terça-feira, 23 de março de 2021

O relógio que tem sempre corda

 

O Relógio que Tem Sempre Corda

 

O tempo ultimamente tem estado meio estranho, provavelmente fruto dos vários desequilíbrios provocados pelos bruscos aumentos e quebras na produção industrial dos últimos tempos. A vida próxima do mar tem outro sabor, tanto por ser um misto da calmaria do campo e do reboliço da cidade como pela suave brisa que arrepia a pele nas lindíssimas noites de verão, repletas de magia e de um aroma a mistério, especialmente quando se estende a toalha na praia e meio que perplexos nos perdemos a olhar para a enorme quantidade de estrelas existentes no céu, e de tanto perdidos ao olhar ficamos assim também perdidos no pensamento, o “O que será o almoço amanhã” dá lugar ao “Será que um dia receberemos uma visita dos extraterrestres, será que eles existem na verdade?” ou “Será que existe vida depois da morte?”, várias perguntas que nos invadem o pensamento e outras tantas que nem nos passam pela cabeça, literalmente, fazem-nos sentir como uns autênticos filósofos, nem que seja apenas por breves instantes, fazem-nos perceber a importância da sigla “YOLO”, (You Only Live Once), que traduzida para português significa, só se vive uma vez. Muita e boa gente se rege por esta frase, não há nada contra, mas tal como tudo na vida tem de existir um consenso, “Nem tanto ao mar nem tanto à terra”, como diria a minha avó.

É tudo muito giro na adolescência até chegar a altura de começar a ter algumas responsabilidades, a inocência foi-se, é altura de começar a pensar a sério como será a vida dali para diante, acabaram-se os, “Mãe faz-me uma tosta” ou o “Pai leva-me lá ao centro comercial”, chega-se àquela fase transição em que as saídas á noite começam a ser substituídas pelos serões a fazer trabalhos para a faculdade, o “queria uma cerveja por favor” é substituído por “queria um café por favor”, também se nota esta mudança quando já não achas piada à típica frase do empregado, a famosa, “Ai queria? Já não quer?” e fazemos aquele sorriso forçado, é uma competência que se adquire e que penso que dará jeito no futuro, começamos também a ficar mestres na arte do “aquele é o filho da Manuela, a mulher do Rafael que trabalhou na Junta”, algo que nunca pensei que me fosse acontecer, adiante, o tirar a carta, que na minha opinião é a mais pura definição de liberdade, porque não só deixas de chatear os teus pais como já podes ter aquela desculpa para chegar tarde a casa, “perdi as chaves do carro mas depois encontrei-as” quando na verdade sempre as tiveste no bolso esquerdo das calças, são estas pequenas coisas que fazem com que o medo de ter mais responsabilidades seja recompensado com uma maior liberdade. Nem quero pensar na vida adulta, apesar de toda a liberdade que tem para oferecer, as artroses não são algo que anseio por ter, já tenho o exemplo dos meus pais que cada vez que se abaixam para apanhar algo do chão imitam um cantor de rock e não me parece muito desejável, mas é a lei da vida e tal como algumas coisas de que não gostamos temos de o aceitar, como por exemplo o tempo, que quando não queremos passa a correr e quando desejamos que passe rápido parece que está parado.


Sem comentários:

Enviar um comentário

Vemos e seguimos

A guerra cabe num ecrã de telemóvel, num vídeo de poucos segundos que vemos e esquecemos. Deslizamos para o lado e seguimos com o dia, como ...