sexta-feira, 31 de março de 2023

Dos Açores aos braços de Portalegre

São cerca das 11 da noite, o telemóvel vibra – “Bem-vindo ao Instituto Politécnico de Portalegre” – num misto de emoções, sem saber bem o que sentir, só conseguia pensar na aventura que seria ir de uma pequena ilha dos Açores, com apenas quinze mil habitantes, para uma cidade alentejana. Uma viagem de quase mais de 2000km, para ser feita em escassos dias. 

Embarquei, junto com o meu pai, num Airbus “A320” de apropriado nome, “Dream” e, escassos minutos depois, descolámos rumo à caótica cidade de Lisboa, onde mais caótica ainda, foi a nossa primeira noite na capital portuguesa. Depois de quase termos dormido na rua, graças às burocracias dos sites de reserva, conseguimos encontrar o nosso caminho para novo alojamento. Não sem que antes apanhássemos três “Uber” diferentes para o hotel errado e ficássemos parados na berma de uma estrada duvidosa, com sete volumes de bagagem e apenas quatro braços no total. 

No dia seguinte, iniciámos mais uma viagem, chegar a Portalegre, o que se revelou um desafio bem maior do que esperávamos e já que se costuma dizer “o que custa é começar”, fomos desde logo, negados por vários taxistas e vários “Uber”, devido à quantidade exorbitante de bagagem que possuíamos. Apenas uma hora depois, pelas onze da manhã, finalmente rumámos em direção à estação de Santa Apolónia. A primeira coisa que fizemos, naturalmente, foi procurar um carrinho para a nossa bagagem, contudo vimos o nosso avanço, mais uma vez cair em retrocesso, uma vez que fomos prontamente notificados pelo nosso taxista de que o que procurávamos se tratava de uma miragem longínqua e distante. Encarnando dois burros de carga, vamos entrando pela estação à procura de nos pôr a caminho do Alentejo, porém, para nosso azar, o único comboio com paragem mais próxima do nosso destino já havia partido. Sem saber o que fazer, ponderámos ir de táxi, mas após saber que o preço final rondaria as duas centenas, decidimos nos dirigir à estação rodoviária de sete rios que, após uma breve pesquisa na internet, se mostrava capaz de nos encaminhar até Portalegre. 

Espreitando pelo translúcido vidro retangular do autocarro, após atravessar a Ponte da Lezíria e a zona do estuário do rio Tejo, almejei uma mudança paisagística radical. Os aglomerados arbóreos, deram lugar a intermináveis terrenos, cuja única defesa contra a sua desertificação, são os sobreiros nus que ramificam as suas entranhas. O conceito açoriano de pasto que trazia comigo, rapidamente foi substituído por um sentimento de admiração pelos animais que batalham as inóspitas condições do interior português, auxiliados pelo fiel e trabalhador “Homem alentejano”. Chegados, após quase dia e meio de viagem, rapidamente simpatizámos com os afáveis portalegrenses que nos receberam sempre de sorriso na cara, com palavras amigas e de conforto para nós, meros viajantes. Tão longe, era como se estivéssemos de novo em casa e por isso, tornei minha missão percorrer as ruas e ruelas desta histórica cidade e conhecer o rosto por de trás das muralhas. 

A calçada, já fatigada por culpa do tempo, jaz sem consolação. Os pequenos retângulos rochosos que a compõem, levantam-se como que em protesto pelo seu património, pelas bonitas fachadas típicas que se vêm, hoje, a desmoronar, sem que seja feita mais nenhuma ação para além da gravítica. O certo, é que ouvi este protesto e segui à procura de respostas sobre o porquê desta desertificação, sobre o porquê da história, tão importante para esta cidade, estar abandonada e à mercê. 

A resposta apareceu rapidamente. Após conversar com alguns portalegrenses, por cá nascidos e criados, escutei os seus desabafos. E falam eles nos tempos de glória, onde existiam fábricas para trabalhar, onde era possível ganhar sustento da terra que os viu nascer. Porém, com a saída das fábricas de Portalegre, os postos de trabalho foram com elas e, consequentemente, as pessoas, deixando para trás o seu património, até o seu coração. 

É por isso que me ergo também, proclamando um melhor futuro para esta grande cidade, que hoje, encurtece e entristece. Não merecem, amigos portalegrenses, que seja uma viagem de mais de um dia para chegar até aos vossos afáveis braços; Não merecem, ser descriminados por uma linha férrea que une Portugal, mas deixa os vossos visitantes a dezasseis quilómetros de vós; Não merecem, andar pela vossa cidade histórica, sem que não se importem pelo vosso património; Merecem, sim, melhores condições de acessibilidade, para que se possam fixar cá empresas e postos de trabalho; Merecem andar por uma cidade que vos relembre o passado, sem que tenham medo do futuro! Merecem, também, que lutem por vós e é assim, desta forma, que milito pelo que merecem e vos agradeço por serem portalegrenses. Bem-haja! 

Amigos

Amigos, como nos costumam dizer é a família que nós escolhemos e, é efetivamente verdade. Porém existe uma diferença entre amigos e conhecidos, amigos são aqueles em quem nós confiamos, que estão lá se precisarmos, já os conhecidos são aqueles que só dizemos bom dia e boa tarde e não passa muito daí.

Há quem tenha melhores amigos e há quem não tenham porque consideram que não existe um melhor que outro, mas o que é certo é que há sempre aquele amigo em quem contamos as nossas confidências, os nossos segredos ou os nossos desabafos. Eu tenho uma melhor amiga e não significa que todos os outros amigos que tenho são desvalorizados ou que estão abaixo dela, simplesmente desde há 6 anos que a conheço que sempre tivemos uma intimidade maior e por isso sempre a considerei como melhor amiga.

