferramenta, poderosa, que amplia aquilo que já somos. A questão não é, nem nunca vai ser o objeto, mas o uso que lhe damos.

Talvez o desafio esteja em algo simples, estar. Estar numa conversa sem distrações, estar num jantar sem interrupções, estar num momento sem a necessidade de o partilhar imediatamente. Porque, no meio de tantas ligações, corremos o risco de perder o essencial, a ligação real, que é insubstituível.

E talvez, só talvez, a próxima grande revolução seja esta, pousar o telemóvel e olhar alguém nos olhos outra vez.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Trabalhos de grupo: uma experiência coletiva duvidosa

Há poucas coisas tão inevitáveis na universidade como os trabalhos de grupo. À partida, a ideia parece simples: colaborar, dividir tarefas, aprender em conjunto. Na prática, sobretudo em Portalegre, onde os grupos acabam por se cruzar dentro e fora da sala, tudo ganha outra complexidade.

O grupo forma-se com alguma rapidez. Trocam-se contactos, define-se um tema, marcam-se reuniões. No início, há entusiasmo. Todos querem contribuir, todos têm ideias. Fala-se de organização, de prazos, de divisão equilibrada do trabalho. Há uma espécie de acordo silencioso: isto vai correr bem.

Mas, com o tempo, a dinâmica começa a alterar-se. Há sempre alguém que responde menos às mensagens, alguém que adia, alguém que não aparece. E há também aquele que, por hábito ou necessidade, acaba por assumir a maior parte do trabalho. O equilíbrio, que parecia tão fácil no início, revela-se difícil de manter.

As reuniões tornam-se mais raras ou menos produtivas. As discussões alongam-se, mas nem sempre chegam a conclusões claras. E, muitas vezes, o grupo deixa de ser um espaço de construção coletiva para se tornar apenas uma forma de cumprir uma obrigação académica.

Ainda assim, há algo de interessante neste processo. Mais do que sobre a matéria, aprende-se sobre pessoas. Sobre responsabilidade, compromisso e limites. Sobre o que acontece quando vários ritmos têm de coexistir.

No final, o trabalho é entregue. A nota chega. E o grupo dissolve-se quase de imediato, como se aquela pequena comunidade temporária nunca tivesse existido.

Fica, no entanto, a experiência que nem sempre é fácil, mas difícil de ignorar.

“Preto é uma cor” – E Portugal está negro de Fúria

 Vivemos num país onde o “bom português” ainda acredita que discutir política no café é um desporto olímpico e que o “deixa andar” é uma filosofia de vida – peremptoriamente nacional. Portugal é aquela casa que está sempre “quase arrumada”, onde o caos é uma forma de decoração e a anarquia é só mais uma palavra cara que aprendemos a dizer entre um copo de tinto e uma bica curta.

Tudo aqui é feito a meias: meio indignados, meio conformados, meio revoltados – o que, somando tudo, dá um inteiro de nada. Somos o povo que protesta no sofá, consuma a sua revolta nas redes sociais e depois vota “no menos mau”, como quem escolhe o prato do dia depois de descobrir que já não há francesinha.

Há quem diga que Portugal é um país triste. Eu acho que é só um país com sono. Um sono antigo, daqueles pesados, de quem dorme desde o Estado Novo e só acorda de quatro em quatro anos, quando há eleições ou quando o Benfica perde. E mesmo aí, o despertar é breve – uma piscadela de olho, um bocejo de indignação e lá voltamos ao torpor confortável do “não há nada a fazer”.

A nossa anarquia é mansa, feita de filas nas Finanças e revoluções nos comentários do Facebook. Queremos mudar o mundo, mas primeiro temos de ver se há vaga para estacionar. Falamos da Europa como se fosse um condomínio onde nunca fomos à assembleia, mas pagamos as quotas todas, com ar de mártir.

No fundo, Portugal é aquele amigo que tem imenso potencial, mas prefere ficar no café a filosofar sobre o preço do café. Um país que se leva tão pouco a sério que até a tragédia vira piada – e a piada, inevitavelmente, acaba por se tornar tragédia outra vez.

Mas, enfim, preto é uma cor. E nós, os portugueses, ainda achamos que o cinzento é o suficiente.

Vivemos entre promessas de modernidade e vícios de aldeia. O capital continua a girar nas mesmas mãos – aquelas que seguram a pátria como se fosse um cofre pessoal. Esperamos sempre uma subvenção milagrosa que resolva a inércia nacional, como se o Estado fosse uma fada-madrinha de fato e gravata. O povo, com o seu plebeísmo ingénuo, vai rindo da desgraça enquanto os de cima escrevem discursos pernósticos sobre “resiliência”.

E, claro, lá vem o espantalho da vez: a “invasão” dos imigrantes. O novo brinquedo retórico da extrema-direita, que descobriu que é mais fácil culpar quem chega do que encarar o que nunca se fez. Falam de “identidade nacional” como quem fala de um objeto perdido, e berram nas televisões que “o país está a mudar”. Pois está – e ainda bem. Porque se dependesse de alguns, ainda andaríamos de carroça, mas com bandeira na janela.

A cultura, coitada, é o parente pobre de um país que se gaba de Camões, mas não lê um livro desde o secundário. Vive à conta de apoios que nunca chegam, de artistas que sobrevivem com mais fé do que fundos, e de políticos que confundem arte com entretenimento. Mas tudo bem, desde que haja festivais e selfies.

Portugal é isto: um palco pequeno com ambições de Hollywood, onde todos querem ser protagonistas, mas ninguém quer decorar o texto. E talvez seja por isso que o riso é o nosso último ato de coragem – rir do que somos, rir para não chorar, rir porque é a única forma de manter viva a esperança de que um dia, quem sabe, o preto volte a ser apenas uma cor.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

O silêncio que se senta à mesa

A luz foi abaixo, a água parou de correr, a internet deixou de funcionar. Fez-se silêncio. Podia ter sido um corte geral, mas não foi. E é aí que a casa para. 

