quinta-feira, 27 de abril de 2023

Cidade Réplica

Seis meses se passaram desde que tudo começou. Ainda me lembro da primeira vez que aqui fiquei, neste quarto pequeno e escuro. Do medo e incerteza que sentia, quando o meu pai se foi embora e as aulas começavam na manhã seguinte. Ainda me lembro da sensação de descoberta, ao andar pelos vários recantos da cidade sozinho e que terminava com a observação do pôr do sol, da sensação de felicidade, ao fazer novas amizades entre aulas e cafés, da sensação de progresso que julgava estar a dar à minha vida, bem como do entusiasmo que sentia por esta. Mas depois as viagens de autocarro, nos domingos à noite, começaram a tornar-se banais, assim como o tempo de espera e as conversas de circunstância. É de modo apático, que agora caminho à noite pelas ruas silenciosas da cidade e ouço a água nos repuxos a cair, enquanto não chego a casa e não desfaço a mala. A rotina começou a tornar-se fatídica e previsível, as aulas na maioria das vezes arrastam-se no tempo, demorando uma eternidade a passar. As conversas são superficiais e vão dar sempre aos mesmos assuntos e tópicos, sendo os seus enredos de tamanha intriga e complexidade, impossíveis de se escapar.

Por mais estímulos que surjam durante a semana, como uma partida de futebol às terças-feiras, uma ida ao cinema à noite, almoços e jantares com amigos, noites passadas na praça e que só acabam com a chegada a casa de madrugada, estes apenas me fazem recuperar momentaneamente a juventude, que julgava perdida há muito, nas brumas de uma memória qualquer. Apenas me fazem fugir da realidade por breves horas, sendo que quando acabam, volta a perdurar uma necessidade de busca, um vazio e uma raiva crescente, que se instalam e pulsam dentro mim, ao olhar-me no espelho da casa de banho ou quando estou deitado, na cama daquele quarto escuro. Não sei o que busco ao certo. Um grande amor? Uma necessidade de encontrar um sentido naquilo que estou a fazer? Talvez, mas as respostas para as perguntas desta busca, continuam inacessíveis para mim. E enquanto estas não surgem, continuo à procura delas nas ruas e recantos desta cidade, que tanto se assemelha à minha cidade natal, desde a sua pequenez e decrepitude, passando pela sua beleza que me faz ficar cativo. Continuo à espera delas, através de caixas de pastilhas elásticas e cafés, que alimentam a minha ansiedade. Da confusão, que insiste em fazer-se ouvir dentro da minha mente. Do tanto de amargura que reside em mim, enquanto observo os outros a levarem a vida com uma certa leveza e felicidade.

Irei continuar à espera, pelo menos durante mais 2 anos e 4 meses, o tempo que se assemelha a antigos anos da minha vida e que me resta nesta cidade réplica. Até lá, continuarei a vaguear por aqui, umas vezes solitariamente, outras vezes acompanhado, sempre com aquela tristeza e melancolia características da minha pessoa. Depois disso? Não faço a mínima ideia do que irá suceder-se, depois de findados os melhores anos da minha vida.  

terça-feira, 25 de abril de 2023

Crianças vs Redes Socais

Crianças em redes socais é um tema que pode gerar algumas controvérsias, pois há pessoas que concordam totalmente em expor os seus filhos nas várias plataformas e não vêm mal nenhum nisso e há outras pessoas que acham que pode ser mau começar a expor as crianças desde bebés.

Hoje em dia é frequente vermos, principalmente em figuras públicas, fotos dos seus filhos logo quando nascem ou fotos logo após o parto e nesse contexto, se fosse eu no lugar dessas pessoas, se calhar optava por não publicar nada ou pelo menos não publicar o rosto como várias pessoas fazem. Porém, mesmo que não concordemos com o facto de exporem bebés/crianças desde muito novas nas redes socias, não nos dá permissão para criticar ou desrespeitar quem o faça, cada um toma as suas decisões com base nos princípios que defende.  

