sexta-feira, 26 de março de 2021

Dependências modernas

            Estava eu a fazer trabalhos no computador para a faculdade, quando a minha mãe entra no quarto e diz, “Antigamente era tudo mais complicado, tínhamos de fazer os trabalhos numa máquina de escrever e se nos enganássemos tínhamos de começar tudo de novo”. Esta afirmação levou-me a lembrar dos meus tempos de infância, de quando não haviam telemóveis para conseguirmos aceder às redes sociais, nos tempos livres, ficávamos na rua com os nossos amigos, até as nossas mães nos chamarem para jantarmos. Hoje em dia a maioria das crianças limitam-se a falar com os amigos através das redes sociais, claro que agora, numa altura de pandemia, é o mais certo a se fazer, mas até mesmo antes do vírus existir, as crianças já não conviviam muito com os colegas, e quando o podiam fazer, no caso dos intervalos da escola, a maioria delas limitavam-se a olhar para um ecrã e a ver o feed de notícias da sua rede social, ou até mesmo a jogar online. Na minha época de escola básica nem era permitido levar telemóveis para a escola, eram-nos tirados e entregues aos pais, com uma ameaça do género “Se o seu filho voltar a trazer um aparelho eletrónico para a escola, vai ser suspenso durante 2 dias”, pelo menos era assim que funcionava na minha escola.

Recordo-me de receber o meu primeiro telemóvel com ecrã tátil, estava no 7ºano, os meus pais foram me buscar à escola e disseram que tinham uma surpresa para mim, quando chegamos a casa ofereceram-me um telemóvel, senti-me muito feliz, jurava que estava no melhor dia da minha vida. Para vermos um filme em casa era preciso comprarmos um CD, muitas pessoas baixavam os filmes da internet, às vezes demorava dois ou três dias a baixar o filme para o computador. Tínhamos de ter um leitor de CD´S, normalmente chamado de DVD para podermos ver o filme. Não havia a facilidade de clicar no atalho da Netflix e simplesmente ver o que nos apetecesse. Eu tinha a coleção inteira dos episódios do Noddy e do Ruca em DVD´S, eram os meus desenhos animados favoritos, dava tudo naquela altura para que a minha mãe me comprasse mais um episódio da minha série infantil favorita.

Na minha família tínhamos apenas uma tia que possuía um computador com internet. Nas férias de verão implorávamos à nossa mãe para nos deixar ficar na casa dessa tia. Era fascinante ver os vídeos e ouvir as músicas que quiséssemos sem ter de pagar mais por isso. A minha tia avisava-nos sempre que, só podíamos utilizar o seu computador quando ela não tivesse trabalhos a fazer, pois era Jornalista e tinha quase sempre artigos para escrever.

Nos dias atuais, as pessoas não dão o devido valor aos computadores, aos telemóveis, aos tablets, etc. Toda a tecnologia passou a ser algo muito normal. Antes, tudo o que fosse tecnológico era fantástico, dávamos muito valor, o que não acontece hoje em dia. Já pararam para pensar que agora podemos conhecer pessoas de todo o mundo graças às redes sociais e ao avanço da tecnologia? É fascinante, conseguimos ver a cara de alguém mesmo estando a Km e Km de distância. Ao escrever esta crónica dei por mim a pensar em como tudo isto evoluiu tão rapidamente, passamos de uma época em que era raro ver um telemóvel que tivesse acesso à internet, para a atualidade em que é muito banal ter um relógio ou uma televisão inteligente. Chega a ser surpreendente como foi tão rápida toda esta evolução. Confesso, sinto falta da altura em que éramos felizes mesmo sem tecnologias para nos entretermos.

Às vezes pergunto-me, será que toda esta evolução vai acabar por ser mesmo benéfica para o ser humano? Será que não iremos ficar todos estagnados, como um gato que lhe são cortadas as garras e que fica impedido de caçar, dependentes do conforto e da praticidade que as máquinas e as tecnologias nos oferecem? Deixo-vos com estas questões.

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