Saio da cama. Toda a existência podia ser concentrada no meu
quarto; neste momento tudo o que não me assiste pode passar por pura e
materialmente acessório. A vida poderia ser reduzida a um paradigma, ao meu paradigma,
que em nada resultaria uma alteração substancial da experiência. Resumir tudo a
uma visão pode ser altamente redutor e roçar o pequeno. Mas em todo o caso, a
minha pequenez resignada não mudaria.
Ontem, hoje e amanhã sinto o peso pesado que é a vida. Cada
gota de suor que me cai, cada cigarro que eu fumo não passa de uma tentativa de
me acordar. Entorpecido nasci, cresci. Entorpecido morrerei.
Agora levanto me e coloco a mais falsa das máscaras.
Sinceramente reconheço, como todos os outros reconhecem, que sou um gajo
simpático e bem-disposto. Um gajo que prima pela sua capacidade de se conformar
com as vicissitudes mais aberrantes que me assombram. Fácil seria fazer o
exercício de ter uma pequena nuvem que me seguisse como uma auréola, todo o dia
e toda a noite, inundando-me de chuva e tristeza. Mas em nada seria o meu
comportamento diferente.
Primo não pelo ótimo, mas pelo conformismo. A vida passa
quer eu queira quer não, mas hoje sou o que sempre quis ser. Um passageiro no
comboio que é a vida. Destino incerto, indeterminável. Mas ao menos estou num
bom comboio penso para comigo.
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