A tecnologia chegou devagarinho, quase sem se dar por ela, e hoje governa-nos os dias. Acordamos com um alarme programado, consultamos a meteorologia antes de escolher a roupa, vemos o trânsito antes de sair. Nas filas de espera, ninguém se olha nos olhos, todos com a cabeça colados nos ecrãs, como se a realidade estivesse lá dentro e não aqui fora.
Lembro-me muito bem do tempo em que o telemóvel era apenas isso, um telefone que cabia no bolso. Servia para ligar, talvez mandar uma mensagem com sorte, e pouco mais. Hoje, olho para o mesmo bolso e percebo que carrego comigo um mundo inteiro. O telemóvel tornou-se espelho, bússola, carteira, álbum de fotografias, confessionário e, muitas vezes, companhia.
Com isto, não quero dizer que tenciono regressar aos tempos da máquina de escrever. A tecnologia trouxe conforto, eficiência, até esperança. Falamos com pessoas do outro lado do mundo em tempo real, estudamos sem sair de casa. O problema não está na máquina. Está na forma como a usamos, ou pior, como ela nos usa.
Vivemos numa era de dependência disfarçada de progresso. Quantas vezes se perde a noção do tempo a deslizar o dedo no ecrã na aplicação do TikTok? Quantas conversas se interrompem para ver uma notificação? A tecnologia aproxima quem está longe, sim, mas afasta tantas vezes quem está perto.
Há quem diga que o futuro é digital, e isso assusta-me de certo modo. Talvez até tenha razão. Mas que seja um digital com humanidade. Que saibamos sempre pausar o vídeo para ouvir quem está ao nosso lado. Que consigamos desligar o Wi-Fi sem entrar em pânico. Que a tecnologia continue a ser ferramenta, e não dono.
Porque no fim, não é o mais recente modelo que nos faz viver melhor, é a forma como escolhemos usá-lo.
Sem comentários:
Enviar um comentário