Algo que também é discutível é o facto de se criar redes sociais, por vezes ainda sem as crianças terem nascido, ou seja, já estão a incluir e expor as mesmas neste mundo do digital, pois quando crescerem já vão estar submetidas a essas plataformas sem sequer questionarem o que é isto das redes socais porque já irá ser habitual. Eu acho que este fator tem tendência a aumentar nas gerações que irão ou estão a surgir, pois com o estado atual da tecnologia e o que possa vir a evoluir irá tornar-se vulgar para as crianças e pais terem qualquer tipo de rede social.



domingo, 23 de abril de 2023

Assuntos delicados

 Não consigo ter confiança com pessoas que dizem não ter medo algum, isso é impossível. Mas ainda acredito menos quando dizem que não sentem medo da morte. Isso é possível como? Saberes que a determinada altura desconhecida, esse dia vai chegar, e não sentes um mínimo de receio e desconforto? E dizerem que não têm medo, que não vos faz diferença alguma. "Se está destinado tem de ser e pronto". Não consigo mesmo entender. Porque é que um dia isso tem de acontecer? Todo o esforço e sacrifício é deitado fora no final de tudo. Queres tanto comprar isto, aquilo e o outro, mas quando chega o dia, que vai ser feito disso tudo? As pessoas que vamos deixar para trás, e as que deixámos ir? Porque é que tem de ser assim? Porque é que tem de acabar assim? Quando menos esperamos. Acho injusto de certa forma, acho mesmo. Não devia ser assim; a vida é algo que nós devemos agradecer todos os dias por a termos. É uma sorte tê-la. Estudos, trabalhos, sonhos, ambições, desejos, etapas concluídas, tanta coisa que nos esforçamos para conseguir alcançar em vida, e num segundo, temos a capacidade de conseguir perder isso tudo. 

Não entendo e tão depressa não o quero entender.

sexta-feira, 21 de abril de 2023

A vida de uma imigrante

 Imigração 

 

A pergunta que mais oiço desde que cheguei em Portugal é “como é morar longe da família? E por que razão escolhi esta vida?”. Se eu for explicar o motivo da escolha de sair do meu país de origem eu podias passar semanas e semanas a escrever, tendo em conta que Cabo Verde é um país que não tem recursos naturais, tem 9 ilhas habitadas e dispersas no meio do oceano atlântico, e com muitos problemas por resolver.

Tive oportunidades de entrar em faculdades em Cabo Verde e conseguiria uma boa formação a nível académico, porem eu sempre quis sair da casa dos meus ais para explorar e conhecer coisas novas.

E foi o que aconteceu, no auge dos meus 20 anos, deixei a minha família para trás, vim morar sozinha num país totalmente desconhecido, um pouco mais desenvolvido do que o meu país de origem e com muitas oportunidades a nível académico, neste mesmo período tive a oportunidade de ver de fora e sentir na pele o que a maioria das pessoas negras sentem todos os dias na pele.

Em pleno ano 2023, fala-se muito nos direitos iguais e na justiça, mas ao meu ver, penso que ainda há muito o que fazer, comentários maldosos, ser destratada só pelo facto de ser preta e ter um cabelo cacheado é o suficiente para ser julgada, e ser tratada de uma forma diferente  em relação as outras pessoas brancas. 

O sentimento e exclusão e o medo de ser rejeitada a qualquer momento está sempre presente e isto me fez ter coragem para enfrentar os meus medos, tive de sair da minha zona de conforto, aprendi a apreciar mais a minha própria companhia, e sobretudo aprendi a lidar com o etnocentrismo de algumas pessoas e alguns gestos e comentários racistas de algumas pessoas. 

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Começar outra vez!

 

Não acredito em pessoas que dizem não terem arrependimentos, é impossível fugir de um sentimento tão natural e presente na vida de um ser humano.

Não acredito que não tens vontade de voltar atrás no tempo, de não ter falado com certas pessoas, de não ter feito certas amizades, de não te teres esforçado mais, de não teres vivido mais.

