O
Relógio que Tem Sempre Corda
O
tempo ultimamente tem estado meio estranho, provavelmente fruto dos vários
desequilíbrios provocados pelos bruscos aumentos e quebras na produção
industrial dos últimos tempos. A vida próxima do mar tem outro sabor, tanto por
ser um misto da calmaria do campo e do reboliço da cidade como pela suave brisa
que arrepia a pele nas lindíssimas noites de verão, repletas de magia e de um
aroma a mistério, especialmente quando se estende a toalha na praia e meio que
perplexos nos perdemos a olhar para a enorme quantidade de estrelas existentes
no céu, e de tanto perdidos ao olhar ficamos assim também perdidos no
pensamento, o “O que será o almoço amanhã” dá lugar ao “Será que um dia receberemos
uma visita dos extraterrestres, será que eles existem na verdade?” ou “Será que
existe vida depois da morte?”, várias perguntas que nos invadem o pensamento e
outras tantas que nem nos passam pela cabeça, literalmente, fazem-nos sentir
como uns autênticos filósofos, nem que seja apenas por breves instantes, fazem-nos
perceber a importância da sigla “YOLO”, (You Only Live Once), que traduzida
para português significa, só se vive uma vez. Muita e boa gente se rege por
esta frase, não há nada contra, mas tal como tudo na vida tem de existir um
consenso, “Nem tanto ao mar nem tanto à terra”, como diria a minha avó.
É
tudo muito giro na adolescência até chegar a altura de começar a ter algumas
responsabilidades, a inocência foi-se, é altura de começar a pensar a sério
como será a vida dali para diante, acabaram-se os, “Mãe faz-me uma tosta” ou o
“Pai leva-me lá ao centro comercial”, chega-se àquela fase transição em que as
saídas á noite começam a ser substituídas pelos serões a fazer trabalhos para a
faculdade, o “queria uma cerveja por favor” é substituído por “queria um café
por favor”, também se nota esta mudança quando já não achas piada à típica
frase do empregado, a famosa, “Ai queria? Já não quer?” e fazemos aquele
sorriso forçado, é uma competência que se adquire e que penso que dará jeito no
futuro, começamos também a ficar mestres na arte do “aquele é o filho da
Manuela, a mulher do Rafael que trabalhou na Junta”, algo que nunca pensei que
me fosse acontecer, adiante, o tirar a carta, que na minha opinião é a mais
pura definição de liberdade, porque não só deixas de chatear os teus pais como
já podes ter aquela desculpa para chegar tarde a casa, “perdi as chaves do
carro mas depois encontrei-as” quando na verdade sempre as tiveste no bolso
esquerdo das calças, são estas pequenas coisas que fazem com que o medo de ter
mais responsabilidades seja recompensado com uma maior liberdade. Nem quero
pensar na vida adulta, apesar de toda a liberdade que tem para oferecer, as
artroses não são algo que anseio por ter, já tenho o exemplo dos meus pais que
cada vez que se abaixam para apanhar algo do chão imitam um cantor de rock e
não me parece muito desejável, mas é a lei da vida e tal como algumas coisas de
que não gostamos temos de o aceitar, como por exemplo o tempo, que quando não
queremos passa a correr e quando desejamos que passe rápido parece que está
parado.
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