Ao longo da nossa vida vamos verificando que alguns amigos passam a ser conhecidos, conhecidos passam a ser amigos e por aí fora. Sempre me disseram “no secundário vais encontrar amigos para a vida” ou “na universidade vais encontrar amigos para a vida” e posso dizer que acredito mais na segunda afirmação, o que não quer dizer que no secundário não façamos amigos para a vida, mas quando muitos deles seguem caminhos diferentes essa ligação pode perder-se e até desaparecer. Na universidade é normal que nos identifiquemos mais com algumas pessoas, pois estão na mesma área que nós, querem seguir o mesmo ramo, têm ideias e princípios diferentes ou até porque vêm de zonas completamente diferentes da nossa e, por isso, criamos ligações fortes com essas pessoas.

É muito bom termos amigos que são de cidades/aldeias/vilas diferentes da nossa porque acabamos por conhecer novos sítios e novas expressões ou até com uma personalidade diferente da vossa.



quarta-feira, 29 de março de 2023

Eu quero ser um gato

 

Na minha próxima vida desejo ser um gato. São eles criaturas de quatro patas e de pelo macio de várias cores tão admiráveis e tão invejáveis.

Eu queria ser um gato, viver sem pensar em coisas que me ocupam a vida, viver sem me preocupar se gostam de mim ou não, viver sem ter obrigações ou compromissos, viver sem pensar e seguir apenas o destino.

Quero passar os dias inteiros ao sol e ter como única preocupação se vai chover ou não.

Quero viver sem pensar, pois, quem pensa fica doente e cansado do mundo.


segunda-feira, 27 de março de 2023

Dia de jogo

 Lá vou eu a caminho da capital, mais um dia a apoiar o meu clube, “Esforço, dedicação, devoção e glória” são as únicas palavras que me passam pela cabeça, pois tudo o que quero é ver mais uma vitória. Uns dias antes do jogo tento convencer os meus pais a comprar os bilhetes e quando finalmente consigo, nunca mais é o dia, parece que o tempo passa mais devagar. Chegou o dia, parece que demorou uma eternidade quando na verdade só passaram quatro dias; acordo já com aquela ansiedade e nervosismo, com a alegria de saber que vou finalmente regressar àquele estádio e apoiar o clube de que tanto gosto. Na noite anterior já tinha preparada a panóplia de camisolas e cachecóis sem saber ao certo qual vestir… decido finalmente a camisola que quero levar para o jogo e lá vou eu, com a minha família para Lisboa. Durante o caminho, parece que a viagem de duas horas e meia demora o dobro, e lá vou eu a olhar pela janela do carro, ansiosa e bastante feliz a imaginar tudo o que possa acontecer no momento em que entrar no estádio e começar a ver o jogo; “será que vamos ganhar?” penso para mim, faço apostas com o meu pai sobre quem vai marcar os golos e quantos golos vamos marcar, ouço um pouco de música e vou apreciando a paisagem e sem me aperceber, finalmente chegámos a Lisboa, a ansiedade aumenta, só quero chegar ao estádio e sentar-me à espera que o jogo comece. Chegámos, finalmente, e agora começa a correria, onde vamos estacionar o carro, está tudo cheio, uma confusão, as ruas cheias de adeptos assim como nós, prontos para apoiar o seu clube, em frente ao estádio já só se vê verde e branco, que coisa linda, que emoção, é um sentimento que não se explica, todos a cantar e a fazer a festa…Entramos no estádio, todos bastante ansiosos, procuramos o nosso lugar, será que estamos num bom lugar, vamos ver bem daqui, se calhar devíamos ter ido para outro lugar…são estes pensamentos que passam pela minha cabeça; É agora, são oito da noite e o jogo vai começar, os jogadores entram em campo, nós adeptos, levantamo-nos enquanto aplaudimos e cantamos, enquanto isso o jogo começa, o nervosismo começa a aumentar… Goloooo grito eu aos trinta e cinco minutos de jogo e mais tarde aos sessenta e sete acontece exatamente o mesmo, o estádio todo de pé a gritar e a cantar, ouve-se o apito final, o Sporting ganha dois a zero, que emoção, que felicidade, mas, de repente, cai a ficha, o jogo acabou, vou ter de regressar a casa, feliz  porque o meu clube acabou de ganhar o jogo, mas triste porque tenho de regressar, saímos do estádio todos contentes e entramos no carro, temos uma longa viagem para fazer e amanhã é dia de aulas, meto os fones e vou todo o caminho de regresso a casa a ouvir música e a relembrar este bonito dia e este incrível momento a que acabo de assistir, acabo por adormecer a pensar naquilo, pois, amanhã é outro dia e de certeza que hei de lá voltar.


Catarina Chenrim Novo 

Ansiedade...

Ansiedade?? Algo que todos temos, mas nem todos temos a coragem de assumir e presente na vida de nós.

A ansiedade é, muitas vezes e por muitas pessoas, vista como “algo” que não existe ou algo que é usado como pretexto para chamar à atenção das pessoas. Mas a verdade é que a ansiedade é algo importante e que deve ser visto como um problema na sociedade atual.

A ansiedade provoca, várias vezes, a depressão, ataques de pânico e pode levar muitas vezes ao suicido de muitas pessoas pois há quem não conseguia compreender a necessidade que qualquer individuo ansioso tem de ter apoio ou simplesmente alguém que ouça e que tenha os braços abertos para acolher.

