sexta-feira, 10 de junho de 2022

Se nos tivessem dito

Se nos tivessem dito que a vida era muito mais ser do que parecer, que se prendia no equilíbrio entre o dar e o receber e que ia ser esta longa dança onde estamos permanentemente à procura de acertar o passo, talvez as coisas fossem diferentes. Se nos tivessem dito que os minutos não voltam, que a saudade faz casa que ganha pó e que coleciona fissuras por onde nem sempre a luz decide sair. Se nos tivessem dito que os pores do sol são efémeros, que a chuva chega sem avisar e que nem sempre vamos ter os relógios sincronizados. Que somos os pintores da nossa arte, os escritores da nossa prosa e que a vida nasce do que dela captamos, tínhamos desenhado e pintado prados verdejantes citando Dostoiévski e absorvendo Chico Buarque como banda sonora. Se nos tivessem dito que nada é garantia, que tudo se cultiva e que o que vem continua a saber o caminho de volta, tínhamos dito quase tudo, abraçado e beijado com intensidades mediadas pelas linhas que pautam o coração e a vontade. Ás vezes o nosso problema é construir equações onde elas não existem, sabes? Somar demais. Subtrair demais e acabar por reduzir o mundo a um tamanho completamente desproporcional aos nossos sentimentos e ambições. Tornamo-nos pequeninos. Achamos que há coisas que não nos servem e esquecemo-nos completamente de que vimos cá sem tamanhos. Que tudo ganha a proporção que lhe dermos e que só por essa razão, somos força. Mesmo que haja quem insista em dizer-nos o contrário.

Tenho a certeza, de que se nos tivessem dito que a vida não tinha ensaio, muito provavelmente imploraríamos por um bilhete para ficar a assistir à peça na primeira fila e isso diz muito sobre o nosso à vontade em palco.

Rita Nobre


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