A água e a luz são o básico. Mas quando se fica sem, sente-se um vazio. É como se nos tirassem a roupa e ficássemos despidos. De repente, a casa parece outra. Sem o zumbido do frigorífico e sem as vozes da televisão, percebi que não sabia muito bem o que fazer comigo. É estranho como nos habituamos a ter sempre tudo pronto a usar, a não ter de pensar em como as coisas funcionam. O tempo começou a passar de outra maneira. Mais devagar. O silêncio deixa de ser ausência de ruído e passa a ser o palco onde os meus pensamentos, antes distraídos, agora se sentam à mesa comigo. Durante o dia aprende-se a apreciar a beleza das pequenas coisas. A luz do sol, o movimento da rua, os passarinhos, o movimento das nuvens. Sem ecrãs, sem luz, sem nada em casa que me prenda, tudo ganha outra dimensão. Quando nos debruçamos sobre a janela, parados ali a olhar para a rua os pensamentos multiplicam-se. A mente cria um nó difícil de desfazer. O corpo está ali, presente na casa em pausa, mas a mente voa sem darmos por isso. Aproveitar enquanto há luz lá fora para carregar telemóveis, ir buscar água às fontes tornou-se uma realidade do dia-a-dia. Tudo isto cria confusão. Cria frustração. Cria ansiedade. Cria acima de tudo incerteza. Depois do pôr do sol, tudo isso ganha mais peso. O céu passa de azul para preto. A claridade que irradiava as paredes deixa apenas a sombra das velas. Do lado de fora os prédios acendem. Do lado de dentro come-se sem se ver bem o que o garfo espeta. Toma-se banho sem luz no teto. Anda-se com a lanterna na mão. Deita-se com a esperança de um dia melhor. 


Pessoas que nos marcam

Há pessoas que nos marcam, especialmente quando estamos longe de casa. As pessoas deslocadas vão perceber isto que falo. Há um silêncio estranho que se instala quando tudo é novo: as ruas, os cheiros, as rotinas, até o próprio reflexo no espelho parece um pouco deslocado. E é nesse vazio que certas pessoas entram, devagarinho, sem pedir licença, e acabam por se tornar abrigo.

A minha madrinha de faculdade foi isso mesmo, um abrigo. Em Portalegre, onde tudo me parecia distante e frio ao início, foi ela que trouxe calor. Não com grandes gestos, mas com pequenas coisas que pesam mais do que qualquer discurso: um “já comeste?”, um abraço, uma mensagem nos dias mais difíceis. Fez daquela cidade, que não era minha, um sítio onde eu podia descansar o coração.

Há pessoas que não têm obrigação de ficar, mas escolhem ficar. E isso muda tudo. Porque quando alguém nos vê, na nossa fragilidade e decide permanecer, cria-se um laço que não se explica, sente-se. Foi assim que Portalegre deixou de ser só um ponto no mapa e passou a ser casa.

Hoje percebo que não são os lugares que nos prendem, são as pessoas. São elas que dão significado às ruas, às memórias, aos dias comuns. E a minha madrinha, sem saber, construiu em mim um lugar seguro que levo para onde quer que vá.

Porque no fim, são essas pessoas que nos salvam do vazio de estar longe, e nos ensinam que, mesmo fora de casa, nunca estamos verdadeiramente sozinhos.


Beatriz Maia

O comércio local nas Aldeias!

Nas aldeias, o comércio local continua ainda a ser muito importante para todos aqueles, que nela habitam. Nessas lojas de comércio local, não há a música alta, nem as promoções em cartazes fluorescentes, apenas uma música de ambiente, a conversa com os clientes e o arrumar sossegado das prateleiras.

No comércio local não é apenas para vender os produtos das prateleiras, é diferente. Nestas lojas quem entra não é só cliente, é o “filho de alguém”, “a senhora que mora na rua de cima”, o menino que vem sempre comprar um geladinho”. São estas pequenas coisas, que criam as memórias, sem a presença de tecnologias, sem pressa, feita de pequenos gestos e hábitos repetidos.

Antigamente e nos tempos dos nossos bisavós, avós, o que existia nas aldeias e mesmo nas cidades era apenas as lojas de comércio local. O ir às compras deles, não eram apenas ir às compras, como nós atualmente fazemos, era de uma maneira diferente. Quando eles iam às compras faziam-no de uma forma sossegada, calma e de muitas histórias e memórias que contavam e que viviam enquanto faziam as suas compras. Isto é possível, porque nas aldeias a maioria das pessoas conhecessem umas às outras e conviviam muito, porque não saiam das aldeias e estavam sempre com essas mesmas pessoas.

Hoje em dia, esta realidade é bastante diferente, o comércio local continua a existir, mas já de uma forma muito diferente. Isto deve-se a existência de uma enorme diversidade de supermercados e não só, pelo aparecimento das tecnologias e de novas formas de fazer compras, porque à distância de um clique, podemos fazer compras online e tê-las à porta de casa. E no meio disto tudo, perdeu-se e está a perder-se alguma coisa difícil de nomear. Talvez seja o tempo. Talvez seja o encontro. Talvez seja essa estranha sensação de pertencer a um lugar.

As lojas das aldeias começam a fechar, e existem cada vez menos lojas de comércio local. Porque as pessoas mais antigas, eram elas quem compraram nestas lojas e atualmente existe este problema pelo facto de as pessoas já não comprarem nestas lojas e irem comprar para supermercados maiores com uma maior diversidade de produtos e de marcas. E, no entanto, ainda há resistentes. Abrem a porta do seu estabelecimento, não apenas para vender, mas para manter aquilo que é uma certa ideia de comunidade.

Esta situação acontece, pois a maioria das pessoas que fazem compras nestas lojas de comércio local nas aldeias, são as pessoas com idade mais avançada, ou não têm transporte para irem a outros sítios, também estão mais debilitados na saúde e preferem assim fazer a sua rotina ali na aldeia, mas também preferem continuar a ter um momento de convivência na loja da aldeia, onde vão todos os dias comprar o pão e ter sempre uma conversa com quem encontram pelo caminho, mesmo com a senhora da  loja e com os clientes, que por vezes são amigos, vizinhos, família.

As pessoas mais jovens, já não frequentem muito as lojas de comércio local nas aldeias, essas pessoas preferem frequentar os supermercados que têm uma maior diversidade de produtos e marcas, mas também para essas pessoas assim o exige irem outros sítios, uma vez que se temos mais diversidade vamos sempre às vezes experimentar coisas novas e atualmente com o preço das coisas, temos sempre em atenção os preços de supermercado para supermercado. Com isto, não é uma crítica às pessoas que não frequentem as lojas de comércio local, é perfeitamente compreensível que as pessoas mais jovens vão a esses supermercados maiores nas cidades, porque sempre estiverem habitados assim e agora tornou-se uma rotina para essas pessoas, e as pessoas mais idosas frequentem esses sítios, porque tiveram toda a sua vida a frequentar esses lugares e fazem disso uma parte da sua rotina no seu dia a dia.