Quem sofre de ansiedade, frequentemente, prefere estar sozinho e ter o seu momento de breakdown, isto é, chorar sozinho sem ser julgar e sem ter que dar justificações a ninguém acerca de nada, no seu canto predileto que às vezes pode ser o quarto, a praia ou até no lugar mais cliché, nos braços da pessoa que mais confia.

Assumir que se tem ansiedade não é mau e com certeza não é demonstrar à parte fraca, até porque quem sofre precisa de ter coragem para aguentar tantas coisas e acontecimentos.

Qualquer pessoa, homem e mulher, pode ter ansiedade de maneira diferente, quer seja, abrir o coração ou nem dizer aos pais, aos amigos que a tem e sinceramente está tudo bem e não com toda a certeza não é mostrar que se é frágil ou sensível demais. Cada um tem o seu momento, o seu tempo e ninguém pode apressar o momento de contar.

O meu momento

 

São 5 da tarde. Estou sentado na areia húmida da praia, com as pernas cruzadas, olhos fechados e o nariz ligeiramente levantado enquanto sinto a brisa do mar e enquanto ouço as gaivotas a chiar e as ondas a rebentar. Num primeiro momento, quase como por magia tudo o que está à minha volta parece desaparecer, sinto uma calma gigante e todos os pensamentos negativos que tenho voam. Mais tarde, acabo por abrir os olhos devagar, olho para o mar e tudo na minha cabeça é mais simples e leve. Penso nas coisas boas que tenho na vida e na sorte que tenho em estar ali naquele lugar único e maravilhoso. Em seguida, olho para trás e vejo a minha querida progenitora debaixo do chapéu de sol, sentada na toalha a ler o seu livro. Ela olha e sorri para mim. Por fim, ouço o meu pai a chamar-me, vejo-o a jogar à bola, não penso duas vezes e vou a correr ter com ele para tirar-lhe a bola.


Daniel


sábado, 25 de março de 2023

Ansiedade

 O dia estava ensolarado, o calor da recente primavera encorpava o meu suor, os sons da rua eram bloqueados pelos meus fones (peço desculpa aos pássaros que estavam a cantar), tudo isso se misturava com a minha respiração, condensada pelo ar.  Eu e a natureza parecíamos estar em completa harmonia. Os animais seguiam-me pelas ruas, os pássaros planavam acima da minha cabeça. Mas toda essa sensação foi interrompida, repentinamente.

Desde que eu nasci eu já carregava a maldição de assistir as horas correrem entre os meus dedos, completamente omnipotente, mas esse dia eu consegui segurar, inspirei e travei o ar nos meus pulmões e, ali estava, o tempo preso na minha mão. E pus-me a pensar... o tempo ataca-nos como se fossemos cegos sem saber de onde vêm os golpes. Um dia somos crianças e, no outro, olhamos para a nossa própria criança. Um dia estamos a beijar a nossa primeira boca, e no outro estamos a casar. Um dia odiamos os nossos pais, no outro odiamos a nós mesmos. Um dia amamos, no outro morremos. Sim, o tempo atravessa por nós, vira-nos do avesso sem que percebamos, e no fim deixa-nos a perguntar "o que aconteceu?", "o que foi que eu fiz?".

Poucas pessoas além de mim estiveram presentes por tempo suficiente para perceber a minha evolução. Poucas pessoas além de mim, e ainda assim eu não sou capaz de dizer o quanto eu mudei, na verdade eu mal sou capaz de perceber se eu realmente mudei.

E, com certo atrevimento, permito-me explicar porque eu duvido se mudei tanto quanto os anos avançaram por mim. Desde muito nova eu já apresentava comportamentos ansiosos. Às vezes, encontrava-me a balançar as pernas incessantemente, eu comia, falava e movimentava-me rápido em demasia, destruindo tudo ao meu redor. As vezes a minha família ria comigo, outras vezes riam-se de mim, e às vezes nós brigávamos.

Entretanto nada disso me fazia sentir tão mal quanto os momentos em que eu sentia essa dor. Essa mesma dor que eu senti hoje, acima da barriga, abaixo do peito. Uma pressão que viaja entre o estômago e o os pulmões. A vida nunca foi fácil. Os meus pais preferiam deixar-me com outros familiares, pois eles sabiam que eu teria mais conforto, e sempre que isso acontecia, eu voltava a sentir essa dor. Ela é a expressão de um sentimento que já não cabe mais dentro do corpo, e o sinal máximo da deterioração da alma, do medo, da preocupação.

Nessa altura eu ainda era muito pequena para conseguir resumir todo esse sentimento em palavras, eu só esperava que passasse, que me consumisse e depois me abandonasse. Entretanto, recentemente, esse sentimento voltou a percorrer-me, o tempo segura-me com as suas garras invisíveis, impede-me de avançar ou retroceder no relógio. Eu fiquei presa dentro de mim, enquanto a vida se desenrolava lá fora, enquanto eu era carregada por um corpo sem coração. Naquele dia senti, de novo, a mesma ansiedade, o mesmo sentimento a nascer, a arrastar-se por cima de mim, a sufocar-me. Senti a dor em baixo do peito e em cima da barriga, mas agora já sei descrever, ou pelo menos eu gosto de pensar que sei.

