Seis meses se passaram desde que tudo começou. Ainda me lembro da primeira vez que aqui fiquei, neste quarto pequeno e escuro. Do medo e incerteza que sentia, quando o meu pai se foi embora e as aulas começavam na manhã seguinte. Ainda me lembro da sensação de descoberta, ao andar pelos vários recantos da cidade sozinho e que terminava com a observação do pôr do sol, da sensação de felicidade, ao fazer novas amizades entre aulas e cafés, da sensação de progresso que julgava estar a dar à minha vida, bem como do entusiasmo que sentia por esta. Mas depois as viagens de autocarro, nos domingos à noite, começaram a tornar-se banais, assim como o tempo de espera e as conversas de circunstância. É de modo apático, que agora caminho à noite pelas ruas silenciosas da cidade e ouço a água nos repuxos a cair, enquanto não chego a casa e não desfaço a mala. A rotina começou a tornar-se fatídica e previsível, as aulas na maioria das vezes arrastam-se no tempo, demorando uma eternidade a passar. As conversas são superficiais e vão dar sempre aos mesmos assuntos e tópicos, sendo os seus enredos de tamanha intriga e complexidade, impossíveis de se escapar.
Por mais estímulos que surjam durante a semana, como uma
partida de futebol às terças-feiras, uma ida ao cinema à noite, almoços e
jantares com amigos, noites passadas na praça e que só acabam com a chegada a
casa de madrugada, estes apenas me fazem recuperar momentaneamente a juventude,
que julgava perdida há muito, nas brumas de uma memória qualquer. Apenas me
fazem fugir da realidade por breves horas, sendo que quando acabam, volta a
perdurar uma necessidade de busca, um vazio e uma raiva crescente, que se
instalam e pulsam dentro mim, ao olhar-me no espelho da casa de banho ou quando
estou deitado, na cama daquele quarto escuro. Não sei o que busco ao certo. Um
grande amor? Uma necessidade de encontrar um sentido naquilo que estou a fazer?
Talvez, mas as respostas para as perguntas desta busca, continuam inacessíveis
para mim. E enquanto estas não surgem, continuo à procura delas nas ruas e
recantos desta cidade, que tanto se assemelha à minha cidade natal, desde a sua
pequenez e decrepitude, passando pela sua beleza que me faz ficar cativo. Continuo
à espera delas, através de caixas de pastilhas elásticas e cafés, que alimentam
a minha ansiedade. Da confusão, que insiste em fazer-se ouvir dentro da minha
mente. Do tanto de amargura que reside em mim, enquanto observo os outros a levarem
a vida com uma certa leveza e felicidade.
Irei continuar à espera, pelo menos durante mais 2 anos e 4
meses, o tempo que se assemelha a antigos anos da minha vida e que me resta
nesta cidade réplica. Até lá, continuarei a vaguear por aqui, umas vezes
solitariamente, outras vezes acompanhado, sempre com aquela tristeza e
melancolia características da minha pessoa. Depois disso? Não faço a mínima
ideia do que irá suceder-se, depois de findados os melhores anos da minha vida.
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