Lá vai a camioneta da carreira. Destino: as cidades
mais próximas a 32 e 38Km´s respetivamente. À mesma hora começam os mineiros a chegar,
para mais um turno de trabalho. De inverno nem vêm luz e nos dias maiores, lá
conseguem aproveitar alguns raios de sol que demoram mais tempo a pôr-se pela
serra de Cebola. Os mais velhos dizem que a cada ano que passa, têm mais sol
por alguns minutos em relação aos anos que passam. Dizem que são as courelas da
serra que se estão a “dar”. Mas que "raí" são courelas, pergunta o leitor atento?
Pois bem, são as terras, onde a nossa gente semeia, que estão espalhadas pela
encosta. Pondo isto por miúdos, a serra está cada vez mais baixa. Mas o que
realmente se passa, é que devido às escavações da mina, abrem-se novas crateras
espalhadas por diversos pontos da serra, o que faz com que exista a sensação de
que a serra está a perder altitude (digamos assim), embora muito pouca. Talvez
o mais interessante disto tudo, seja saber como as pessoas vêm esta mudança. É
através da torre da igreja de S. Jorge da Beira! Confuso?? Passo a explicar:
como esta povoação encontra-se num vale, a sombra da torre da igreja é visível
por mais tempo, a cada ano que passa, mostrando que sobravam alguns raios de
sol, por mais tempo.
É que embora, Portugal seja um país onde o sol reina,
não nos podemos esquecer, que no inverno, chove, neva e está muitas vezes
encoberto. Para além destes fatores climatológicos que são confirmados pelo meu
joelho, os dias são mais pequenos, do que no verão. As gentes destas terras
mineiras, na estação mais quente do ano, têm o hábito de se sentarem às suas
portas, fazendo a chamada “fotossíntese da vitamina D”. Claro sempre com o tão
típico “boné”, ou com um guarda-sol com uma dada marca de café que a tasca da
aldeia tem. Numa aldeia de vale, o sol é como o volfrâmio que se explora mesmo
ali ao pé. Valioso e muito raro num dia gélido de janeiro e têm-se de o
aproveitar muito bem, pois mal ele aparece, já está a desaparecer na outra
ponta da aldeia.
Mas o que o sol tem a ver com os mineiros? Pois bem,
em certa parte nada. Mas a nível pessoal, para quem passa 8 horas debaixo de
terra é muito importante, não só para a sua saúde, tanto física, como mental,
mas também para que os mineiros consigam aproveitar um pouco do seu tempo
livre, para ir ter com os colegas do trabalho, “trabalhar a língua” (assim
dizendo), pondo todos os assuntos em dia, ou então aproveitar algum tempo com a
família.
Apenas achei interessante falar deste tema, pois para
além de ser algo do quotidiano, que já está enraizado a alguns anos, também é
uma forma de homenagear os mineiros e agradecer por termos um país onde o sol é
uma marca de identidade, que brilha praticamente 365 dias por ano.

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