O que me surpreendeu nisto tudo, é que eu já não me sentia desta forma há muito tempo. Achei que eu fosse desprezada por essas garras, pensei que a vida me tinha dado um tempo, mas no final a vida é que que me mantinha naquele tempo, indo e voltando como o vento. Velha demais para voltar àquela criança e salvá-la, criança demais para ir naquela velha e avisá-la.

quarta-feira, 22 de março de 2023

Linha Férrea

Cá estou eu novamente. Sentado num banco da estação, enquanto espero impacientemente pela chegada do comboio. Rezando para que não haja nenhuma greve ou que este não chegue atrasado. Observo a linha férrea, oxidada pela passagem dos anos e escuto alguma música para ficar a remoer sobre as minhas noias. As minhas preces não foram ouvidas, o comboio acaba por chegar, atrasado como sempre. Subo para o cimo deste e a música continua a fazer-me companhia durante as próximas horas, assim como o sol, que me faz dormitar por alguns momentos da viagem.

As sextas-feiras são sempre dias traiçoeiros. Por um lado, despertam uma ânsia de regressar a casa. Por outro, despertam o meu temperamento melancólico, da forma mais intensa possível. Basta observar a paisagem solitária da janela do comboio, o revisor não ser o tipo mais simpático do mundo, sentir fome e ter frio, ignorar e ser ignorado por outrem, para que a tristeza venha e me assole por completo. Para que ela torne o meu rosto sério e as minhas expressões inexistentes.

O comboio chega ao seu destino final. Saio do interior deste, troco de linha e a minha espera continua. A este ponto da viagem, já só sinto uma grande náusea e angústia presentes no meu peito. Já só quero recolher-me em mim mesmo e esconder-me da multidão e dos seus olhares. Passada meia-hora, chega outro comboio e preparo-me para embarcar nele. A música já não produz o mesmo efeito nos meus ouvidos e começo a fartar-me desta. Mas subitamente, aquela tristeza que trago dentro de mim, dá lugar a uma ansiedade, ao estar cada vez mais próximo do meu destino final.

Ao fundo, no horizonte, vou vendo a silhueta daquela cidade a tornar-se nítida, à medida que o comboio chia e buzina. Subitamente, este começa a abrandar até que fica imóvel diante de uma outra estação, rodeada por casario velho e lá bem no topo, pelas muralhas de um castelo. Caminho pela plataforma com o saco preto em uma das mãos. Observo os outros que também trazem sacos ou malas nas suas mãos. Parecem alegres e felizes, imersos nas suas próprias vidas e alheios a todos os problemas que me afligem.

Entretanto, a minha espera ainda não terminou. Fico de pé na estação, com as mãos nos bolsos e andando de um lado para o outro, esperando mais uma hora pela minha boleia. Os jovens alegres e felizes vão e veem, os carros e os comboios passam, enquanto a minha vida continua em suspenso. De vez em quando, encontro algum conhecido e jogo fora algumas frases banais e minto, dizendo que acabei mesmo agora de chegar.

A ansiedade volta a ceder o lugar à tristeza. A tarde passou por mim, sem que eu me tivesse apercebido da sua presença. A minha boleia acaba finalmente por chegar. Coloco os meus pertences na bagageira e abandono aquele lugar. Para a semana, o ritual acontecerá novamente.

segunda-feira, 20 de março de 2023

Viver com o contrabando

O contrabando foi algo que fez parte da vida de muita gente inclusive da vida do meu avô. É muito bom ter alguém que nos conte essas histórias e que nos faça refletir sobre como seria a vida dessas pessoas que praticavam contrabando para se sustentarem, já pensaram nisso?

Sempre que oiço as histórias do meu avô acerca do contrabando há sempre uma que me salta logo à memória, a altura em que ele foi preso pelas autoridades fiscais sendo apenas um rapaz de 14 anos que foi preso quatro vezes. Na altura eram três irmãos e, o meu avô, já com nove anos começou a percorrer, sozinho, os vários trilhos e caminhos longos entre Portugal e Espanha. Ultrapassava a fronteira para conseguir algum sustento para tod
os em casa.

Segundo ele eram tempos muito duros, pois na altura a sua mãe cozinhava duas sardinhas que tinham de dar para os seis lá em casa, uma delas era dividida ao meio para os seus pais e a outra sardinha era dividida em três para o meu avô e os seus irmãos. Alguém consegue imaginar como era sobreviver apenas com aquilo que havia e que muitas vezes poderia faltar? Acho que não. Porém, o mais interessante é que tudo o que fosse preciso contrabandear eles estavam dispostos a transportar, sendo o seu item de transporte uma saca atada com corda, que servia de mochila e com solas de sapatos velhos protegia os ombros para as poderem carregar. Era recorrente transportarem café, batatas, passas de uva, sutiãs, latas de mel e até pirex, tudo o que pudessem. Todos os dias eram dias diferentes, pois tinham de encontrar estratégias para que não fossem apanhados pelas autoridades que se encontravam em alguns caminhos pelos quais eles percorriam, embora eles soubessem os horários e os sítios onde as autoridades se encontravam, por vezes poderia ser difícil escaparem.

A última vez que o meu avô foi preso e depois foi ao “julgado” espanhol, as autoridades já o conheciam ganhando assim uma alcunha o “capitão pé descalço”. Esta alcunha surgiu, pois ele só teve os seus primeiros sapatos aos sete anos. Perante este acontecimento parou de praticar contrabando dedicando-se assim aos trabalhos no campo.