Voltar atras no tempo e mudar tudo, fazer escolhas diferentes que mudariam completamente a pessoa que és hoje, escolhas que foram feitas de maneira tão inconsequente.

Muito provavelmente isto não te diz nada à tua pessoa, se calhar és uma pessoa feliz com bons amigos e confiante nas tuas decisões, mas não importa, pois, no final das contas isto não é sobre ti.

Satisfeitos na Insatisfação

Em teoria acho que podemos dizer que o povo português é um povo insatisfeito por natureza. É uma tese facilmente refutável, mas se analisarmos com atenção começa logo bem cedo quando nos cumprimentamos de manhã. Depois de um “então, tá tudo bem?”, por norma surge sempre um: “EH, vai se andando!", "Uns dias mal outros dias pior!”

A satisfação e a insatisfação são uma constante inconstância e aliada à fácil vontade de revolta do português para com Portugal, junta-se muitas vezes a questão deste se remeter à sua insignificância (ou à que neste caso pensa que tem).

É certo que mais do que um povo queixoso, o português tem direito a queixar-se do que bem entender mas muitas das vezes está ridiculamente intrínseco ao português, queixar se quando não tem grande legitimidade para tal.

Como diz um famoso poeta futebolístico “ ser português é pensar pequeno”, e preso por uma corda de sisal a este raciocínio vem a ideia do português, que com um mero toque ou bitaite, consegue resolver todas as questões fraturantes da sociedade onde se insere.

Salários, litoralização, áreas metropolitanas, panorama político no geral, meteorologia, trânsito, IVA, futebol, desde os tópicos mais controversos ás questões mais simples, tudo acaba por ser (ou pode ser) alvo de escrutínio por parte de um português insatisfeito.

Nesta perspetiva, a insatisfação é quase mágica, transformando muitas vezes o português no sabichão que opina e resolve tudo. Orienta o que está desorientado, e conserta o que está partido, tudo isto através da arte do paleio. Quase como se a insatisfação que “mal faz moça” aos restantes europeus, tirasse o discernimento total ao português descontente.

No fundo, o intuito desta crónica era dizer, sub-repticiamente, que os portugueses acabam por não ter grande coisa para se queixarem por viverem num belo país, mas agora que vejo bem, já me deixei contagiar pelo meu Portugalismo.

 


quarta-feira, 19 de abril de 2023

Saudades de "casa"

Saudades de casa? Ter de mudar de região/ casa  não é uma decisão fácil de se tomar porque ficam sempre as saudades e não é durante um fim de semana que se matam as saudades daquilo que temos o costume de chamar de “casa”. 

Considerar um sítio “casa” não é tão simples como pensamos, pois, a medida que crescemos e temos a perceção a nossa "casa" vai deixar de o ser.

Contudo será que iremos intitular um novo mundo de “casa” de novo? A reposta a esta pergunta irá variar muito de pessoa para pessoa, uma vez que nós, seres humanos, somos diferentes uns dos outros e as nossas realidades, valores e crenças também o são. O que possibilita que uns não chamem esse novo sítio de “casa” é o facto de que para muitos, o lugar que os viu crescer, concretizar os  sonhos e que também os viu cair e erguer, ser o seu lar e deixar para trás pode ser simples aos olhos de quem de fora.

Mas há pontos a favor de tudo e nessa transição não é diferente. Mudar de "casa" pode ser uma abertura de horizontes e podemos perceber que afinal aquilo que nós tanto hesitamos em abandonar, não era o nosso lugar ou então necessitávamos mesmo de uma mudança para perceber que aquela região/ cidade não era o local ideal para crescer, quer seja a nível social/psicológico. 

Nem sempre é fácil mudar de “ares” e ter que dizer adeus à cidade, vila, aldeia, que permitiu que fossemos o que fomos hoje em dia. E não é fácil termos que nos habituar a novo lar mesmo que essa nova casa também nos veja realizar muita coisa ao longo da nossa vida. 