Por isso, independentemente da existência de novos supermercados e de novos investimentos de supermercados, produtos, marcas, acho assim que as lojas de comércio local, devem continuar a existir nas aldeias, porque se acabar as pessoas que frequentem essas lojas iriam ficar sem a loja onde foram toda a sua vida e além disso com o fecho das lojas, a aldeia começa a ficar mais pobre, com menos convivência, com menos conversa, e mais pobre. 

O comércio local não é perfeito, nem precisa de ser, como nada na vida é. Mas é humano, e talvez seja isso que o torna tão frágil, tão necessário, tão memorável e tão interessante.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Entre amores e desamores...

   Toda a gente diz que o amor é das melhores sensações que existe no mundo, mas por vezes, esquecem-se que também é ele que dá mais trabalho. Um dia parece que estamos nas nuvens porque recebemos aquela mensagem que já estávamos à espera há algum tempo, e no dia seguinte estamos no fundo do poço porque parece que tudo deu para o torto sem qualquer tipo de explicação.

  O amor é tramado porque não é um conto de fadas como consta nos livros. Começa tudo muito bem, um amor vivido num mar de rosas, com aquelas borboletas vibrantes na barriga  e a grande vontade de estar constantemente com aquela pessoa. Parece que o mundo tem mais cor e até as simples músicas que ouvimos no carro quando estamos a ir para a escola, passam a fazer sentido. É a fase do amor onde tudo corre bem e pensamos que vai durar para sempre, mas enganamos.

 Entretanto vem a fase negativa, o "desamor" e, essa fase, ninguém nos ensina a aguentar nem a superar. Percebemos que as pessoas por vezes, não são aquilo que idealizamos, e que às vezes gostar muito de alguém não é suficiente para que a relação entre ambos funcione.

  O pior, é hoje em dia, parecer que tudo na vida é alhos e bogalhos. Se não dá com um/a, tenta-se com outro/a, como se as pessoas fossem descartáveis. Mas todos nós somos seres vivos racionais, com cabeça, membros e pés e, o nosso coração não é uma máquina com botões que se desliga quando nós queremos. Amar e desamar faz parte do nosso crescimento como pessoas, porque é nas rasteiras do amor, que o próprio coração nos diz o que nós realmente valemos e que não dependemos de ninguém para viver.

 No fim de contas, acho que preferimos sofrer o risco de um desamor do que a seca de nunca temos sentido nada. Porque, por muito que doa, são esses altos e baixos que nos fazem sentir heróis.

A Calmaria do Hábito

Mergulhada num mar de algodão e pano , sinto o meu corpo quentinho, dentro de um sonho qualquer que parece ser mais interessante que a minha própria realidade . Acordo com o som tedioso e irritante do meu despertador , hora de levantar e começar mais um dia. 

A minha vida tem a cor de uma tarde de terça feira . Não é o glamour da sexta feira e nem da nublada segunda feira é apenas um fastio. Acordo cedo, não para admirar o raiar do sol mas sim porque tenho que ir ao ecossistema da mochila pesada . A vida de uma universitária é como viver em uma simulação dentro de um presídio de segurança máxima, onde temos de calcular com precisão cada movimento. 

Na Universidade do saber , a disciplina mais difícil não é o calculo ou as línguas é a manutenção do encanto diante do que se repete diariamente.  De viver semana após  semana as mesmas coisas o mesmo desprazer de la estar e ser recompensada com dias mais felizes uma vez por mês.  

Onde o diploma da vida comum não esta gravada num pergaminho , mas sim nas olheiras de quem aprendeu que ser constante é uma forma de coragem. Aprender cedo que desistir não é uma das opções e que devemos continuar a lutar . 

Viver no automático é como uma aula , onde voce ja sabe todas as falas do professor e o verdadeiro desafio é não dormir antes do toque de recolher . 

Lá estava eu , mais uma vez, matriculado na universidade da rotina . Sem exames finais, sem ferias de verão , apenas a matéria contínua de existir dentro de paredes que já conheciam todos os meus bocejos . Enquanto isso observo a vida de todos ao meu redor e como suas vidas parecem mais organizadas que a minha e de alguma forma , ao qual , não sei explicar trás um certo sentimento de conforto. Estou exatamente onde quero estar. 

E assim encerra mais uma semana , onde a esperança de dias melhores esta por vir . 

Arlinda do Rosário. 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

A Metamorfose da Calçada: De Pessoa ao Nómada Digital

 Lisboa sempre foi uma cidade com talento para o drama, uma espécie de viúva jovem que recusa tirar o luto mas não abdica de um decote generoso para atrair os olhares da vizinhança. Se percorrermos o eixo que vai da Baixa ao Chiado, sentimos o peso de um século que se atropela a si próprio. É uma sobreposição de camadas tão densa que, se escavássemos a calçada com o rigor de um arqueólogo com insónias, encontraríamos, por baixo do cimento de um novo hotel de luxo, o fumo de um cigarro de 1920 e o eco de uma discussão política que terminou em duelo, ou pelo menos em má poesia.

Nos anos 20, Lisboa era uma metrópole que tentava, com um esforço comovente, ser Paris. O Chiado era o centro do mundo, ou pelo menos o centro do mundo que interessava a quem usava polainas e tinha opiniões sobre o cubismo. O Garrett e o "A Brasileira" eram os laboratórios da inteligência nacional, onde Fernando Pessoa, esse homem que era vários e nenhum, se sentava a destilar o tédio existencial em doses de aguardente. Imaginem Pessoa hoje. Que faria ele com um iPhone? Provavelmente teria um perfil diferente para cada heterónimo: o Alberto Caeiro publicaria fotos de ovelhas sem filtro no Instagram, o Ricardo Reis faria citações em latim no LinkedIn para parecer corporativo, e o Álvaro de Campos estaria constantemente a ser banido do X por insultar a passividade da tecnologia moderna. A ironia suprema é que a angústia de Pessoa, que era tão gratuita e profunda, hoje seria monetizada por um coach de saúde mental num workshop de fim de semana em Alfama.

