quinta-feira, 20 de abril de 2023

Satisfeitos na Insatisfação

Em teoria acho que podemos dizer que o povo português é um povo insatisfeito por natureza. É uma tese facilmente refutável, mas se analisarmos com atenção começa logo bem cedo quando nos cumprimentamos de manhã. Depois de um “então, tá tudo bem?”, por norma surge sempre um: “EH, vai se andando!", "Uns dias mal outros dias pior!”

A satisfação e a insatisfação são uma constante inconstância e aliada à fácil vontade de revolta do português para com Portugal, junta-se muitas vezes a questão deste se remeter à sua insignificância (ou à que neste caso pensa que tem).

É certo que mais do que um povo queixoso, o português tem direito a queixar-se do que bem entender mas muitas das vezes está ridiculamente intrínseco ao português, queixar se quando não tem grande legitimidade para tal.

Como diz um famoso poeta futebolístico “ ser português é pensar pequeno”, e preso por uma corda de sisal a este raciocínio vem a ideia do português, que com um mero toque ou bitaite, consegue resolver todas as questões fraturantes da sociedade onde se insere.

Salários, litoralização, áreas metropolitanas, panorama político no geral, meteorologia, trânsito, IVA, futebol, desde os tópicos mais controversos ás questões mais simples, tudo acaba por ser (ou pode ser) alvo de escrutínio por parte de um português insatisfeito.

Nesta perspetiva, a insatisfação é quase mágica, transformando muitas vezes o português no sabichão que opina e resolve tudo. Orienta o que está desorientado, e conserta o que está partido, tudo isto através da arte do paleio. Quase como se a insatisfação que “mal faz moça” aos restantes europeus, tirasse o discernimento total ao português descontente.

No fundo, o intuito desta crónica era dizer, sub-repticiamente, que os portugueses acabam por não ter grande coisa para se queixarem por viverem num belo país, mas agora que vejo bem, já me deixei contagiar pelo meu Portugalismo.

 


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