Mais um dia em que vou ao cemitério. Em que abro aquele
portão preto enferrujado e dou de caras com dezenas de campas, que permanecem
imóveis naquele chão de terra batida. Imóveis às estações, às intempéries, aos
anos. Ponho-me a observá-las de perto, umas estão repletas de flores e com a
lápide, onde consta a fotografia e algumas informações sobre a pessoa falecida,
bastante nítida e límpida. Outras têm as flores todas murchas e gastas do sol,
as lápides sujas e impercetíveis, ou então nem sequer têm flores ou lápides,
são apenas um mero amontoado de terra castanha. Ponho-me a ler os nomes e as
datas de nascimento e de falecimento. Não consigo deixar de imaginar a vida que
todas aquelas pessoas tiveram, no que os seus familiares sentiram e o que podia
ter acontecido, se não tivessem partido naquele exato momento. Mas, na
realidade, isso nada importa, elas já não existem. Os seus corpos, as suas
poeiras e as suas auras, desapareceram para toda a eternidade.
Mais uma vez em que venho ao cemitério. E não é por ser dia
1 de novembro, o único dia em que todos aqui vêm e se relembram. Nem porque gosto
de vir aqui, passear pelas campas e observá-las. Que estranho e mórbido isso
seria. Venho aqui porque me obrigam e arrastam até aqui. Venho aqui porque, de
certa forma, necessito de vir aqui. Necessito de observar aquela campa em
específico, toda repleta de flores e a sua lápide límpida e nítida. Ficar
diante dela, imóvel e inerte, sem conseguir pensar em nada concreto. Um
entorpecimento percorre o meu corpo, deixando-me atordoado. O caixão de madeira
cedeu com o peso da terra, o corpo cedeu com a decomposição exercida pelo
tempo. É sempre o que acabo por pensar, eventualmente. Quanto tempo passou
realmente, desde aquele dia fatídico? 2 anos? E quanto mais tempo irá passar? 5
anos? 10 anos? Uma vida inteira? O que é que mudou realmente? Provavelmente
nada. O que ela iria dizer se me voltasse a ver novamente? Que tinha orgulho em
mim e para sorrir mais. O que é que eu aprendi com tudo isto? Absolutamente
nada, continuo o mesmo ignorante de sempre, com os mesmos hábitos de sempre.
Passaram apenas uns 5 minutos, desde que estou ali imóvel,
em frente àquela campa. Viro-lhe as costas e volto a fitá-la ao longe, como
sempre faço. Fecho aquele portão preto enferrujado e vou-me embora, mas a sua
presença e memória nunca me abandonam. Dou por mim nos dias de semana, à noite
e no silêncio do quarto, a olhar para uma fotografia tirada no dia de Natal. Nas
noites de fim-de-semana, a assistir filmes maternais e a ver álbuns inteiros de
fotografias, que vão desde a lua de mel até ao meu nascimento. Dou por mim a
chorar copiosamente na escuridão da madrugada, a mentir de forma compulsiva aos
meus amigos, dizendo que ela ainda existe, a não conseguir seguir em frente.
Dou por mim a ir ao cemitério.
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