O dia estava ensolarado, o calor da recente primavera encorpava o meu suor, os sons da rua eram bloqueados pelos meus fones (peço desculpa aos pássaros que estavam a cantar), tudo isso se misturava com a minha respiração, condensada pelo ar. Eu e a natureza parecíamos estar em completa harmonia. Os animais seguiam-me pelas ruas, os pássaros planavam acima da minha cabeça. Mas toda essa sensação foi interrompida, repentinamente.
Desde que eu nasci eu já carregava a maldição de assistir as
horas correrem entre os meus dedos, completamente omnipotente, mas esse dia eu
consegui segurar, inspirei e travei o ar nos meus pulmões e, ali estava, o
tempo preso na minha mão. E pus-me a pensar... o tempo ataca-nos como se
fossemos cegos sem saber de onde vêm os golpes. Um dia somos crianças e, no
outro, olhamos para a nossa própria criança. Um dia estamos a beijar a nossa
primeira boca, e no outro estamos a casar. Um dia odiamos os nossos pais, no
outro odiamos a nós mesmos. Um dia amamos, no outro morremos. Sim, o tempo
atravessa por nós, vira-nos do avesso sem que percebamos, e no fim deixa-nos a
perguntar "o que aconteceu?", "o que foi que eu fiz?".
Poucas pessoas além de mim estiveram presentes por tempo
suficiente para perceber a minha evolução. Poucas pessoas além de mim, e ainda
assim eu não sou capaz de dizer o quanto eu mudei, na verdade eu mal sou capaz
de perceber se eu realmente mudei.
E, com certo atrevimento, permito-me explicar porque eu
duvido se mudei tanto quanto os anos avançaram por mim. Desde muito nova eu já
apresentava comportamentos ansiosos. Às vezes, encontrava-me a balançar as
pernas incessantemente, eu comia, falava e movimentava-me rápido em demasia,
destruindo tudo ao meu redor. As vezes a minha família ria comigo, outras vezes
riam-se de mim, e às vezes nós brigávamos.
Entretanto nada disso me fazia sentir tão mal quanto os
momentos em que eu sentia essa dor. Essa mesma dor que eu senti hoje, acima da
barriga, abaixo do peito. Uma pressão que viaja entre o estômago e o os pulmões.
A vida nunca foi fácil. Os meus pais preferiam deixar-me com outros familiares,
pois eles sabiam que eu teria mais conforto, e sempre que isso acontecia, eu
voltava a sentir essa dor. Ela é a expressão de um sentimento que já não cabe
mais dentro do corpo, e o sinal máximo da deterioração da alma, do medo, da
preocupação.
Nessa altura eu ainda era muito pequena para conseguir
resumir todo esse sentimento em palavras, eu só esperava que passasse, que me
consumisse e depois me abandonasse. Entretanto, recentemente, esse sentimento
voltou a percorrer-me, o tempo segura-me com as suas garras invisíveis,
impede-me de avançar ou retroceder no relógio. Eu fiquei presa dentro de mim,
enquanto a vida se desenrolava lá fora, enquanto eu era carregada por um corpo
sem coração. Naquele dia senti, de novo, a mesma ansiedade, o mesmo sentimento a
nascer, a arrastar-se por cima de mim, a sufocar-me. Senti a dor em baixo do
peito e em cima da barriga, mas agora já sei descrever, ou pelo menos eu gosto
de pensar que sei.
O que me surpreendeu nisto tudo, é que eu já não me sentia
desta forma há muito tempo. Achei que eu fosse desprezada por essas garras,
pensei que a vida me tinha dado um tempo, mas no final a vida é que que me
mantinha naquele tempo, indo e voltando como o vento. Velha demais para voltar
àquela criança e salvá-la, criança demais para ir naquela velha e avisá-la.
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