Eu acho que estas histórias são fascinantes! Atualmente, muitas das vezes, não damos importância a pequenas coisas que já damos por adquiridas e que, naquela altura, nem sabiam se iria sequer ter algo para comer no dia seguinte. É importante revivermos estas memórias e tentar perceber o quão difícil era a vida entre as décadas de 30 e 60.



domingo, 19 de março de 2023

A Transição

Secundário, que altura tão rebelde e matreira que é. Posso dizer que me deu uns anos incríveis, onde consegui criar novas amizades e aprender bastante, mas nem sempre foi o meu melhor amigo. 
Tanta coisa nova, no meio de tanta desconfiança, superioridade e rivalidade vivida, eu só queria poder ter um buraquinho onde pudesse respirar fundo de vez em quando. 
Mas ao fim de três longos anos, mal eu sabia que o pior ainda estava por vir. A saída do secundário foi uma tempestade num dia de sol. A ansiedade e preocupação de conseguir ou não entrar no curso e faculdade que queria, o medo das médias subirem num nível absolutamente absurdo, tomar a decisão certa em tão pouco tempo. É injusto. Se pudesse agora voltar atrás no tempo, tinha feito tudo de maneira diferente. Não me arrependo de nada, mas mudaria tanta coisa. 

Laura

sábado, 18 de março de 2023

O sonho de uma nação

 Ainda me recordo como se fosse hoje da caminhada da nossa seleção no europeu de futebol em 2016. No início, tal como a maioria dos portugueses não acreditava que conseguíssemos finalmente conquistar um troféu, o momento da equipa não era assim tão positivo. No primeiro jogo, embora não estivéssemos a fazer um grande jogo tínhamos conseguido chegar à liderança do marcador com um golo de Nani. Num período de desconcentração defensiva sofremos o golo do empate e não conseguimos esboçar nenhuma reação na parte final, alcançando apenas um empate contra uma seleção que fazia a sua estreia em fases finais e consideravelmente mais fraca do que a nossa seleção. Após este primeiro jogo, se já não tinha grandes esperanças ainda mais reduzidas ficaram. No segundo jogo contra a Áustria, o selecionador Fernando Santos decidiu não fazer nenhuma alteração no 11 e a equipa voltou a ter mais uma exibição mísera não indo além de um empate contra mais uma seleção muito mais fraca do que a nossa. No último jogo que era um tudo ou nada, conseguimos empatar com a Hungria com uma exibição estrondosa de Cristiano Ronaldo, carregando completamente a nossa equipa para a próxima fase. Este Europeu era o primeiro com o novo formato introduzido pela UEFA em que os 4 melhores terceiros lugares também se apuravam, graças a esta medida conseguimos chegar aos oitavos de final e com o a vitória da Islândia no último minuto ficámos do lado mais favorável da grelha evitando seleções como a França, Alemanha, Inglaterra, Espanha, Itália. Lembro-me perfeitamente de dizer para o meu pai que tínhamos reais possibilidades de chegar à final e vingar a derrota de 2004. 

Nos oitavos de final, jogámos contra a forte seleção da Croácia que havia vencido o seu grupo ficando à frente da Espanha. Fernando Santos parecia ter aprendido com os erros que cometeu na fase de grupos fazendo uma série de alterações nas opções iniciais da nossa equipa. Num jogo bastante equilibrado conseguimos chegar à vitória perto do final do prolongamento com um golo de Ricardo Quaresma. Após este resultado, vi algo que ainda nunca tinha visto na seleção, uma união de todo o país em torno da nossa equipa. 

Num verdadeiro teste de fogo à nossa capacidade de superação, conseguimos virar a eliminatória com a Polónia alcançando a vitória nas grandes penalidades num jogo em que Renato Sanches confirmou todo o seu talento e Rui Patrício fez uma defesa monstruosa à penalidade de Blaszczykowski. E com estas duas vitórias bastante sofridas estávamos nas últimas quatro seleções sobreviventes.

Na meia final, demonstrámos a nossa qualidade e fizemos um grande jogo para ficar a apenas um passo de um sonho que à partida parecia impossível.

No dia da final, tal como todos os portugueses estava bastante nervoso, embora já tivesse nascido não me recordava da final de 2004 mas já tinha visto vídeos da forma como o nosso país tinha vivido esse momento histórico. Desta vez, não éramos nós os anfitriões mas sim os convidados, procurávamos fazer à França o que a Grécia nos tinha feito. 

Lembro-me de ver as imagens dos jogadores no túnel antes do jogo e de achar os jogadores franceses com um ar bastante convencido como se já tivessem ganho e o jogo fosse apenas uma mera formalidade. O início foi bastante agreste para as nossas aspirações, com a lesão do nosso capitão que viu impossibilitado o seu sonho de poder decidir a final. Numa demonstração clara de união do grupo, a equipa reagiu bastante bem e foi aguentando as investidas dos gauleses, de destacar as exibições monumentais de Pepe e de Patrício. No minuto 79, no momento da entrada do Éder disse em tom de brincadeira que era ele que ia marcar o golo da vitória mas estava longe de acreditar neste cenário. E ao minuto 109, aconteceu o pequeno milagre que precisávamos, com um remate magnifico do nosso número 9, nesse momento nem sequer tive forças para me levantar do sofá, apenas me ajoelhei no chão a chorar por sentir que estávamos tão perto de fazer história. No final do jogo lembro-me das explosões de alegria da população nas ruas, celebrando efusivamente esta vitória que irá ficar marcada para sempre nas memórias dos portugueses.

O dia 10 de Julho de 2016 irá ser relembrado como o dia em que um pequeno país de 10 milhões de pessoas bateu uma das maiores potências mundiais na sua própria casa, demonstrando claramente que não existem impossíveis e que devemos sempre almejar algo grande.

Francisco Realinho      

sexta-feira, 17 de março de 2023

Londres de verde e branco

Tal como a história de David e Golias o pequeno voltou a vencer o gigante.

Ninguém dava nada pelo Sporting, numa época cheia de altos e baixos na qual se viu fora da Liga dos Campeões e se vê agora num mísero quarto lugar no campeonato.

