quarta-feira, 22 de março de 2023

Linha Férrea

Cá estou eu novamente. Sentado num banco da estação, enquanto espero impacientemente pela chegada do comboio. Rezando para que não haja nenhuma greve ou que este não chegue atrasado. Observo a linha férrea, oxidada pela passagem dos anos e escuto alguma música para ficar a remoer sobre as minhas noias. As minhas preces não foram ouvidas, o comboio acaba por chegar, atrasado como sempre. Subo para o cimo deste e a música continua a fazer-me companhia durante as próximas horas, assim como o sol, que me faz dormitar por alguns momentos da viagem.

As sextas-feiras são sempre dias traiçoeiros. Por um lado, despertam uma ânsia de regressar a casa. Por outro, despertam o meu temperamento melancólico, da forma mais intensa possível. Basta observar a paisagem solitária da janela do comboio, o revisor não ser o tipo mais simpático do mundo, sentir fome e ter frio, ignorar e ser ignorado por outrem, para que a tristeza venha e me assole por completo. Para que ela torne o meu rosto sério e as minhas expressões inexistentes.

O comboio chega ao seu destino final. Saio do interior deste, troco de linha e a minha espera continua. A este ponto da viagem, já só sinto uma grande náusea e angústia presentes no meu peito. Já só quero recolher-me em mim mesmo e esconder-me da multidão e dos seus olhares. Passada meia-hora, chega outro comboio e preparo-me para embarcar nele. A música já não produz o mesmo efeito nos meus ouvidos e começo a fartar-me desta. Mas subitamente, aquela tristeza que trago dentro de mim, dá lugar a uma ansiedade, ao estar cada vez mais próximo do meu destino final.

Ao fundo, no horizonte, vou vendo a silhueta daquela cidade a tornar-se nítida, à medida que o comboio chia e buzina. Subitamente, este começa a abrandar até que fica imóvel diante de uma outra estação, rodeada por casario velho e lá bem no topo, pelas muralhas de um castelo. Caminho pela plataforma com o saco preto em uma das mãos. Observo os outros que também trazem sacos ou malas nas suas mãos. Parecem alegres e felizes, imersos nas suas próprias vidas e alheios a todos os problemas que me afligem.

Entretanto, a minha espera ainda não terminou. Fico de pé na estação, com as mãos nos bolsos e andando de um lado para o outro, esperando mais uma hora pela minha boleia. Os jovens alegres e felizes vão e veem, os carros e os comboios passam, enquanto a minha vida continua em suspenso. De vez em quando, encontro algum conhecido e jogo fora algumas frases banais e minto, dizendo que acabei mesmo agora de chegar.

A ansiedade volta a ceder o lugar à tristeza. A tarde passou por mim, sem que eu me tivesse apercebido da sua presença. A minha boleia acaba finalmente por chegar. Coloco os meus pertences na bagageira e abandono aquele lugar. Para a semana, o ritual acontecerá novamente.

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