quinta-feira, 27 de abril de 2023

Cidade Réplica

Seis meses se passaram desde que tudo começou. Ainda me lembro da primeira vez que aqui fiquei, neste quarto pequeno e escuro. Do medo e incerteza que sentia, quando o meu pai se foi embora e as aulas começavam na manhã seguinte. Ainda me lembro da sensação de descoberta, ao andar pelos vários recantos da cidade sozinho e que terminava com a observação do pôr do sol, da sensação de felicidade, ao fazer novas amizades entre aulas e cafés, da sensação de progresso que julgava estar a dar à minha vida, bem como do entusiasmo que sentia por esta. Mas depois as viagens de autocarro, nos domingos à noite, começaram a tornar-se banais, assim como o tempo de espera e as conversas de circunstância. É de modo apático, que agora caminho à noite pelas ruas silenciosas da cidade e ouço a água nos repuxos a cair, enquanto não chego a casa e não desfaço a mala. A rotina começou a tornar-se fatídica e previsível, as aulas na maioria das vezes arrastam-se no tempo, demorando uma eternidade a passar. As conversas são superficiais e vão dar sempre aos mesmos assuntos e tópicos, sendo os seus enredos de tamanha intriga e complexidade, impossíveis de se escapar.

Por mais estímulos que surjam durante a semana, como uma partida de futebol às terças-feiras, uma ida ao cinema à noite, almoços e jantares com amigos, noites passadas na praça e que só acabam com a chegada a casa de madrugada, estes apenas me fazem recuperar momentaneamente a juventude, que julgava perdida há muito, nas brumas de uma memória qualquer. Apenas me fazem fugir da realidade por breves horas, sendo que quando acabam, volta a perdurar uma necessidade de busca, um vazio e uma raiva crescente, que se instalam e pulsam dentro mim, ao olhar-me no espelho da casa de banho ou quando estou deitado, na cama daquele quarto escuro. Não sei o que busco ao certo. Um grande amor? Uma necessidade de encontrar um sentido naquilo que estou a fazer? Talvez, mas as respostas para as perguntas desta busca, continuam inacessíveis para mim. E enquanto estas não surgem, continuo à procura delas nas ruas e recantos desta cidade, que tanto se assemelha à minha cidade natal, desde a sua pequenez e decrepitude, passando pela sua beleza que me faz ficar cativo. Continuo à espera delas, através de caixas de pastilhas elásticas e cafés, que alimentam a minha ansiedade. Da confusão, que insiste em fazer-se ouvir dentro da minha mente. Do tanto de amargura que reside em mim, enquanto observo os outros a levarem a vida com uma certa leveza e felicidade.

Irei continuar à espera, pelo menos durante mais 2 anos e 4 meses, o tempo que se assemelha a antigos anos da minha vida e que me resta nesta cidade réplica. Até lá, continuarei a vaguear por aqui, umas vezes solitariamente, outras vezes acompanhado, sempre com aquela tristeza e melancolia características da minha pessoa. Depois disso? Não faço a mínima ideia do que irá suceder-se, depois de findados os melhores anos da minha vida.  

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