Após o sorteio, calhou-nos um ,senão o, adversário mais forte da competição na Liga Europa, inclusive líderes da Liga Inglesa, o Arsenal. Com um plantel repleto de craques por parte dos “gunners”, avizinhavam-se dificuldades para os leões.

Vários portugueses se deslocaram até Londres para ver o seu Sporting e apoiar a equipa com uma recompensa no final com a passagem dos portugueses aos quartos de final da competição.

Acho que foi o grande momento da época do Sporting  e a conquista que mereciam para meter a sua vida nos eixos.

Com um golo de outro mundo de Pedro Gonçalves e uma exibição exímia de Adán os leões mostraram as suas garras e fizeram deste jogo, uma noite para mais tarde recordar no futebol português.

Quando tudo correu mal, muitos pediram a demissão do Treinador Rúben Amorim, mas havia algo nele que o fazia especial, afinal foi o mesmo que fez conquistar tanto neste últimos 4 anos, não podia ir assim embora por uma sequência de maus resultados…

Como se diz na gíria, “a bola é redonda” e não há prognósticos antes do jogo, o que me leva a pensar, até onde pode o Sporting sonhar? 



Fernando Crespo


A minha partida!

 A minha Partida!

   Eram seis e meia da manhã, quando o alarme tocou, devia ter dormido uma meia hora de sono, mas o que fiz foi chorar… tinha tanta vontade de sair de casa que nem se quer aproveitei dos últimos momentos com a minha família.

Por volta das oito da manhã, depois de comer um delicioso cuscuz preparado pela minha avó e um café preto, ouvi uma voz bem rouca a chamar por min lá na rua.

      - Ooooh minha queria despacha-te que o avião não é do teu pai!  

Disse o meu avô, enquanto punha as minhas malas no taxi, desci as escadas quase que a correr, pois seria a minha primeira viajem sozinha e ainda por cima para Portugal, o país que sempre quis conhecer.

Quando cheguei à rua , os vizinhos estavam todos a minha espera  para se despedirem de min, quando vi aquelas pessoas todas, do nada senti uma ]tremura, um calor estranho e a vontade de vomitar que não passava, dei um abraço a cada um deles e despedi de todos os vizinhos da redondeza.

Do nada virei para traz e vi os meus avos abraçados e a chorar por causa da minha partida, tentei me conter mas a emoção e a incerteza se voltava ou não, perturbavam o meu coração e me sufocavam de uma forma que mal conseguia respirar. E foi aí que o meu mundo desabou, o meu coração doía de tanto apertar.

Dei um abraço bem forte neles e na minha Irmã, com o peito da blusa toda encharcada de lagrimas, entrei no taxi e deixei para traz pessoas que certamente quando eu voltar já não vão lá estar para me abraçar e me acolher…

Garantia

Nada é garantido. O meu amor por ti não é garantido, a minha amizade por ti não é garantida, a minha companhia não é garantida, a minha disponibilidade para te ouvir não é garantida…


A verdadeira questão é esta: será que o que nos rodeia é uma presença constante na nossa vida, que será sempre garantida? A resposta para isso é claramente negativa. 

Se pararmos de cuidar da oliveira que plantamos no nosso quintal ela ainda vai dar fruto? O mais certo é que não. Ela vai secar e apodrecer com o tempo, até morrer, pois, nada dura para sempre.


Magoas-me ao pensares que eu sou um dado adquirido; ao pensares que podes deixar de pronunciar na minha direção quando estás com outro alguém; ao pensares que não precisas de fazer coisa nenhuma por mim; ao pensares que os meus sentimentos não importam; ao pensares que os meus desabafos de sentimentos amorosos por outra pessoa são entediantes e lugares de julgamento. No entanto, os teus têm que ser falados todos os dias, sem qualquer julgamento e obtendo a máxima atenção.


No final nada disto importa, eu sou uma garantia tua que não precisa mais de cultivo. 

terça-feira, 14 de março de 2023

Desenhos de futuro, no presente


   cerca de um ano atrás, o mundo olhou com olhos lassos uma investida cruel e premeditada da Rússia contra o submisso povo ucraniano e as atenções, rapidamente, foram colocadas nesse conflito armado que, embora longe, mostrou trazer consequências, não só para Portugal, como para muitos outros estados-membros da EU. Porém, em território português, a vida prosseguiu e a paz perdurou, vivendo-se num clima despreocupado e relaxado face ao tema da guerra. Contudo, na verdade, travamos não uma, mas várias guerras silenciosas. Isto porque será ingénuo pensar que a guerra é, simplesmente, a ausência de paz, pois é bem mais que isso. Em Portugal, essa palavra metamorfoseia-se num vasto leque de problemas sociais e políticos, que preenchem o nosso dia a dia e moldam a nossa vida, muitos deles perduram há várias gerações e permanecem na penumbra, sem a merecida atenção. 

    Desde muito jovem, como qualquer outro patriota, procurei sentar-me junto de dois veteranos e ávidos contribuintes do estado que, aos domingos, tradicionalmente, lutam contra os efeitos de um bom vinho tinto enquanto debatem sobre os mais variados temas, da guerra, sobre política, futebol, religião, geografia e até mulheres... Maravilhava-me a forma como nenhum assunto era deixado de fora, nem mesmo aqueles simples o suficiente para uma criança puder intervir. Aquele vigor e aquela paixão com que cada palavra ressoava, às vezes acompanhada de um imponente murro na mesa, cativava-me e alimentava a minha veia crítica, embora nem soubesse o significado da palavra “impostos”. 

