Há uns anos observei um combate, me detive invisível como uma partícula posicionada, não entre os lutadores, mas transitando dentro de cada um deles. Nesse momento, eu foquei inteiramente em perceber o que ambos os oponentes sentiam. Me desconectei do meu “eu” humano, me abstive, afastei-me inclusive, da minha parte que deveria estar verdadeiramente presente na situação, argumentando, me defendendo, sobrevivendo. Eu me pego pensando sobre o porquê de nos caçarmos uns aos outros. Porque nós, seres humanos, não conseguimos evitar o caos, não conseguimos contornar nossos instintos mais primitivos.
Eu permiti que
meu corpo e minha reputação ficassem vulneráveis naquela situação, não havia
nada mais para defender. Então, defendo o meu texto que emergiu a partir de um
conflito amargo. A minha ideia de ira se torna o meu arguido, o qual vou proteger,
porque talvez o meu único argumento realmente seja a escrita.
Eu já estive
lá, com as bochechas ardendo com o calor sorrateiro, indicando a chegada de uma
avalanche de pensamentos. Eu já estive lá, com o coração acelerado, crepitando
contra o peito. Eu já estive exatamente naquela posição, os olhos lacrimejando,
a fúria evidente em um olhar impetuoso, derramando toda a lava e as lágrimas de
uma alma em erupção. Um argumento voa de um lado, uma ofensa é arremessada pelo
outro - e eu ainda parada, tomando notas mentais, passiva e pronta para ser
atingida. Um grito cruza a pequena sala “Porque você não me ouve?”, diz ela, “Porque
você não me deixa falar?” ele replica. A angústia, o desespero e a cólera são tão
visíveis que deixo de me importar sobre quem, a princípio, estava errado ou
quem estava certo. Agora são só dois animais se debatendo e se arranhando pela
casa – desculpe a minha falha jornalística, mas não se sabe a razão da
confusão, mal havia começado o bate-boca e só já se ouviam gritos
indistinguíveis.
Continuo
estática, assumindo, por hora, um papel de mera espectadora, absorta em uma
multiplicidade de teorias dos motivos que nos levaram até ali, até aquele
quadro trágico, mas satiricamente cómico que se formava em minha frente.
Podia-se perceber, em uma análise superficial, as palavras sendo expelidas, objetos
sendo arremessados, a movimentação inconstante pela casa e movimentos como
agarrar os próprios cabelos, cruzar os braços, balançar as pernas
incessantemente. Isso via-se, isso vê-se nas brigas, mas eu vi detalhes
aparentemente escondidos quando me aprofundei. Eu vi as veias a pulsarem no
pescoço, ouvi o som dos corações, senti cada suspiro de conformação e raiva.
Senti também o desprezo, mas principalmente, o medo.
Havia naqueles
olhares de fúria, alojado no canto dos olhos, perto dos canais lacrimais, um
vírus irradiando, o medo vociferando através das bocas que discutiam. Eles
estavam errados, sim, os dois, mas também estavam certos de formas particulares.
E é isso o que me fez pensar, é isso que me grudou em uma cadeira a escrever,
depois que tudo terminou.
Pus-me a pensar
sobre como aquilo começou, então vamos lá tentar entender. Me dou ao direito de
abusar na audácia, e dizer que acho que aquela discussão (e quase todas as
outras que são vistas no quotidiano) não se iniciaram ali. Eu acho que os
motivos são carregados como uma avalanche que sucumbe no final da queda, ou
como um copo que transborda por causa de uma gota. Por exemplo, imagine uma
situação que se desenvolve assim: Um motoqueiro está passando entre as faixas
dos carros em um horário de transito em uma grande cidade, e então um carro
decide mudar de faixa sem dar seta, a moto bate no carro, eles saem dos seus
veículos e começam a discutir para decidir quem há de pagar os danos, em uma análise
racional irritamo-nos logo com ambos, pois o motoqueiro não deveria estar entre
as faixas, e o motorista deveria ter dado seta, mas se formos analisar a vida
pessoal dos envolvidos sob uma lente humana e empática, o pai falava por
ligação com a filha que precisava de dinheiro pra faculdade, só que ele havia
acabado de descobrir que perdera o emprego. O motoqueiro estava correndo para
fazer sua entrega, tentando manter seu emprego. Percebem? Quem nós podemos
culpar, não nos olhos da lei, mas nos olhos da ética, da delicadeza, da
humanidade. Esse texto não é uma deixa para nós começarmos a desrespeitar as
leis e as instituições, mas sim um convite a respirarmos sempre antes de falar,
e principalmente, apelarmos a empatia.
Eu aconselharia todos a pedirem um tempo para pensar em momentos de grande tensão. Por mais que a adrenalina que vem com os argumentos seja viciante (e eu reconheço), ela devora as nossas relações e as vezes até o nosso próprio corpo por dentro. Aproveito também para defender aqui a escrita: quando expressamos o que sentimos pela escrita, temos tempo de refletir e decidir se realmente queremos enviar aquilo que está escrito. Podemos rasgar o papel, apagar as palavras, mas nunca podemos voltar atrás no que foi dito. O calor da emoção leva-nos a sermos capazes de perversidades, homens com alma de ovelhas tornam-se lobos quando se rendem à ira, portanto, o melhor é evitar que momentos como esse se repitam ao longo da nossa vida.
Bianca Semedo, 2023
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