Porém é necessário, mesmo que as saudades se mantenham.


terça-feira, 18 de abril de 2023

Retida em Londres

 

Estava ansiosa, pela primeira vez ia andar de avião e sair do país com os meus amigos. Contava os dias que faltavam para a grande viagem. Londres, cá vou eu! Partíamos ás 2 horas da manhã, estava nervosa, não conseguia dormir, ninguém conseguia na verdade, entramos no autocarro e tentamos descansar um bocadinho, a viagem de Portalegre a Lisboa passou a correr. Finalmente chegámos ao aeroporto, o meu coração começa a acelerar, só queria entrar no avião e chegar a Londres. Estava bastante nervosa pois nunca tinha andado de avião, e finalmente chegámos a Londres, todos bastante contentes e tudo o que queríamos era aproveitar e divertirmo-nos imenso, o que aconteceu, mas nem tudo correu como esperávamos. Na segunda noite, estávamos cinco amigos no quarto até que vivenciamos uma experiência paranormal, algo que nunca tinha acontecido, os nossos corações disparam, ficamos todos assustados, sem reação e só queremos tentar dormir e esquecer o que se passou, achámos melhor não comentar nada com ninguém pois não iriam acreditar em nós, mas a verdade é que foi real, depois desse dia não voltou a acontecer, mas no dia de ir embora, outra peripécia aconteceu. Eu e um amigo íamos ficando retidos no aeroporto em Londres, por pura burrice e ignorância, pois decidimos não separar os líquidos da mala de viagem e devem supor o que aconteceu, pois é, pensavam que tínhamos droga. Entrámos completamente em pânico e sem saber o que fazer, o segurança não nos deixava sair e por sorte não fomos detidos; ansiosamente esperámos que os seguranças analisassem tudo o que tínhamos e mesmo sabendo que não tínhamos droga, ingénuos, pensámos “e se porventura e sabe-se lá porque houver droga no champô” bem, como era de esperar, pois não tínhamos absolutamente nada, lá se resolveu a situação e seguimos caminho. Foi um grande susto, não por pensarem que tínhamos droga, porque sabíamos perfeitamente que não tínhamos, mas sim por todo aquele aparato, num país que não era o nosso e sem nos deixarem sair dali, mas no final e depois de tudo resolvido foi engraçado e é mais uma história para contar.  

Felicidade infeliz

Para a maioria, a palavra “felicidade" associa-se a momentos da vida, como o nascimento de um filho, ou na vitória do Benfica. É, por isso, definida como um estado de espírito idealmente positivo, consequente de eventos circunstancialmente bons. Mas será que este vocábulo merece esta definição ou poderá haver outra?

A verdade é que vejo a “felicidade” como um nome traiçoeiro e hipócrita. Para os muitos que estão neste momento a coçar o couro cabeludo e, talvez, a reler a minha afirmação anterior, fiquem sabendo que me baseio em factos para enunciar a minha tese. Onde há felicidade, houve, outrora, infelicidade. O feliz momento do nascimento de um filho nosso, é antecedido pelo sofrimento da nossa amada, que recorre a todas as suas forças físicas e mentais, para ultrapassar toda a dor que o parto lhe implica. Enquanto isso, como excelentes maridos e companheiros, os homens ficam do lado das suas companheiras a promover a calma… A sua calma, de forma a evitar um possível desmaio na maternidade, visto que isso seria embaraçoso. Depois da vitória do nosso clube favorito, é prioritário uma visita celebrativa ao bar da esquina, mas durante 90 e muitos minutos, os jogadores que vestem as cores da nossa equipa correram, sofreram, sangraram e suaram, para que fossemos para o bar tomar uns copos com os nossos amigos, em vez de irmos para casa fumar uma maço de cigarros de desconsolo.

Os céticos irão dizer que se trata de uma questão de perspetiva, como a derradeira metáfora do “copo meio cheio ou meio vazio”. Porém, o que aqui trago trata-se de pura objetividade. Viver implica sofrer, implica um monte de infelicidades que dão lugar à felicidade da vida, em todo o seu esplendor e beleza. Só aprendemos a ser verdadeiramente felizes, se passarmos por momentos desagradáveis e difíceis e aqui, sim, entra a perspetiva, pois podemos viver agarrados ao desconforto desses momentos menos bons, ou utilizá-los como motor de busca da nossa felicidade. Isso, sim, é verdadeiramente difícil.