    Com o passar dos anos e há medida que crescia, tornou-se percetível a intemporalidade das nossas reuniões e o peso dos assuntos que discutíamos pela tarde fora. À medida que ia olhando e admirando o mundo, enchendo-me de experiência empírica, o meu respeito e admiração por estas simples confraternizações de domingo consolidou-se e finalmente percebi o significado da frustração daqueles punhos cerrados, que, por vezes, atingiam o tampo da mesa de madeira. Não era o vinho, embora o mesmo ajudasse, mas sim um sentimento de impotência que enraivecia os músculos dos seus braços. 

    Os problemas daquelas duas gerações, que bebericavam o caldo de peixe depois de uma semana de trabalho, são os mesmos da minha geração e, se calhar, os da geração seguinte. Por exemplo, o SNS é incapaz de atender às necessidades dos portugueses, o ordenado mínimo é insuficiente para fazer frente à inflação e aos impostos, cada vez mais cargos importantes têm mão de obra não qualificada, o panorama da corrupção em Portugal é preocupante, etc... Mas mais preocupante ainda, são aqueles que deixaram de dar um murro na mesa, que deixaram de acreditar em Portugal. São cerca de 5 milhões, metade dos portugueses, filhos de D. Afonso Henriques e outros grandes guerreiros lusitanos, que se abstêm de votar. Pois bem, aqueles dois homens frustrados de que vos falei, ainda não desistiram, mas e se desistirem? E se eu desistir? E se tu desistires? E se vós desistísseis?  

É assustador pensar que iremos desistir sem dar luta, sem arregaçar as mangas e sujar as botas, porque é certo que vivemos tempos difíceis e enfrentamos inúmeros obstáculos sem precedentes, mas temos de nos unir e de lutar. Devemos isso a nós próprios e a todos os outros cidadãos deste país, “Hoje, tu por mim, amanhã eu por ti”. A minha geração é vulgarmente acusada de ser demasiado inerte, mas a verdade é que ainda estamos na retaguarda, com medo, ansiosos para que chegue a nossa vez de lutar e, por isso, devemos unir-nos contra os canhões da corrupção e da abstenção, mesmo que seja mais fácil desistir. Juntos podemos alcançar um verdadeiro sentimento de paz, quando olharmos para a nossa nação e relembrarmos que os nossos esforços não foram em vão! 

Ser mulher...

 Ser mulher? Será que devemos dar tanta importância? As mulheres cada vez mais têm tido um papel fundamental na história, sendo que elas tiveram lutas constantes, quer seja por igualdade de género, quer por direitos que os homens já tinham há anos, como o direito ao voto. A verdade é que por mais que se possa pensar que as mulheres são inferiores aos homens, atualmente a realidade passou a ser outra. Os homens precisam das mulheres, assim como elas precisam deles. Hoje em dia olhamos para a inferioridade mais como um trabalho de equipa invés de se tratar de uma supremacia.

Conversas de toalha


 

A praia é dos sítios mais extraordinários que existem, ir à praia é sinônimo de paz e de calma. É um local onde podemos relaxar, passar um bom tempo, tanto com amigos e família como com nós próprios; é um sítio onde nos divertimos, passamos bons momentos e relaxamos, mas, se há coisa que me fascina na praia são as conversas que acontecem nas toalhas ao lado da minha, é todo um mundo à parte, repleto de detalhes e peripécias surreais. Ouvimos todo o tipo de conversa que se possa imaginar, quer queiramos quer não, é algo inevitável e não há dúvida de que é algo bastante engraçado. Desde o grupo de amigos que se junta todos os domingos à tarde e vão para a praia, que falam do que aconteceu ao longo da semana de aulas, riem de piadas que contam uns aos outros, falam das ditas novidades sobre a vida de outros amigos, onde acabamos por saber que a Margarida acabou com o namorado porque ele não lhe respondeu em 10 minutos, que a Maria e a Leonor estão chateadas porque uma foi jantar fora e não disse à outra, isto tudo misturado com uma música altíssima que sai da coluna que estes levam para a praia, para todos aqueles que estão na mesma a ouvirem; A família de emigrantes que se veem uma vez por ano e que falam tão alto que a sua conversa não se ouve só na toalha ao lado mas sim na praia toda, uma mistura de português com francês que metade das pessoas nem percebe, chega a ser engraçado e incomodativo ao mesmo tempo, falam, montam uma barraca na praia como se estivessem a acampar num parque durante três dias, levam comida para todos e ás tantas já estão a oferecer um pouco de melancia e de algo típico que trouxeram da terrinha onde moram e acabam por começar a falar com todos aqueles que estão à sua volta. Existe ainda também este tipo de situações,  filhas que vão para a praia com os  pais separados, uma historia que presenciei no ano passado; duas raparigas já com os seus vinte anos, a dar um espetáculo para o resto da praia, tudo o que elas diziam ouvia-se na praia toda, já tinham idade para ter juízo, mas não, passaram o tempo todo a discutir uma com a outra e, no final todos ficamos a saber que uma das irmãs sofria de ansiedade mas tinha vergonha que soubessem, o que acaba por ser ridículo visto que ela falava tão alto que toda a praia ficou a saber; a outra irmã gozava com ela pois ela tinha medo de viajar por achar que ia ter um ataque; cada vez que se levantam da toalha para ir fazer o que quer que fosse, não durava mais de cinco minutos pois acabavam sempre por discutir, e bem coitado do pai que já nem as podia ouvir, nem o pai nem ninguém que estivesse ali perto delas, mas não há duvida de que melhorou bastante o meu dia e o dia de todas aquelas pessoas que ouviram as discussões das gémeas na praia. E, as conversas de estranhos acabam sempre por nos fazer rir e entreter durante aquele período que passamos na praia, ficamos a saber a vida toda de uns desconhecidos que decidiram ir para a mesma praia que nós, no mesmo dia e à mesma hora.  

