sexta-feira, 26 de março de 2021

Tu

Não tens uns olhos azuis, como o mar.  
Tens um olhar translúcido e frio como cada onda do nosso oceano.  

Tens um olhar cheio, mas vazio ao mesmo tempo. Uns olhos cor de terra e uma alma cor de mar. 


   Se os meus olhos falassem, provavelmente, diriam que vivem no teu olhar. Naquela imensa escuridão que teimas em chamar de alma.  

   Nem todos nascemos com o dom de conseguir transmitir o que sentimos e talvez o facto de seres um ser tão diferente e isolado por vezes pareça que vives na tua sombra e não no teu reflexo. 

   No fundo quem te conhece sabe a pessoa maravilhosa que és e compreende porque te escondes tanto de um mundo repleto de crueldade e maldade.  

   Ao fim ao cabo, só te estás a proteger de um mundo onde a inveja, ódio e rancor falam mais alto que a humildade e o respeito. 

   Todos tentamos manter a sanidade neste mundo de loucos, mas todos temos a nossa fraqueza e eu creio que possa ser a tua.  

   Desde que nos conhecemos que sempre mantiveste o teu lado misterioso. Contavas-me tudo, mas ao mesmo tempo não me contavas nada, porque no fim, quando olho para trás vejo que não te conheço.  

   Tal como não conheço o mar.  

   Pode parecer todo uniforme, e cada onda é idêntica à anterior, mas no fundo nunca o conhecemos por inteiro. 

   Todos os dias uma espécie nova, um mistério novo e nasce uma nova história e uma nova lenda. 

   É tão bonita a forma como tu te assemelhas ao oceano. Como a tua frieza e amargura se conseguem transformar em beleza e singularidade.  

   E é incrível como mesmo sabendo que não te conheço e mesmo sabendo que me escondes os teus segredos continuo enrolada na onda do amor que sinto por ti.  

   E todas as noites pego no meu búzio e espero que me contes um pouco mais sobre ti. 

   E com um búzio na mão eu espero que regresses. 

   Talvez um dia acordes na tua caravela, e decidas voltar para casa.  

   E nesse dia, estarei no alpendre da nossa casa à beira mar, sentada na tua cadeira de baloiço, à tua espera.  

   No mesmo sítio onde me deixaste há uns meses.  

   No mesmo sítio onde hoje choro de saudades. 

   Saudades do afeto, saudades dos sorrisos, saudades de quando era feliz. Saudades tuas. 

   Hoje o dia está triste, e todo o oceano chora comigo, porque hoje, eu sei que não vais voltar. 

   Porque a cada dia que passa te sinto mais longe, e eu sei que, talvez um dia, acordes e penses que isto foi tudo um erro, e que na verdade o teu lugar é ao meu lado. 

   Embarcaste numa viagem que pode não ter regresso. Foste sem medo do amanhã e conseguiste virar costas a todos os momentos de felicidade que viveste comigo. 

   Foste embora, sem olhar para trás, sem pensar no que estavas a deixar em terra.  

   Foste para o mar procurar o que deixaste cá.  

   Seremos nós dois sortudos que puderam encontrar o amor das suas vidas? 

   Ou seremos dois ingratos que se deixaram escapar sabendo que pertenciam um ao outro? 

   Será que teremos a sorte de podermos reencontrar-nos? Um dia. Por acaso.  

   Ou seremos castigados por termos desperdiçado a nossa oportunidade, a nossa chance de sermos realmente felizes? 

   Éramos dois corpos perdidos e tu quiseste encontrar-te. Não estavas feliz na nossa cabana?  

   Saíste um dia sem pressa de voltar e mesmo sabendo que podes não regressar escrevo-te, como muitas mulheres escreveram aos seus homens em tempos de Guerra.  

   Escrevo-te com o coração nas mãos:


Volta, preciso de ti. 

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