Cá estou eu novamente. Sentado num banco da estação, enquanto espero impacientemente pela chegada do comboio. Rezando para que não haja nenhuma greve ou que este não chegue atrasado. Observo a linha férrea, oxidada pela passagem dos anos e escuto alguma música para ficar a remoer sobre as minhas noias. As minhas preces não foram ouvidas, o comboio acaba por chegar, atrasado como sempre. Subo para o cimo deste e a música continua a fazer-me companhia durante as próximas horas, assim como o sol, que me faz dormitar por alguns momentos da viagem.
As sextas-feiras são sempre dias traiçoeiros. Por um lado,
despertam uma ânsia de regressar a casa. Por outro, despertam o meu
temperamento melancólico, da forma mais intensa possível. Basta observar a
paisagem solitária da janela do comboio, o revisor não ser o tipo mais
simpático do mundo, sentir fome e ter frio, ignorar e ser ignorado por outrem,
para que a tristeza venha e me assole por completo. Para que ela torne o meu
rosto sério e as minhas expressões inexistentes.
O comboio chega ao seu destino final. Saio do interior
deste, troco de linha e a minha espera continua. A este ponto da viagem, já só
sinto uma grande náusea e angústia presentes no meu peito. Já só quero
recolher-me em mim mesmo e esconder-me da multidão e dos seus olhares. Passada
meia-hora, chega outro comboio e preparo-me para embarcar nele. A música já não
produz o mesmo efeito nos meus ouvidos e começo a fartar-me desta. Mas
subitamente, aquela tristeza que trago dentro de mim, dá lugar a uma ansiedade,
ao estar cada vez mais próximo do meu destino final.
Ao fundo, no horizonte, vou vendo a silhueta daquela cidade
a tornar-se nítida, à medida que o comboio chia e buzina. Subitamente, este
começa a abrandar até que fica imóvel diante de uma outra estação, rodeada por
casario velho e lá bem no topo, pelas muralhas de um castelo. Caminho pela
plataforma com o saco preto em uma das mãos. Observo os outros que também
trazem sacos ou malas nas suas mãos. Parecem alegres e felizes, imersos nas
suas próprias vidas e alheios a todos os problemas que me afligem.
Entretanto, a minha espera ainda não terminou. Fico de pé na
estação, com as mãos nos bolsos e andando de um lado para o outro, esperando
mais uma hora pela minha boleia. Os jovens alegres e felizes vão e veem, os
carros e os comboios passam, enquanto a minha vida continua em suspenso. De vez
em quando, encontro algum conhecido e jogo fora algumas frases banais e minto,
dizendo que acabei mesmo agora de chegar.
A ansiedade volta a ceder o lugar à tristeza. A tarde passou
por mim, sem que eu me tivesse apercebido da sua presença. A minha boleia acaba
finalmente por chegar. Coloco os meus pertences na bagageira e abandono aquele
lugar. Para a semana, o ritual acontecerá novamente.
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