quarta-feira, 23 de junho de 2021

Mais um dia...

 

Saio da cama. Toda a existência podia ser concentrada no meu quarto; neste momento tudo o que não me assiste pode passar por pura e materialmente acessório. A vida poderia ser reduzida a um paradigma, ao meu paradigma, que em nada resultaria uma alteração substancial da experiência. Resumir tudo a uma visão pode ser altamente redutor e roçar o pequeno. Mas em todo o caso, a minha pequenez resignada não mudaria.

Ontem, hoje e amanhã sinto o peso pesado que é a vida. Cada gota de suor que me cai, cada cigarro que eu fumo não passa de uma tentativa de me acordar. Entorpecido nasci, cresci. Entorpecido morrerei.

Agora levanto me e coloco a mais falsa das máscaras. Sinceramente reconheço, como todos os outros reconhecem, que sou um gajo simpático e bem-disposto. Um gajo que prima pela sua capacidade de se conformar com as vicissitudes mais aberrantes que me assombram. Fácil seria fazer o exercício de ter uma pequena nuvem que me seguisse como uma auréola, todo o dia e toda a noite, inundando-me de chuva e tristeza. Mas em nada seria o meu comportamento diferente.

Primo não pelo ótimo, mas pelo conformismo. A vida passa quer eu queira quer não, mas hoje sou o que sempre quis ser. Um passageiro no comboio que é a vida. Destino incerto, indeterminável. Mas ao menos estou num bom comboio penso para comigo.

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