Uma coisa que se tornou automática, tirar o telemóvel do
bolso. Não por causa de uma notificação ou de um motivo. Basta não haver nada
para fazer ou uma conversa ter acabado, que lá está ele nas nossas mãos.
Antigamente as pessoas encontravam-se, hoje, conectam-se.
Parece a mesma coisa, mas não é. Aqui em casa, as coisas são muito claras,
ninguém mexe no telemóvel à mesa. As refeições não servem apenas para matar a
fome, servem para cada um contar como foi o dia, um momento de família.
O telemóvel aproximou bastante quem está longe, disso não há
dúvida. Permite uma mensagem rápida, videochamadas, coisas que antes dependiam
de cartas e muita espera.
Mas, por outro lado, afastou quem está perto. Às vezes
estamos tão focados no telemóvel, que nos esquecemos da magia que é ter uma
simples conversa com amigos e família. Por isso é que o apagão foi tão especial
para mim, não havia rede nenhuma, mas estávamos todos mais ligados do que
nunca.
Há algo que me deixa com os nervos à flor da pele, que é ver
um grupo de amigos em silêncio, cada um no seu próprio mundo digital. Já não é
estranho. Pelo contrário, tornou-se normal. E talvez seja isso que mais me
assusta, a naturalidade com que olhamos para o ecrã, nem se aproveita o
momento, o que verdadeiramente interessa, é registar.
E depois há a ansiedade. A necessidade de responder rápido,
de não deixar mensagens “por abrir”, de manter uma presença constante. Como se
desaparecer por umas horas fosse quase um ato de rebeldia. Como se o silêncio,
que antes era natural, tivesse passado a ser interpretado como desinteresse.
Mas, apesar de tudo, o telemóvel não é o único vilão no meio
disto tudo, porque afinal, é apenas uma ferramenta, poderosa, que amplia aquilo
que já somos. A questão não é, nem nunca vai ser o objeto, mas o uso que lhe
damos.
Talvez o desafio esteja em algo simples, estar. Estar numa
conversa sem distrações, estar num jantar sem interrupções, estar num momento
sem a necessidade de o partilhar imediatamente. Porque, no meio de tantas
ligações, corremos o risco de perder o essencial, a ligação real, que é insubstituível.
E talvez, só talvez, a próxima grande revolução seja esta, pousar
o telemóvel e olhar alguém nos olhos outra vez.
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