Entrar nos anos 30 e 40 é entrar numa Lisboa de luzes baixas e silêncios altos. Enquanto a Europa se desintegrava em carne e ferro, Lisboa transformava-se num aquário de espiões e refugiados. Era a capital da neutralidade cínica. Nos hotéis da Avenida da Liberdade, jantavam alemães e ingleses a duas mesas de distância, trocando olhares de ódio por cima de um prato de linguado. Os cronistas da época, como o incisivo e brilhante António Ferro antes de se tornar o coreógrafo da estética do regime, desenhavam uma cidade que era um cenário de filme noir. Havia uma dignidade pobre, um orgulho de sapatos engraxados e fome escondida. Hoje, a fome em Lisboa é diferente; é uma fome de espaço. Onde antes se escondiam espiões em quartos de pensão baratos, hoje escondem-se turistas americanos que pagam trezentos euros por noite para dormir num cubículo que cheira a "autenticidade" e a humidade renovada.

A Lisboa dos anos 50 foi a década do betão e da esperança contida. Era a cidade dos cafés monumentais, onde o fumo era tão espesso que se podia esculpir. Os homens discutiam o futebol e a censura, esta última com o olhar fixo na porta para ver se entrava algum senhor de gabardine e ouvido apurado. Havia uma hierarquia clara: o poeta era um ser sagrado, o cronista era o juiz do quotidiano. Se um cronista de 1950 visse a atual Rua Cor-de-Rosa, provavelmente teria um colapso nervoso. O que antes era um antro de marinheiros e perdição, um lugar onde a vida acontecia sem edição, transformou-se num cenário de cartão-postal onde se tiram selfies com um cocktail de cores fluorescentes na mão. A prostituição de outrora, que tinha a sua própria ética trágica, foi substituída pela prostituição imobiliária, que é muito mais limpa mas muito mais cruel.

A transição para a nossa atualidade não foi um degrau; foi uma queda livre de um elétrico desgovernado. Lisboa tornou-se uma cidade "cool", e não há nada mais foleiro do que ser "cool" por obrigação. O sarcasmo da história dita que expulsámos os lisboetas para as periferias para podermos vender a "experiência de viver como um lisboeta" a quem vem de fora. É uma lógica de canibalismo estético. As lojas de ferragens, onde se encontrava a solução para todos os males domésticos, deram lugar a lojas de cereais ou de sabonetes artesanais que cheiram a infâncias que ninguém teve. Onde o mestre Almada Negreiros lançava os seus manifestos futuristas, desafiando a burguesia a acordar, hoje temos cartazes de festivais de música que prometem "sustentabilidade" enquanto vendem cerveja em copos de plástico a preço de ouro.

Falemos dos poetas. Onde estão eles? Nos anos 40, a poesia era uma arma, hoje é uma legenda de fotografia. A profundidade foi trocada pela rapidez. O cronista atual não precisa de observar a rua durante horas; basta-lhe olhar para as tendências do Google. A ironia é que temos mais meios de comunicação e menos coisas para dizer. O fado, que era o lamento de quem não tinha voz, tornou-se uma banda sonora para o jantar de quem não quer ouvir. Já não se canta o ciúme ou a desgraça com a mesma verdade; canta-se a "portugalidade" para exportação, com um arranjo de guitarra que não ofenda os ouvidos mais sensíveis da classe média europeia.

A Lisboa de hoje é uma cidade de fachadas. Literalmente. Mantemos a parede de azulejos para manter as aparências, mas por trás não há uma família a discutir o preço do azeite; há uma smart lock e um código de acesso enviado por e-mail. O humor da situação reside na nossa capacidade de fingir que nada disto nos incomoda. Sorrimos para o turista, servimos-lhe o pastel de nata morno e depois suspiramos porque o nosso aluguer subiu tanto que em breve teremos de ir viver para dentro de um poema de Cesário Verde, algures nos subúrbios esquecidos. Cesário, aliás, seria o cronista perfeito para esta era. Ele, que tão bem descreveu o "sentimento de um ocidental", estaria agora a descrever o sentimento de um ocidental que não consegue estacionar o carro nem comprar pão sem falar três línguas estrangeiras.

O que é real em Lisboa, afinal? O real é o frio que sobe do Tejo e que nenhuma renovação urbana consegue aquecer. O real é a luz de Lisboa, que continua a ser a melhor iluminadora do mundo, mesmo que agora ilumine mais trotinetas elétricas do que varinas. Há uma certa beleza sarcástica no facto de a cidade continuar a ser lindíssima, apesar de todos os nossos esforços para a tornar num centro comercial a céu aberto. As colinas continuam lá, a castigar as pernas de quem teima em andar a pé, ignorando que o progresso se faz de Uber.

Se subirmos ao Bairro Alto numa noite de sexta-feira, o choque geracional é absoluto. Nos anos 20, ouvíamos o bater das portas das redações dos jornais, o som das máquinas de escrever a ditar o destino do dia seguinte. Hoje, ouvimos o som de vidros partidos e de colunas portáteis a debitar música sem alma. A crónica da cidade já não se escreve no papel; escreve-se nos muros, muitas vezes com erros de ortografia, ou em comentários de fóruns de viagens onde alguém se queixa de que Lisboa "tem demasiadas subidas". É aqui que o sarcasmo atinge o seu auge: queremos a tradição, mas sem o desconforto que ela implica. Queremos a história, mas queremos que ela seja higienizada e tenha Wi-Fi gratuito.

Lisboa está a tornar-se uma cidade de fantasmas que não têm onde morar. O espírito de Eça de Queiroz deve andar por aí, a deambular pelo Grémio Literário, a rir-se da nossa nova aristocracia de influenciadores e investidores em criptomoedas. Ele, que tão bem retratou a vacuidade da sociedade do seu tempo, teria material para dez volumes de "Os Maias" só com uma tarde passada num rooftop da moda. A ironia é que, tal como no século XIX, continuamos a olhar para fora para saber como devemos ser por dentro. Antigamente imitávamos Paris; agora imitamos Berlim, Brooklyn ou qualquer outro lugar que nos prometa ser "alternativos" enquanto consumimos o mesmo café globalizado.

Mas, apesar de tudo, Lisboa resiste. Resiste na velha que se recusa a sair da casa onde nasceu, mesmo com o assédio do fundo de investimento. Resiste no empregado de mesa que mantém o mau feitio histórico, tratando o cliente com aquela mistura de servidão e desprezo que é uma arte em vias de extinção. Resiste na poesia que ainda se lê nos autocarros, nas mãos de quem não desistiu de pensar. A verdadeira crónica de Lisboa não é a que se vende nas livrarias de aeroporto; é a que se sente no cheiro das castanhas assadas no inverno, que continua a ser o mesmo desde os anos 20, um fumo democrático que envolve o rico e o pobre, o poeta e o turista, sem fazer distinções.

