domingo, 4 de junho de 2023

Desmistificando os Açores

 -ATENÇÃO! Esta crónica é de caráter puro e simplesmente satírico. As ilhas e o continente português são, de facto, mundos diferentes, mas com muita coisa em comum. Um obrigado a todos os meus amigos continentais que me fazem sentir em casa, mesmo estando a mais de 1800 km da mesma. Portugal, insular ou continental, é um país de encantos e de gentes incríveis e trabalhadoras.


Ser açoriano, no continente português, é como fazer parte de um fenómeno de imigração sem sair do país de origem. Isto porque, embora a língua falada seja a mesma e a moeda também, a verdade é que as diferenças entre uma e outra realidade são notórias e os nossos amigos “continentais” não perdem tempo em constatar que “não és daqui, pois não?”. Orgulhosos como os açorianos são, não temos problemas em responder rapidamente, “Não, sou dos Açores.”, o que se mostra, desde logo, num ponto em comum, já que a maioria dos portugueses continentais já foi aos Açores, mais concretamente à ilha de São Miguel, “capital do Funchal, na Madeira”. A quantidade de “barbaridades” estereotipadas que um açoriano ouve num contacto deste tipo são deveras estonteantes e, por isso, como bom cidadão desta belíssima nação Lusitana, tomo por minha missão desmistificar essas aberrações lógicas e concessões erradas sobre as nove ilhas dos Açores (sim, são nove, não sete). 

A descoberta dos Açores, como a maioria da sua história, está envolta em mistério e incerteza. Não se sabe ao certo quando as primeiras ilhas foram descobertas, sabe-se, sim, que o seu povoamento se deu em meados do século XV. Por isso, é perentório frisar que nem todos os habitantes das ilhas dos Açores falam “Açoriano”, isto porque não existe tal coisa como um sotaque “Açoriano”, existe sim o sotaque micaelense, trazido pelos alentejanos, algarvios e franceses que povoaram a ilha de São Miguel por volta desse período. Por outro lado, a ilha Terceira tem o seu sotaque caraterístico e cantado, cujos flamengos trouxeram da zona da flandres, já a ilha do Faial passa um pouco mais despercebida, aproximando-se da pronúncia coimbrã.  

Mas numa coisa o povo continental tem razão. Viver numa ilha no meio do Atlântico é verdadeiramente difícil. Os invernos são rigorosos e as restantes estações incertas, pois, nos Açores, os meteorologistas têm trabalho a quadruplicar, uma vez que, num dia apenas, poderão ocorrer todas as quatro estações do ano. Se de manhã está sol, é porque à tarde vai chover e se de manhã está calor, é porque à tarde vai fazer frio. Neste recanto, entre o continente Americano e o continente Europeu, chove enquanto faz sol e o céu enche-se de nuvens mais rápido do que, após 15 minutos, se abre e mostra, mais uma vez, o azul do céu. É por isso, muito difícil entrar e sair de ilha para ilha, ou até mesmo para fora do arquipélago, entre novembro e janeiro, podendo algumas ilhas, como o caso das mais ocidentais (que são mais vulneráveis às tempestades), ficarem isoladas do exterior durante algumas semanas. Por conseguinte, damos muito valor aos corajosos e habilidosos pilotos da “SATA” (Sociedade Açoriana de Transportes Aéreos) e aos marinheiros que enfrentam as condições mais inóspitas, chegando a estar longe da família por meses a fio, para que cheguem brinquedos para as crianças, combustível para os carros, provisões para os super mercados, enfim, tudo o que não se consegue arranjar num imponente pedaço de litosfera. 

Mas o povo açoriano aprendeu a conviver bem com a solidão de ser ilhéu. Cria o seu próprio gado, planta a sua própria horta. As nossas ilhas são um autêntico “pomar” no meio do Oceano, que nunca para de dar frutos. No inverno, servem de abrigo a iatistas aventureiros, que se refugiam nas nossas vertentes altas e escoadas de lava solidificada. Na primavera, a imensidão de floresta virgem recobre-se de uma tenra verdura e as flores desabrocham, abraçando o clima ameno e agradável do arquipélago. No verão, as nossas praias de areia basáltica convidam os turistas a desfrutar do nosso quintal e os cachalotes e golfinhos que fazem das profundezas do mar a sua casa, vêm desfrutar das ricas e quentes águas açorianas.  

 Pois bem, tirando os contratempos de estar a cerca de 1800km do continente Europeu, a vida por cá é bastante pacífica. Não existem shoppings, mas temos tudo o que precisamos, desde uma casa que parece estar num destino de férias, boa comida, boa gente, na ilha do Pico, um vinho tão bom que foi parar à mesa de Czares e Papas, na ilha Graciosa, queijadas divinais, na Ilha das Flores, cascatas lindíssimas. O que não falta são razões para amarmos a nossa terra, a nossa identidade, as nossas diferenças, as nossas virtudes e desvirtudes, o que não falta são razões para os meus amigos continentais me virem visitar e pararem de dizer baboseiras.  

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