A guerra cabe num ecrã de telemóvel, num vídeo de poucos segundos que vemos e esquecemos.
Deslizamos para o lado e seguimos com o dia, como se nada fosse. Em poucos segundos, aquilo que é a realidade de alguém torna-se apenas mais um conteúdo entre tantos outros. Vemos, reagimos por instantes e continuamos.
No meio de tantas imagens, a guerra deixou de ser um choque para passar a ser rotina. Já não nos surpreende, já não nos pára. Tornou-se mais uma notícia, mais um vídeo, mais um som de fundo num mundo que não abranda.
Mas do outro lado do ecrã, não há filtros nem pausas. Há casas destruídas, famílias separadas, vidas interrompidas. Há pessoas que acordam sem saber se o dia seguinte vai chegar. Pessoas como nós, com rotinas que poderiam ser as nossas, mas que foram substituídas pelo medo, pela perda e pela incerteza.
Talvez o mais preocupante não seja apenas a guerra em si, mas a forma como nos habituámos a ela. A facilidade com que transformamos sofrimento em algo distante, quase irreal. Como se, por estar longe, deixasse de ser urgente.
No meio de tanta informação, esquecemo-nos de algo essencial, não são números, são pessoas. Cada imagem que passa diante dos nossos olhos carrega uma história que não conhecemos, uma vida que continua, ou que, na maior parte das vezes, termina ali.
E enquanto continuarmos a tratar a dor dos outros como algo que se pode simplesmente deslizar para esquecer, a guerra não deixa de acontecer, apenas deixa de nos afetar.
Inês Garção
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