 

 

Catarina Chenrim Novo

segunda-feira, 13 de março de 2023

Antes da Ira

Há uns anos observei um combate, me detive invisível como uma partícula posicionada, não entre os lutadores, mas transitando dentro de cada um deles. Nesse momento, eu foquei inteiramente em perceber o que ambos os oponentes sentiam. Me desconectei do meu “eu” humano, me abstive, afastei-me inclusive, da minha parte que deveria estar verdadeiramente presente na situação, argumentando, me defendendo, sobrevivendo. Eu me pego pensando sobre o porquê de nos caçarmos uns aos outros. Porque nós, seres humanos, não conseguimos evitar o caos, não conseguimos contornar nossos instintos mais primitivos.

Eu permiti que meu corpo e minha reputação ficassem vulneráveis naquela situação, não havia nada mais para defender. Então, defendo o meu texto que emergiu a partir de um conflito amargo. A minha ideia de ira se torna o meu arguido, o qual vou proteger, porque talvez o meu único argumento realmente seja a escrita.

Eu já estive lá, com as bochechas ardendo com o calor sorrateiro, indicando a chegada de uma avalanche de pensamentos. Eu já estive lá, com o coração acelerado, crepitando contra o peito. Eu já estive exatamente naquela posição, os olhos lacrimejando, a fúria evidente em um olhar impetuoso, derramando toda a lava e as lágrimas de uma alma em erupção. Um argumento voa de um lado, uma ofensa é arremessada pelo outro - e eu ainda parada, tomando notas mentais, passiva e pronta para ser atingida. Um grito cruza a pequena sala “Porque você não me ouve?”, diz ela, “Porque você não me deixa falar?” ele replica. A angústia, o desespero e a cólera são tão visíveis que deixo de me importar sobre quem, a princípio, estava errado ou quem estava certo. Agora são só dois animais se debatendo e se arranhando pela casa – desculpe a minha falha jornalística, mas não se sabe a razão da confusão, mal havia começado o bate-boca e só já se ouviam gritos indistinguíveis.

Continuo estática, assumindo, por hora, um papel de mera espectadora, absorta em uma multiplicidade de teorias dos motivos que nos levaram até ali, até aquele quadro trágico, mas satiricamente cómico que se formava em minha frente. Podia-se perceber, em uma análise superficial, as palavras sendo expelidas, objetos sendo arremessados, a movimentação inconstante pela casa e movimentos como agarrar os próprios cabelos, cruzar os braços, balançar as pernas incessantemente. Isso via-se, isso vê-se nas brigas, mas eu vi detalhes aparentemente escondidos quando me aprofundei. Eu vi as veias a pulsarem no pescoço, ouvi o som dos corações, senti cada suspiro de conformação e raiva. Senti também o desprezo, mas principalmente, o medo.

Havia naqueles olhares de fúria, alojado no canto dos olhos, perto dos canais lacrimais, um vírus irradiando, o medo vociferando através das bocas que discutiam. Eles estavam errados, sim, os dois, mas também estavam certos de formas particulares. E é isso o que me fez pensar, é isso que me grudou em uma cadeira a escrever, depois que tudo terminou.

Pus-me a pensar sobre como aquilo começou, então vamos lá tentar entender. Me dou ao direito de abusar na audácia, e dizer que acho que aquela discussão (e quase todas as outras que são vistas no quotidiano) não se iniciaram ali. Eu acho que os motivos são carregados como uma avalanche que sucumbe no final da queda, ou como um copo que transborda por causa de uma gota. Por exemplo, imagine uma situação que se desenvolve assim: Um motoqueiro está passando entre as faixas dos carros em um horário de transito em uma grande cidade, e então um carro decide mudar de faixa sem dar seta, a moto bate no carro, eles saem dos seus veículos e começam a discutir para decidir quem há de pagar os danos, em uma análise racional irritamo-nos logo com ambos, pois o motoqueiro não deveria estar entre as faixas, e o motorista deveria ter dado seta, mas se formos analisar a vida pessoal dos envolvidos sob uma lente humana e empática, o pai falava por ligação com a filha que precisava de dinheiro pra faculdade, só que ele havia acabado de descobrir que perdera o emprego. O motoqueiro estava correndo para fazer sua entrega, tentando manter seu emprego. Percebem? Quem nós podemos culpar, não nos olhos da lei, mas nos olhos da ética, da delicadeza, da humanidade. Esse texto não é uma deixa para nós começarmos a desrespeitar as leis e as instituições, mas sim um convite a respirarmos sempre antes de falar, e principalmente, apelarmos a empatia.

Eu aconselharia todos a pedirem um tempo para pensar em momentos de grande tensão. Por mais que a adrenalina que vem com os argumentos seja viciante (e eu reconheço), ela devora as nossas relações e as vezes até o nosso próprio corpo por dentro. Aproveito também para defender aqui a escrita: quando expressamos o que sentimos pela escrita, temos tempo de refletir e decidir se realmente queremos enviar aquilo que está escrito. Podemos rasgar o papel, apagar as palavras, mas nunca podemos voltar atrás no que foi dito. O calor da emoção leva-nos a sermos capazes de perversidades, homens com alma de ovelhas tornam-se lobos quando se rendem à ira, portanto, o melhor é evitar que momentos como esse se repitam ao longo da nossa vida.


Bianca Semedo, 2023 

Vemos e seguimos

A guerra cabe num ecrã de telemóvel, num vídeo de poucos segundos que vemos e esquecemos. Deslizamos para o lado e seguimos com o dia, como ...