Em Portugal, cerca de 10 em cada 100 mil portugueses colocam um fim a essa busca, mas não à dor e à infelicidade, pois é tumultuoso esse caminho para a felicidade. Implica nos expormos ao mundo dos mortais, que nos julga e faz de tudo para nos derrubar. A busca da luz ao fundo do túnel, não pode ser feita sem ajuda, por mais que a desejarmos afastar. É um tamanho exercício de mudar mentalidades e todos sabemos o quão difícil é mudar uma mentalidade.

Em suma, ser feliz é, por isso, o que nós quisermos, o que nós sonharmos e idealizarmos na nossa mente. Não existe uma maneira certa de ser feliz, apenas uma vontade e um desejo que reside nas entranhas do nosso pensamento, daí a dificuldade de “remar contra a maré da infelicidade”. Mas, como os eternos navegadores que somos, adaptados à Caravela Portuguesa, esculpidos pelas ondas dos quatro mares, o truque é deixarmo-nos guiar pelo sabor da corrente e cheirar todos os salpicos de água salgada que se aproximam de nós, pois a conquista está à vista, por mais difícil que seja reconquistar a nossa felicidade.

Alguns lugares onde podemos encontrar amor

 Esta crónica é um guia prático e amador, feito para os amantes do amor, que contém os locais mais inóspitos e quotidianos onde se pode encontrar o amor. Guia este, feito para qualquer um que se identifique e se assemelhe às seguintes características: já se emocionou vendo um filme; já sentiu saudades da infância; já quis um abraço dos pais, mas não conseguiu dizer; já procurou algum sentimento em noites vazias, mas preenchidas por sons e flashes de cores e acontecimentos; se calou em uma discussão pois não sabia reagir à dor de ser magoado; já sentiu o cheiro da pessoa amada no ar; ouviu músicas tristes de madrugada; fez um presente para alguém que você não sabia se te amava; fechou os olhos para sentir o pôr-do-sol a acariciar e aquecer a pele; se abaixou para brincar com um cão na rua; perdoou alguém que te magoou; fez um bolo para a família em um domingo aconchegante; ajudou alguém com uma matéria na escola; lembrou-se da cidade natal em algum acontecimento, como o cheiro do pão doce que alguma padaria emanou.

Se você se encaixa nestes exemplos, ou já tenha sentido o amor nas situações mais subtis, mais ínfimas, mais passageiras e infinitas, esse texto é para você. Mas esse guia é feito, especialmente, para os que não são capazes de encontrar o amor na sua rotina, para aqueles que estão tão submersos nos problemas, que estão tão preocupados em sobreviver que deixam de ver, que atravessam os dias e não se lembram dos mesmos. Essa é uma forma de tentar ajudá-los a encontrar os rostos da própria família na memória, o clima e a umidade das cidades e das estradas, os gostos e o cheiro da nuca da pessoa amada. Essa é uma forma de despertar a sensibilidade para as coisas mais simples e bonitas; as que dia após dia, dão significado à vida; as que dia após dia nos dão a motivação para seguir em frente, mesmo quando não nos apercebemos.

A lista a seguir não é feita por ordem de importância, sendo aleatoriamente posicionada, visando unicamente formar rimas com as situações descritas, para que o leitor não enjoe desse texto ligeiramente piroso.