No final, somos todos personagens de uma crónica que começou muito antes de nós e que continuará quando os hotéis de hoje forem as ruínas de amanhã. Lisboa tem este poder: ela devora os que tentam mudá-la. A cidade é um organismo vivo que boceja perante as nossas tentativas de modernidade. Ela viu passar os salazares, os poetas suicidas, os revolucionários de cravo ao peito e os executivos de fato justo. E a todos ela parece dizer, com o seu eterno sarcasmo de pedra e cal: "Podem mudar a mobília, mas a casa continua a ser minha."

Talvez a maior lição que a Lisboa dos anos 20 a 50 nos deixou foi a de que a cidade precisa de sombras para ser real. Uma cidade sem sombras, sem recantos escuros onde a poesia e o crime se possam misturar, é uma cidade morta. A Lisboa atual está demasiado iluminada pelos ecrãs dos telemóveis, demasiado exposta, demasiado nua. Falta-nos o mistério de um encontro à esquina da Rua do Ouro, sob um candeeiro de gás, sem que ninguém faça um check-in para provar que ali esteve. A realidade é que Lisboa é mais bonita quando não está a tentar agradar a ninguém. É quando ela é sarcástica, mal-humorada e decadente que ela é mais verdadeira. E essa Lisboa, felizmente, ainda sobrevive nas entrelinhas de quem a sabe ler, entre um gole de ginjinha e um olhar perdido no horizonte do Tejo, que continua a correr, indiferente a séculos, modas e ao preço absurdo do metro quadrado.

Entre olhares, nasceu o Destino

Há quem diga que o destino não existe, que tudo o que acontece é apenas o resultado de escolhas, de probabilidades, de caminhos que se cruzam por acaso. Talvez seja verdade, mas há momentos em que essa lógica deixa de fazer sentido.

E foi assim que começou.

Dia normal, sem nada que o tornasse especial, cruzaram-se pela primeira vez num banco branco. Um olhar rápido como habitual, e apenas um olá e um sorriso simpático. Algo simples que nunca se imaginava que aquele instante viria a ter importância

Mas teve.

Com o tempo, os encontros começaram a repetir-se como se o tempo e o destino tivesse decidido conspirar a favor deles. No início, eram apenas cumprimentos rápidos como um “bom dia” ou um aceno discreto.

Havia dias em que bastava umas palavras. E havia outros em que uma pergunta nunca chegava, e já iam na segunda, na terceira, prolongando o momento. Conversas simples que acabaram por ter um significado. 

Os meses passaram assim.

Até que, num desses dias aparentemente iguais a tantos outros, tudo mudou.

Ela pediu ajuda. Um gesto simples, mas carregado de confiança. Ele aceitou sem hesitar, como se, no fundo, já soubesse de algo sem o saber. E, nesse instante, algo se alinhou. 

Já não eram apenas encontros. Já não eram apenas coincidências.

Eram escolhas.

A partir dessa altura, o tempo começou a passar de forma diferente. As conversas tornaram-se mais profundas, mais verdadeiras. Comecem a falar de sonhos, de medos, de coisas guardadas que não se partilham com qualquer pessoa. E, no meio dessas palavras, iam se descobrindo. Não só um ao outro, mas também a si próprios. 

Os olhares já não fugiam. Ficavam.

E havia algo no ar, uma certeza silenciosa, quase impossível de explicar. De que aquilo não era passageiro. 

Talvez o destino não seja escrito, mas algo sentido. Algo que aparece e cresce nos pequenos momentos, naqueles detalhes quase invisíveis, nos encontros que insistiam em acontecer até deixarem de ser coincidência. 

Porque, no fundo, nenhum deles planejou aquilo.

Mas ambos começaram, sem dar conta, a precisar da presença um do outro.

E foi então que perceberam: não era apenas um acaso.

Era o início de algo que valia a pena.

Um caminho que cruzou-se, mas que já não fazia sentido separar. Um encontro que deixou de ser breve para se tornar essencial. Um sentimento que nasceu devagar, mas que quando revelou-se, já era impossível de negar. 

E, talvez, o mais bonito de tudo seja isto:

De entre milhões de caminhos possíveis, eles encontraram-se.

E decidiram ficar.

 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

O país que vive em 90 minutos

 

Entre conversas demoradas e cafés que arrefecem na mesa, há uma coisa que nunca abranda, o futebol, o som de uma bola a bater no chão é quase religioso. Não importa se é num estádio cheio, num campo pelado ou numa rua estreita onde os carros fazem de baliza, o futebol acontece sempre, como se fosse uma necessidade básica, como respirar ou discutir política ao jantar.

Quem diz carros, diz árvores, chinelos, paus, tudo, mas mesmo tudo servia para fazer de poste, e a barra? A barra era imaginável, quando sentíamos que o remate ia alto demais, o golo não contava.

De segunda a domingo, o país para. As famílias juntam-se em horários que não são seus, mas sim do calendário da liga. Vestir a camisola é como vestir uma identidade, há quem sofra em silêncio, e há ainda quem esteja sempre a jurar que “este ano é que é”, repetindo a mesma esperança que vai de geração em geração.

Finalmente vem o jogo. Noventa minutos que nunca são só noventa minutos. São nervos, gritos, insultos ao árbitro (que, curiosamente, está sempre mal), abraços a desconhecidos e aquela sensação estranha de que a nossa felicidade depende de onze pessoas que nem sabem que existimos. E, no entanto, dependemos mesmo.

Tenho várias histórias engraçadas de abraços a desconhecidos, mas a mais engraçada foi no ano passado, em que foi golo e naquele momento mais nada importa, fico descontrolado com o sentimento de ver a bola a bater na rede e saltei para as cavalitas de um senhor que nunca tinha visto na vida e começámos os dois aos saltos, porque é assim, quando o assunto é futebol somos todos família.

O futebol tem essa capacidade, transformar o simples em épico. Um passe é magia, um golo vira poesia, e uma derrota… bem, uma derrota é uma tragédia, que dá que falar durante dias. Porque no futebol não se perde só um jogo, perde-se as discussões no café e provocações que já tínhamos guardado para o dia a seguir.

