Acordo irritada, em algum dia no ano
de 2022, o alarme não desliga e eu estou demasiado bêbada para o fazer sozinha.
Respiro fundo e abro os olhos, engulo a ânsia de vômito que invade a minha
garganta, luto contra o resquício de luz que entra pela minha janela e desligo
a porcaria do despertador. Sinto o mundo a girar, as paredes multiplicam-se e
replicam-se. Desisto e fecho os olhos. Meu cabelo cheira a tabaco, e
consequentemente o resto do meu travesseiro pegou o cheiro. A minha cama parece
um navio que naufragou (na madrugada passada), e agora os destroços se mexem
enquanto atravessam uma maré nauseante.
Após um tempo de preparo psicológico,
sinto me pronta para sair da cama, ou pelo menos me convenço de que estou
pronta. Os meus avós estão a minha espera para almoçarmos na casa de amigos.
Tento organizar as coisas na minha mente, preparo cada passo antes de os dar,
para que eu não piore o que já está mal. Primeiro sento-me na cama, observo as
minhas roupas espalhadas pelo chão, e amaldiçoo-me. Levanto e vou contra a
porta do guarda-roupa, é isso o que acontece quando se mistura pressão baixa,
alimentação ruim e remédios para dor de cabeça, tudo no mesmo copo, goela
abaixo.
Saio do meu quarto e vou direto para
o banheiro, atiro-me na água quente, o que contradiz a teoria do banho gelado,
que os filmes me disseram que os bêbados fazem. Todo meu banho sem abaixar a
cabeça, sem olhar para o chão. Experiencio o sabor da noite passada, ainda
alojado no céu da minha boca. Saio do banho, fecho os olhos contra qualquer
luz, visto a roupa mais ajeitada, novamente evitando a todo e qualquer custo
olhar para o chão. Vou escovar os dentes e arrumar meu cabelo, e olhando para o
meu reflexo deparo-me comigo, não sinto vergonha, pois eu faria tudo de novo, mas
sinto medo, medo de precisar fazer isso sempre para sentir alguma coisa.
Encontro meus avós na sala de casa e
digo-lhes que estou pronta. Não os abraços para eles não sentirem o cheiro de
tabaco no meu cabelo. No carro, em direção à casa desses amigos, sinto como se
o carro estivesse a se equilibrar em uma corda bamba enquanto pula de
trampolim. Ao chegar lá sou obrigada a abaixar a cabeça para abraçar uma
criança, e depois obrigo-me a comer a comida, pois ela foi especialmente feita
para a minha dieta vegetariana. Sorrio para os nossos anfitriões com a certeza
de que cada dente meu esconde uma vontade absurda de vomitar.
Hoje, maio de 2023, lembro-me disso,
sei que sobrevivi a esse dia, e a boa notícia é que não vomitei nesse dia. Não
aguentei toda a comida, mas eu disse que eu estava cheia e pedi para que me
deixassem levar as sobrara para comer em casa. Sei que sobrevivi, e não me
arrependo do que fiz. Me arrependo de poucas coisas, e minhas noites de
bebedeiras não são uma delas. Todas essas noites, as pessoas que conheci e os
lugares pelos quais passei, me trouxeram a esse exato momento.
Escrevo essa digressão ao meu passado
ao lado da minha mulher. Uma noite de primavera, o vento fresco invade a janela
e faz tremer a luz da vela. O cheiro da essência “Oceano” posta sobre a vela
espalha-se pelo quarto. Minha menina está ao meu lado, a fazer anotações relativas
à sua faculdade. Nossos pés tocam-se, e cada uma está distraída nas suas
próprias responsabilidades. Nesse momento eu fecho os olhos e começo a escrever
sobre como era minha vida há um ano atrás, tudo isso para dizer que ela e o
tempo me trouxeram um sentimento de genuína felicidade e maturidade. Ela
poupou-me das noites à procura de corpos, ela me salvou dos cheiros misturados
no meu cabelo, e impregnou as minhas narinas no cheiro do seu pescoço, ela me fez
reaprender a estar feliz sóbria, a aproveitar os dias, e principalmente, ela me
ensinou a amar.
E o tempo ensinou-me a perdoar, e
que, mesmo admitindo isso a contragosto, algumas pessoas realmente mudam e
evoluem. Claro que esse processo esbarra sempre nas nossas próprias limitações,
mas vale o esforço mudar e evoluir para manter as pessoas que nós amamos nas
nossas vidas. O tempo também trouxe a idade, entrei na faculdade, meus amigos
foram para longe e é quando olho pra trás e digo “sorte a minha de ter feito
tudo aquilo”. Não só não me arrependo como também me orgulho. Me orgulho porque
as náuseas do dia seguinte me ensinaram a beber somente por apreciação, os
corpos esbarrando-se uns contra os outros me ensinaram que prefiro ter meus amigos
em espaços confortáveis e aconchegantes, as madrugadas de friagem na rua me
ensinaram a apreciar os braços quentes que me abraçarão essa noite.
Isto não é nada mais do que a
passagem do tempo, uma clara dissertação sobre a nossa evolução, alguns levam
10, 20, 30 anos, outros são completamente consumidos pelo passado e ficam
presos lá. Mas eu tive sorte, ela me tirou do limbo em que eu vivia, da repetição
constante de traumas passados. Isto nada mais é do que a vitória do tempo sobre
as nossas amarras.