O amor está…

1.       No olhar do cachorro que acabou de ser adotado e resgatado de um abandono. Na gratidão nos olhos do dono que, sem se aperceber, foi salvo por este cão;

2.       Na mãe acordada, que espera os filhos retornarem a casa;

3.       Na avó que cria os netos quando os pais não o podem fazer;

4.       Na pipoca quentinha que uma amiga prepara para agradar a outra que acabou de brigar com o namorado;

5.       Na motorista do autocarro que dá boleia ao estudante que se esqueceu do passe;

6.       No casal de namoradas que se ajudam mutuamente, sem precisarem de se referir ao que fazem uma pela outra;

7.       Ao casal que se perdoa, e aos parceiros que realmente procuram melhorar depois de pedirem desculpas;

8.       Nos amigos, familiares e namorados que discutem as situações que os incomodam;

9.       Na música que um amigo, que você já nem fala, te dedicou quatro anos atrás;

10.   No ronronar do seu gato;

11.   Na preocupação da esposa com a queda de cabelo do marido;

12.   Na compreensão, da sua namorada ou namorado, com a sua rabugice matinal;

13.   Na forma como algumas pessoas conseguem te acalmar no meio das suas crises, mesmo quando você constrói muros ao seu redor;

14.   Na professora que acredita e fomenta o potencial do seu aluno, talvez ela até te tenha dito “você tem potencial”;

15.   Nas lágrimas de alegria em um casamento;

16.   Nas pessoas que choram imaginando a morte do seu animal de estimação que está vivo e saudável no seu colo;

17.   Na música calma e emocional que nós dançámos na casa dela, em um fim de verão;

18.   O amor está na mudança, no perdão, na escuta, no respirar antes de falar, para não ofender quem amamos;

19.   Nos lápis de cor que seus pais compraram para você com o pouco de dinheiro que eles tinham;

20.   Nos abraços que o pai dá ao filho sempre que a equipa favorita marca um golo, sendo esse o único momento de afeto entre eles;

21.   Na mesa de bar rodeada por amigos que mesmo com pouco dinheiro marcam presença;

22.   Nos poucos amigos que entendem seus silêncios, seus sumiços e seus descompromissos;

23.   Nos abraços que terminam em uma sesta de cinco horas;

24.   Na confiança para despir, não apenas a roupa, mas toda a pele, abrindo-se para alguém até o mais profundo da alma, e dos pulmões, dividindo o mesmo ar e os mesmos suspiros;

25.   Nas viagens durante a noite;

26.   Na praia e nos olhos castanhos;

27.   No churrasco numa calçada;

28.   No filme de baixa qualidade num CD riscado;

29.   Nas pessoas que fazem questão de conhecer seus gostos, sua rotina e seus prazos;

30.   No corpo que se encaixa no seu, sem esforço, que noite após noite aquece o sono, e previne os pesadelos;

31.   Na maldição de Tam Lin e em Scarborough Fair;

32.   Em acordar e ouvir um “eu te amo” em lábios secos e de bafo quente;

33.   Nas mães, nos filhos e nos amantes, nos familiares e nos amigos, nos cães, gatos e outros animais, no dia, na noite, e em toda a natureza. Adaptando-se dia a dia, crescendo como Heras discretas, que invadem e preenchem o nosso coração.

 

E um “etc.;” marcado por infinitas reticências pois, essa lista se estende até ao fim dos tempos, já que as formas de demonstrar amor sempre vão se renovar, retornar e permear. Atravessando os tempos, as gerações e as tragédias, é o amor que prevalece e encandeia os olhos com esperança no nascer do sol. 

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Tarde de verão

 


Julho de 2022, preparava-me para deixar a capital e retomar ao meu Alentejo. Vinha de autocarro, que partia às 15. Saí de casa um pouco tarde e para melhorar a situação ainda apanhei o habitual trânsito de Lisboa. Chego a sete rios e lá dou de caras com o meu autocarro, vejo que já existe uma grande fila para entrar e que eu sou o último desta. Ao entrar no autocarro nunca pensei que tivesse problemas para encontrar um lugar mas assim que acabo de subir as escadas deparo-me com o cenário oposto. Ao passar pelos primeiros lugares, apercebo-me que o autocarro está quase lotado, encontro um lugar e lá me sento ao lado de uma senhora de meia idade. Vir durante uma tarde de verão significa sol, muito sol, o que também significa calor, muito calor. Um autocarro cheio e uma tarde de sol e calor, combinação perfeita. Ao chegar a Portalegre, retiro 2 conclusões, esta foi a minha pior viagem de autocarro e que nunca mais devo chegar atrasado à estação de 7 rios.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Noite de abril