Mas talvez o mais curioso seja que no dia seguinte, tudo recomeça. O adepto volta, a esperança renasce, e a bola volta a rolar como se nada tivesse acontecido. Porque no fundo, o futebol não é sobre ganhar ou perder. É sobre acreditar. Sempre mais uma vez.

Às vezes perguntam-me porque é que ainda vou lá, “Não ganham um jogo, estão fora de tudo!”, eu não vou lá porque ganhamos todos os jogos, eu não vou lá porque ganhamos tudo todos os anos, eu vou porque nasceu comigo, não consigo explicar e fica mais bonito assim.

Desaprendemos a comer

Comer deixou de ser uma necessidade básica do ser humano para passar a ser uma decisão de moralidade. 

Infelizmente, o que noutros tempos foi um privilégio, passa agora despercebido. 

Despercebido, dependendo do ponto de vista… porque agora comer um doce parece um erro, já não é uma escolha normal. 


Será que foram as redes sociais que nos enfiaram nesta bolha de hiperfoco em comer saudável? Uma bolha que nos faz sentir que falhamos perante este padrão invisível, como se estivéssemos constantemente a errar com algo que nunca foi claramente definido. Uma bolha em que escolhemos o que comemos pelo rótulo e não por gosto, mesmo sem sabermos se é a escolha certa. Uma bolha que nos faz controlar cada caloria que comemos, como se o prazer tivesse deixado de ser permitido.


Pensamos que sabemos tudo, quando controlamos tudo o que comemos, até percebermos que tudo faz mal, mesmo aquilo que julgávamos ser saudável. 

Não nos adianta viver de rótulos apelativos e de promessas de bem-estar, quando até os mais disciplinados podem desenvolver problemas, nem sempre físicos, mas muitas vezes mentais, tornando algo tão natural numa fonte constante de preocupação. 


Talvez o problema não esteja na comida, mas na nossa falta de simplicidade. 

Quando este tipo de pressão não existia, comer era simples, não tínhamos que pensar demasiado para preparar uma refeição. 


Será que complicámos algo tão básico? Será que isto é saudável? Ou será que, na tentativa de comer melhor, desaprendemos simplesmente a comer? 


Inês Garção 


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Isto foi uma coisa que me aconteceu durante esta semana

 15/04/2026

Há dias em que acordo e sinto que fui substituído durante a noite por uma versão melhor de mim. Não sei quem fez a troca, mas agradeço. Nesses dias, tudo parece funcionar com uma precisão quase suspeita.

Levanto-me antes do despertador, sem aquele impulso imediato de renegociar a minha existência com a cama por «só mais cinco minutos». O café sai mesmo a gosto, a torrada não fica carbonizada e até a internet decide colaborar. São pequenos sinais de que algo de extraordinário está a acontecer.

Mas o mais impressionante não são estas vitórias domésticas; é a forma como lido com as pessoas. Consigo escutar, responder com clareza e até achar graça a situações que, noutros dias, seriam motivo para um pequeno colapso aqui dentro. Uma mensagem ambígua deixa de ser interpretada como um ataque pessoal e passa simplesmente a ser… uma mensagem. É quase como se tivesse instalado uma atualização durante a noite.

Nesses momentos, penso sempre: “Era tão bom se eu fosse sempre assim.” Esta versão de mim é leve, rápida no raciocínio e socialmente competente. Uma espécie de plano premium, com funcionalidades extra e sem os habituais bugs.

O problema é que esta versão não é a regra. Na maioria dos dias, acordo numa espécie de lotaria existencial. Abro os olhos e fico à espera de perceber quem me saiu na rifa. Às vezes, calha-me na tômbola um “eu” mais denso, que encara o mundo com a mesma disposição com que se encara uma segunda-feira chuvosa… tudo requer um esforço adicional.

Nesses dias, até as interações mais simples podem tornar-se desafiantes. Um comentário inocente é analisado como se fosse uma tese de doutoramento em segundas intenções e qualquer conselho bem-intencionado – “tenta ver o lado positivo” – tem o curioso efeito de aumentar a irritação em vez de a diminuir.

Ainda assim, tento negociar comigo próprio. Prometo ser mais paciente, respirar fundo e relativizar; faço verdadeiros discursos motivacionais internos que, curiosamente, perdem toda a eficácia ao primeiro contacto com a realidade. Basta um pequeno contratempo para perceber que o tal “plano premium” já prescreveu há dias.

Ao final da noite, contudo, costuma instalar-se uma espécie de «armistício». Já em casa e no silêncio, sinto que o sistema reinicia lentamente. É como se alguma entidade reguladora qualquer e invisível me atribuísse um novo crédito, e ganho ali umas três a quatro horas de um novo “eu”. Talvez para apaziguar a versão que me foi dada desde que me levantei.

Curiosamente, toda esta reflexão nasce de um dia particularmente bom que tive esta semana. Durante algumas boas e largas horas, senti-me plenamente capaz, como se estivesse a utilizar o melhor de mim. E isso levou-me a uma conclusão simples: talvez não possamos controlar que versão de nós próprios aparece a cada manhã, mas podemos, pelo menos, reconhecer e apreciar quando ela decide fazer uma visita.

E vocês, também têm a sensação de que vivem com diferentes versões de si próprios, ou sou só eu que acordo todos os dias sem manual de instruções?

O ritual do café entre aulas

Entre uma aula e outra, há sempre tempo (ou pelo menos arranja-separa um café. Não tanto pela cafeína, mas pelo ritual. Em Portalegre, isso repete-se todos os dias: sair da sala, atravessar o recinto, procurar um lugar ao sol ou à sombra, e, quase sem pensar, pedir o habitual. 

O café chega, quase sempre acompanhado de um “só para acordar”, mesmo quando ninguém acabou de acordar. Seguram-se as chávenas como se fossem pequenas pausas no meio de tudo o resto. Fala-se de tudo e de nada: da aula que acabou, da próxima que ninguém quer ter, de trabalhos que ainda nem começaram, mas já preocupam, de planos que raramente se concretizam. 

É um intervalo pequeno, mas parece suspender o resto. Durante aqueles minutos, os prazos não existem, os trabalhos ficam em pausa, e a pressa abranda. Até o tempo parece mais lento, como se estivesse também a beber café connosco. 

