terça-feira, 14 de março de 2023

Desenhos de futuro, no presente


   cerca de um ano atrás, o mundo olhou com olhos lassos uma investida cruel e premeditada da Rússia contra o submisso povo ucraniano e as atenções, rapidamente, foram colocadas nesse conflito armado que, embora longe, mostrou trazer consequências, não só para Portugal, como para muitos outros estados-membros da EU. Porém, em território português, a vida prosseguiu e a paz perdurou, vivendo-se num clima despreocupado e relaxado face ao tema da guerra. Contudo, na verdade, travamos não uma, mas várias guerras silenciosas. Isto porque será ingénuo pensar que a guerra é, simplesmente, a ausência de paz, pois é bem mais que isso. Em Portugal, essa palavra metamorfoseia-se num vasto leque de problemas sociais e políticos, que preenchem o nosso dia a dia e moldam a nossa vida, muitos deles perduram há várias gerações e permanecem na penumbra, sem a merecida atenção. 

    Desde muito jovem, como qualquer outro patriota, procurei sentar-me junto de dois veteranos e ávidos contribuintes do estado que, aos domingos, tradicionalmente, lutam contra os efeitos de um bom vinho tinto enquanto debatem sobre os mais variados temas, da guerra, sobre política, futebol, religião, geografia e até mulheres... Maravilhava-me a forma como nenhum assunto era deixado de fora, nem mesmo aqueles simples o suficiente para uma criança puder intervir. Aquele vigor e aquela paixão com que cada palavra ressoava, às vezes acompanhada de um imponente murro na mesa, cativava-me e alimentava a minha veia crítica, embora nem soubesse o significado da palavra “impostos”. 

    Com o passar dos anos e há medida que crescia, tornou-se percetível a intemporalidade das nossas reuniões e o peso dos assuntos que discutíamos pela tarde fora. À medida que ia olhando e admirando o mundo, enchendo-me de experiência empírica, o meu respeito e admiração por estas simples confraternizações de domingo consolidou-se e finalmente percebi o significado da frustração daqueles punhos cerrados, que, por vezes, atingiam o tampo da mesa de madeira. Não era o vinho, embora o mesmo ajudasse, mas sim um sentimento de impotência que enraivecia os músculos dos seus braços. 

    Os problemas daquelas duas gerações, que bebericavam o caldo de peixe depois de uma semana de trabalho, são os mesmos da minha geração e, se calhar, os da geração seguinte. Por exemplo, o SNS é incapaz de atender às necessidades dos portugueses, o ordenado mínimo é insuficiente para fazer frente à inflação e aos impostos, cada vez mais cargos importantes têm mão de obra não qualificada, o panorama da corrupção em Portugal é preocupante, etc... Mas mais preocupante ainda, são aqueles que deixaram de dar um murro na mesa, que deixaram de acreditar em Portugal. São cerca de 5 milhões, metade dos portugueses, filhos de D. Afonso Henriques e outros grandes guerreiros lusitanos, que se abstêm de votar. Pois bem, aqueles dois homens frustrados de que vos falei, ainda não desistiram, mas e se desistirem? E se eu desistir? E se tu desistires? E se vós desistísseis?  

É assustador pensar que iremos desistir sem dar luta, sem arregaçar as mangas e sujar as botas, porque é certo que vivemos tempos difíceis e enfrentamos inúmeros obstáculos sem precedentes, mas temos de nos unir e de lutar. Devemos isso a nós próprios e a todos os outros cidadãos deste país, “Hoje, tu por mim, amanhã eu por ti”. A minha geração é vulgarmente acusada de ser demasiado inerte, mas a verdade é que ainda estamos na retaguarda, com medo, ansiosos para que chegue a nossa vez de lutar e, por isso, devemos unir-nos contra os canhões da corrupção e da abstenção, mesmo que seja mais fácil desistir. Juntos podemos alcançar um verdadeiro sentimento de paz, quando olharmos para a nossa nação e relembrarmos que os nossos esforços não foram em vão! 

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