sábado, 25 de março de 2023

Ansiedade

 O dia estava ensolarado, o calor da recente primavera encorpava o meu suor, os sons da rua eram bloqueados pelos meus fones (peço desculpa aos pássaros que estavam a cantar), tudo isso se misturava com a minha respiração, condensada pelo ar.  Eu e a natureza parecíamos estar em completa harmonia. Os animais seguiam-me pelas ruas, os pássaros planavam acima da minha cabeça. Mas toda essa sensação foi interrompida, repentinamente.

Desde que eu nasci eu já carregava a maldição de assistir as horas correrem entre os meus dedos, completamente omnipotente, mas esse dia eu consegui segurar, inspirei e travei o ar nos meus pulmões e, ali estava, o tempo preso na minha mão. E pus-me a pensar... o tempo ataca-nos como se fossemos cegos sem saber de onde vêm os golpes. Um dia somos crianças e, no outro, olhamos para a nossa própria criança. Um dia estamos a beijar a nossa primeira boca, e no outro estamos a casar. Um dia odiamos os nossos pais, no outro odiamos a nós mesmos. Um dia amamos, no outro morremos. Sim, o tempo atravessa por nós, vira-nos do avesso sem que percebamos, e no fim deixa-nos a perguntar "o que aconteceu?", "o que foi que eu fiz?".

Poucas pessoas além de mim estiveram presentes por tempo suficiente para perceber a minha evolução. Poucas pessoas além de mim, e ainda assim eu não sou capaz de dizer o quanto eu mudei, na verdade eu mal sou capaz de perceber se eu realmente mudei.

E, com certo atrevimento, permito-me explicar porque eu duvido se mudei tanto quanto os anos avançaram por mim. Desde muito nova eu já apresentava comportamentos ansiosos. Às vezes, encontrava-me a balançar as pernas incessantemente, eu comia, falava e movimentava-me rápido em demasia, destruindo tudo ao meu redor. As vezes a minha família ria comigo, outras vezes riam-se de mim, e às vezes nós brigávamos.

Entretanto nada disso me fazia sentir tão mal quanto os momentos em que eu sentia essa dor. Essa mesma dor que eu senti hoje, acima da barriga, abaixo do peito. Uma pressão que viaja entre o estômago e o os pulmões. A vida nunca foi fácil. Os meus pais preferiam deixar-me com outros familiares, pois eles sabiam que eu teria mais conforto, e sempre que isso acontecia, eu voltava a sentir essa dor. Ela é a expressão de um sentimento que já não cabe mais dentro do corpo, e o sinal máximo da deterioração da alma, do medo, da preocupação.

Nessa altura eu ainda era muito pequena para conseguir resumir todo esse sentimento em palavras, eu só esperava que passasse, que me consumisse e depois me abandonasse. Entretanto, recentemente, esse sentimento voltou a percorrer-me, o tempo segura-me com as suas garras invisíveis, impede-me de avançar ou retroceder no relógio. Eu fiquei presa dentro de mim, enquanto a vida se desenrolava lá fora, enquanto eu era carregada por um corpo sem coração. Naquele dia senti, de novo, a mesma ansiedade, o mesmo sentimento a nascer, a arrastar-se por cima de mim, a sufocar-me. Senti a dor em baixo do peito e em cima da barriga, mas agora já sei descrever, ou pelo menos eu gosto de pensar que sei.

O que me surpreendeu nisto tudo, é que eu já não me sentia desta forma há muito tempo. Achei que eu fosse desprezada por essas garras, pensei que a vida me tinha dado um tempo, mas no final a vida é que que me mantinha naquele tempo, indo e voltando como o vento. Velha demais para voltar àquela criança e salvá-la, criança demais para ir naquela velha e avisá-la.

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