Curiosamente, é nesses momentos mais banais que a vida universitária parece mais real. Não nas aulas, nem nos exames, nem nas apresentações. Mas ali na conversa solta, no riso inesperado, nas interrupções que não incomodam, no silêncio confortável entre palavras. 

Há qualquer coisa de quase automático neste ritual. Não é preciso combinaracontece. E, ao mesmo tempo, é nesse gesto repetido que se criam rotinas, laços, memórias que, mais tarde, acabam por definir o que foi estudar em Portalegre. 

Depois, alguém olha para o relógio. O momento termina sem aviso. Levantamo-nos, recolhemos as coisas, e cada um segue o seu caminho. Como se nada de especial tivesse acontecido. 

Mas talvez seja precisamente aí que está o mais importante: no que passa despercebido, mas mais tarde torna-se memória. 

terça-feira, 14 de abril de 2026

Um dia vais ter de sair

Nunca pensei que sair da minha zona de conforto tivesse uma data marcada. Mas teve. Veio num dia normal, com uma mala feita e um destino que ficava longe de tudo o que eu conhecia…casa. Pensar que o lugar onde vivi toda a minha vida ia deixar de ser o meu refúgio soava estranho mas acima de tudo assustador. Parte de mim queria ir. Queria mudar, crescer, descobrir o que estava para além do que conhecia. Mas havia outra parte mais silenciosa, mas mais forte, que só queria ficar no aconchego do seu lar.


É incrível o efeito que uma mala feita causa. Levamos muito mais do que meras roupas. Despedidas, silêncios e sobretudo lágrimas também fazem parte dessa mala. Lágrimas de um coração que percebe que o que antes era conforto está prestes a transformar-se em desconhecido. Sair custa mas é necessário. Crescer dói mas é fundamental. Estarmos fora da nossa zona de conforto é essencial. E estar fora do nosso conforto é enfrentar o desconhecido mesmo quando tudo em nós pede para ficar onde é seguro. É aprender a lidar com o desconforto, com o silêncio e com o medo de falhar. A minha zona de conforto eram as minhas pessoas, as que viviam comigo, as que me conheciam e sabiam-me ler de cor. Mas e quando se sai dessa zona? Quem vão ser as minhas pessoas de conforto? Um dia vais ter de sair. Não só da tua zona de conforto, mas do teu quarto, da tua casa, da tua rotina. Vais ter de deixar para trás tudo o que é certo para descobrir quem és sem isso. É exatamente, nesse silêncio, que percebo que sair da minha zona de conforto não foi apenas deixar a minha casa para trás. Foi também deixar a minha timidez ou pelo menos, aprender a enfrentá-la. Quando estamos na nossa zona de conforto não precisamos de ser faladores nem comunicativos. Meio que falam por nós. Se tenho vergonha alguém irá falar por mim. Isto acontece constantemente. Alguns chamam-lhe conforto, eu diria que é um péssimo hábito. Quando saímos dessa bolha voltamos a ser recém-nascidos. Voltamos a ser frágeis e pequeninos. Temos medo, vergonha e receio daquilo que não conhecemos. E é aí que tudo começa outra vez. Não com certezas, mas com dúvidas. Não com segurança, mas com coragem. Chegar à universidade foi exatamente isso. Um recomeço. Corredores cheios de pessoas que não me conheciam, vozes que não me eram familiares. E isso assusta. Assusta mais do que sair de casa. Porque fora dela, deixamos de ter alguém que fala por nós. Saí do carro dos meus pais e senti o meu coração a apertar como se quisesse ficar para trás. Olho ao meu redor e, de repente, sou eu. Só eu. O primeiro dia chegou. E com ele chegou a altura de começar a deixar a timidez em casa e despedir-me dela de uma vez por todas. Muitas pessoas ao meu redor mas nenhuma era casa, nem pouco mais ou menos. Foi um choque quando me caiu a ficha de que estava realmente na universidade sozinha. Tive de falar sem conhecer quem me ouvia. Tive de procurar saber quando eu era de ficar escondida. Tive de me abrir quando eu era fechada. A solidão inicial aterrorizou-me, fez-me pensar que não era capaz, que não queria fazer isto. Mas eu queria isto, queria sair da rotina, queria o novo e o desconhecido. Mas quando ele chegou, estremeci, é como se a nossa zona de conforto fosse a nossa manta quando nos aquece e fora dela o frio que sentimos quando estamos destapados. Demorou tempo até o novo se tornar familiar. Mas não foi sempre assim. Passou-se um ano e um “olá” deixou de custar tanto. Um e outro rosto começou a tornar-se familiar. Uma rotina começou a nascer. E sem dar conta, aquilo que era estranho começou a tornar-se acolhedor. Talvez isso seja crescer. Não deixar de ter medo, mas aprender a viver com ele. Porque a zona de conforto nunca desaparece. Ela muda de lugar. E, sem percebermos, começamos a construí-la outra vez.


No meio de tudo isto, fui percebendo que sair não foi só afastar-me de um lugar, foi aproximar-me de mim. Longe do que sempre me protegeu, tive de aprender a ouvir a minha própria voz, mesmo quando ela saía baixinho. A timidez que antes me acompanhava em tudo foi ficando para trás, quase sem fazer barulho, até se perder no caminho. Fui mesmo assim, com o coração apertado, com saudade e com medo. E foi aí que cresci. Hoje sei que me adaptei, que me encontrei em pedaços que nem sabia que existiam, e que construí um novo lugar dentro e fora de mim. Uma segunda casa. Percebi que sair da zona de conforto não é perder-nos, é, aos poucos, voltarmos a nós, é a melhor chave para abrir o cofre.


A música que fala, quando tudo se cala!

A música está presente em toda a parte, mesmo quando não a vamos procurar. Esconde-se nos ruídos, aparece nas conversas e acompanha o ritmo dos dias que passam. Antes de ser uma indústria, espetáculo ou tendência, a música é uma presença e uma forma de articulação que não precisa de tradução.

Por isso é que é difícil defini-la, existem várias formas de a caracterizar, como harmonia, melodia e ritmo. A música não é só aquilo que escutamos, mas principalmente o que se sente.

Muitas vezes associamos a música a momentos, por exemplo, uma canção pode ser o retrato de um tempo característico, quase como uma fotografia comovedora. E é suficiente ouvirmos algum tempo depois para revivermos tudo, o lugar, as pessoas e as sensações. Não porque a música tenha esse poder intrínseco, mas porque escolhemos guardá-la na memória.