 

Sábado, 2 de abril de 2022, a primavera tinha começado e fazia-se anunciar a cada esquina. O dia foi passado em viajem dentro de um camião, entre planícies floridas e montes verdejantes, interferências de rádio, um almoço numa pequena vila tipicamente alentejana e mais horas de caminho, por entre longas estradas monótonas, que conduziam de novo a casa. A noite chegou branda e silenciosa e eu sem nada esperar dela. Os meus passos conduziram-me até àquele café, que ao abrir a porta de entrada, deparei-me com uma pequena multidão no seu interior. Tudo indicava que seria mais uma festa entediante na aldeia, mas depois ela surgiu no meio daquele ambiente festivo e os meus olhos nunca mais a perderam de vista. Chegou junto a mim com o seu semblante pequeno e a sua voz alegre e tímida, que proferia frases que remetiam para um passado em comum. Ali ficámos, de pé junto ao balcão de vender rifas, a conversar até ser de madrugada, sobre a infância, as banalidades da vida, os gostos musicais e os planos para o futuro. Ali ficámos, trocando olhares que se desviavam rapidamente, bebendo álcool que conduzia os motes das conversas e fazia perdurar uma felicidade. Aquela noite conduziu-me por um atalho, que me levou a um outro tempo. Desejei que ela nunca acabasse, desejei poder viver dentro dela para todo o sempre, mas esta não me concedeu tal benesse.

Após uma noite sem pregar olho e o álcool ter desparecido do sangue, tudo o que restou foi um ardor no meu peito e a beleza de uma imagem plantada na minha mente, que perduraram por longos meses. Perdurou uma busca incessante por ela, em possíveis encontros cancelados à última hora, em festas em que ela não estava presente, pelas ruas pequenas e desertas da aldeia. O tempo foi passando, a primavera mostrou tamanha candura para comigo, sendo que não dei por esta findar. O verão mostrou tamanha rigidez para comigo, sendo que os seus longos dias demoravam a passar. Cansei-me de caminhar pela aldeia, as solas dos meus sapatos já estavam gastas de tanto andar. Perdi a esperança de encontrar alguém que me devolvesse a juventude, que neste sítio sempre pensei que fosse encontrar. Apenas encontrava velhos a andar de forma vagarosa, esperando pacientemente pela morte. Fugi deste lugar, antes que as suas raízes me aprisionassem e fosse tarde demais. Acabei por seguir em frente, aqui não havia nada para mim, por mais bela e pacata que fosse a paisagem, por mais sonhos que tivesse com ela à noite e estes fossem sempre belos, deixando-me a sonhar acordado durante o dia.  

Domingo, 2 de abril de 2023, a primavera tinha começado e fazia-se anunciar a cada esquina. Era o início das férias da Páscoa, a tarde chegou calmamente e eu sem nada esperar dela. Os meus passos foram dar àquele café, que se encontrava completamente cheio, para muito espanto e felicidade minha. No meio de várias caras conhecidas, que voltei a reencontrar com carinho, encontrei a dela novamente, mas esta não me olhou. Mais tarde, cheguei junto ao balcão de vender rifas, com o meu semblante carregado e voz grossa, dirigi-lhe a palavra, mas esta não me respondeu. Assim se foi passando a tarde, com ambos a evitarmo-nos e estando sempre em partes distintas do café. Assim se foi passando a tarde, em trabalho, conversas e bebida. Não era mais uma festa entediante na aldeia. A juventude veio ao meu alcance, através de jogos de matraquilhos, numa mesa ao ar livre. Voltei a dirigir-lhe a palavra, desta vez respondeu-me. Impressionante, como conseguimos comunicar, somente através do álcool. A conversa foi curta, meramente banal, se durou cinco minutos foi muito. Não senti o temor de outros tempos, dentro de mim, nem a necessidade absurda de protegê-la do mundo que há lá fora. As expressões finas do seu rosto, os seus olhos cor-de-mel e o seu cabelo castanho-claro, já não me encantavam, nem fascinavam. Agora, era tudo apenas um amontoado de indiferença. As bolas dos matraquilhos saltavam para bem longe, tamanha era a força e a excitação que eram exercidas durante os jogos. A cabeça andava à roda, tamanha era a quantidade de álcool presente no sangue. Ela despareceu mais uma vez sem deixar rasto, e eu sem ter dado por isso. A noite chegou branda e silenciosa, sem eu ter dado pela sua presença. Uma náusea e mal-estar ameaçaram o meu âmago. Na sanita, vomitei o passado que me acorrentava e fazia refém.