Existem várias músicas que nos acompanham sem se destacarem. Fazem parte de viagens de carro, tardes relaxantes e dias normais. Logo, essa música torna-se mais tarde essencial, como se tivesse construído em silêncio uma parte de quem somos.

É interessante quando algumas músicas nos tocam em momentos específicos. Aparecem na hora certa, mesmo quando nem sabemos que precisamos delas. Algumas músicas oferecem abrigo, outras trazem impulso e outras funcionam como um espelho. Por vezes, uma melodia simples expressa aquilo que não conseguimos colocar nas nossas palavras.

Com o passar do tempo, a música foi sofrendo muitas mudanças, desde o estilo, os modos de consumo e os formatos. Passamos de experiências coletivas, como concertos ou encontros em torno de instrumentos, para uma relação mais individual e imediata. Atualmente, a música está a um clique de distância, com uma quantidade quase ilimitada disponível, ou seja, dá para ouvirmos diversas músicas em qualquer lugar e a qualquer momento. Com esta simplicidade surgiu uma nova maneira de lidar com o tempo. O ouvir tornou-se segmentado e muitas vezes distraído. Fazemos listas para aquilo que fazemos, para trabalhar, treinar, relaxar, como se a música fosse cumprir uma função específica. Por vezes, neste processo, podemos correr o risco de perder a naturalidade dela, por exemplo a capacidade de surpreender.

Quando ouvimos uma música sem termos um objetivo e uma determinada finalidade é algo especial. Ouvirmos a letra de uma música, sem sabermos se vamos gostar ou não, não passar à frente após poucos segundos, ou seja, este gesto simples de ficarmos tornou-se uma resistência num mundo que valoriza a rapidez.

A música é uma parte da identidade, porque quando ouvimos diz algo sobre alguém ou sobre quem somos, mesmo quando não estamos plenamente conscientes. Por exemplo, os géneros de que gostamos, os artistas que costumamos seguir e as músicas que repetimos formam em nós um retrato invisível. E, assim como nós, esse retrato está sempre em constante mudança. Sabemos que a dimensão social da música ainda continua viva, pois compartilhar uma música é uma forma de comunicar. Podemos dizer “ouve isto” e, ao mesmo tempo, “isto faz sentido para mim”. No meio de tantas palavras, a música mantém uma forma subtil, mas poderosa, de nos podermos expressar. Mas, além disso, a música tem o poder de unir, atravessa barreiras culturais, linguísticas e geográficas de uma maneira que poucas coisas conseguem fazer. Uma melodia é entendida de diversas formas em várias partes do mundo, mesmo que as palavras não sejam percebidas. Existe algo universal no som, algo que toca numa dimensão comum a todos nós.

Existem também músicas que aparecem em contextos específicos, como sociais, culturais, políticos, e trazem com elas histórias que nem sempre estão visíveis na sociedade. Ouvir música pode ser um exercício de atenção ao mundo e uma maneira de perceber realidades diferentes, de entrar em contacto com outras experiências.

A música tem uma das características mais interessantes, que é a capacidade de se adaptar. Faz o acompanhamento de diversos estados de espírito, ajusta-se ao dia a dia e reflete as emoções das pessoas. Temos música para celebrar, refletir, festejar, esquecer e recordar, ou seja, em cada uma destas situações a música desempenha um papel diferente, quase como se soubesse exatamente aquilo de que precisamos no momento.

No meio disto tudo existe o silêncio, mas a música não existe sem ele. É quando existe silêncio que as notas ganham sentido, os intervalos tornam-se importantes e que o ritmo é feito. Aprender a ouvir música é, portanto, aprender a escutar o silêncio, a respeitar pausas e a aceitar o vazio como parte da experiência.

Atualmente vive-se numa era em que o som está sempre presente, existe sempre algo a tocar, que preenche algum espaço. Mas também esse excesso pode deixar-nos mais distraídos. A música deixa de ser um destaque e passa a ser um fundo, algo que está lá, mas que nem sempre ouvimos de verdade.

O desafio hoje é voltar a ouvir com atenção. Não só deixar a música tocar enquanto fazemos outras coisas, mas dar espaço, presença e intenção a ela. Permitir que nos afete, que nos surpreenda e até que nos incomode. Porque a música nem sempre é confortável e algumas canções confrontam-nos e nos fazem sentir o que preferiríamos evitar. A maior parte do seu valor está na capacidade de nos tirar da indiferença e de nos colocar diante de quem somos.

Na história, a música tem sido mais do que entretenimento. Tem sido uma forma de resistência, expressão e afirmação cultural. Em tempos de crise, censura ou mudança, a música serviu como meio de transmitir ideias e como espaço de liberdade. Mesmo nos momentos em que as palavras eram limitadas, a música conseguia fazer a sua comunicação.

Ainda hoje, ela reflete o tempo que vivemos. As tendências mudam rapidamente, os estilos misturam-se e as influências cruzam-se. A música hoje em dia é, em muitos aspetos, um espelho da diversidade e complexidade do mundo contemporâneo. Apesar de todas essas mudanças, algo permanece. Independentemente do contexto, estilo ou época, a música continua a ser uma forma de conexão entre pessoas, tempos e emoções. Uma ponte oculta que se forma sempre que alguém decide ouvir ou criar.

E talvez isso seja o que a torna tão única. Ela não exige preparação, nem conhecimento prévio, basta estar aberto e deixar-se levar pelo que se escuta.

No final, a música não resolve os problemas do mundo. Não muda a vida sozinha. Mas acompanha. E, às vezes, estar ao lado é suficiente. Há conforto em saber que, em qualquer momento, existe uma canção que pode fazer-nos sentir menos sozinhos.

Talvez nunca consigamos explicar completamente o que é a música e talvez isso nem importe. Porque existem coisas que não são para ser explicadas, são para ser sentidas, como muitas coisas na vida, e a música é uma delas.

Enquanto a música estiver presente nos fones, nas ruas, nas vozes e até no silêncio irá continuar sempre a cumprir o seu papel de sempre, onde aproxima as pessoas de forma suave, mesmo quando não percebemos que precisávamos desse encontro.

Nunca, se calhar iremos compreender totalmente a música, mas até que ela exista, teremos sempre uma maneira de nos identificarmos nela.

Vemos e seguimos

A guerra cabe num ecrã de telemóvel, num vídeo de poucos segundos que vemos e esquecemos. Deslizamos para o lado e seguimos com o dia, como ...