sexta-feira, 7 de abril de 2023

Mente Saudável!

 


Ansiedade

 

De repente, durante uma aula sem ter um motivo obvio comecei a tremer e a perder o controle sobre o meu corpo.

 Um nervosismo incontrolável, que atormenta, incomoda e me deixa irrequieta sem saber o fazer.

Tentei me conter, mas, naquele momento o meu único pensamento era que ia morrer, tremia, perdi o fôlego e quando dei por min mal conseguia respirar. 

A sensação é de desespero visto que eu mal conseguia parar de chorar, não conseguia falar e nem mandar a calma. Enquanto todos me olhavam com pena e envergonhados daquela situação eu só chorava.

 Poucos momentos depois me apercebi de que o tormento tinha passado, aos poucos consegui recuperar o controle do meu corpo, com calma parei de tremer e finalmente consegui controlar a minha respiração. 

Envergonhada olhei a minha volta e os meus colegas estavam todos a olhar para min com uma cara depena e desprezo, automaticamente o meu olhar de medo mudou para triste pois eu não fazia a ideia de que um dia eu podia parar por uma situação daquelas, contudo tive apoio dos meus colegas, me senti bem acolhida e achei por bem que seria melhor ir para a casa e descansar.

 

Assim que cheguei a casa, descontente com o acontecido comecei a pesquisar a cerca de hábitos benéficos e saudáveis que poderia de uma certa forma ajudar com a crise do pânico e a ansiedade. 

Por sorte acabei encontrando um vídeo de um fisiculturista chamado Paulo Muzi, onde o mesmo explicava os benefícios da atividade física para a mente e o corpo. 

Desde então optei em fazer musculação, embora seja uma decisão um pouco difícil perante a situação passada decidi investir mais em min e na minha alimentação o que de uma certa forma de ajudar a melhorar o meu estado emocional e claro com a ajuda de uma psicóloga sigo com as consultas semanais, uma alimentação saudável e muita atividade física.





sábado, 1 de abril de 2023

Sociedade


"Já estás a ficar velha!". Tenho ir pintar o cabelo. "Estás coberta de pelos, pareces um menino". Tenho de ir à depilação. "Essa blusa não te fica bem por causa da tua barriga". Tenho de parar de comer. "O que estás a fazer? Brincar com carrinhos é só para meninos!". Tenho de ir buscar as bonecas.

A Sociedade desde o início das nossas vidas que nos limita a tudo o que podemos e devemos fazer. Se é justo? Não. Mas temos de aprender a  viver com isso.

Já estamos em pleno século XXI e ainda existe tanto isto porque?

Tenho cabelos brancos? Tão vou mostrar a toda a gente o quão lindos são. Tenho pelos? Sim, sou um ser humano como todas as pessoas deste planeta. Estou com barriguinha? Estou e sinto-me bem assim e vou vestir o que eu gosto. Cada um tem os seus gostos e cada um é como é.

Não tem de existir um padrão na Sociedade. Mas quem teve essa infeliz ideia de criar uma coisa assim? Ninguém tem de ser igual a ninguém, cada um tem de ser ele próprio e como se sentir melhor e confortável.

 

Qual era a piada se toda a gente fosse igual?


Vemos e seguimos

A guerra cabe num ecrã de telemóvel, num vídeo de poucos segundos que vemos e esquecemos. Deslizamos para o lado e seguimos com o dia, como ...