sexta-feira, 31 de março de 2023

Dos Açores aos braços de Portalegre

São cerca das 11 da noite, o telemóvel vibra – “Bem-vindo ao Instituto Politécnico de Portalegre” – num misto de emoções, sem saber bem o que sentir, só conseguia pensar na aventura que seria ir de uma pequena ilha dos Açores, com apenas quinze mil habitantes, para uma cidade alentejana. Uma viagem de quase mais de 2000km, para ser feita em escassos dias. 

Embarquei, junto com o meu pai, num Airbus “A320” de apropriado nome, “Dream” e, escassos minutos depois, descolámos rumo à caótica cidade de Lisboa, onde mais caótica ainda, foi a nossa primeira noite na capital portuguesa. Depois de quase termos dormido na rua, graças às burocracias dos sites de reserva, conseguimos encontrar o nosso caminho para novo alojamento. Não sem que antes apanhássemos três “Uber” diferentes para o hotel errado e ficássemos parados na berma de uma estrada duvidosa, com sete volumes de bagagem e apenas quatro braços no total. 

No dia seguinte, iniciámos mais uma viagem, chegar a Portalegre, o que se revelou um desafio bem maior do que esperávamos e já que se costuma dizer “o que custa é começar”, fomos desde logo, negados por vários taxistas e vários “Uber”, devido à quantidade exorbitante de bagagem que possuíamos. Apenas uma hora depois, pelas onze da manhã, finalmente rumámos em direção à estação de Santa Apolónia. A primeira coisa que fizemos, naturalmente, foi procurar um carrinho para a nossa bagagem, contudo vimos o nosso avanço, mais uma vez cair em retrocesso, uma vez que fomos prontamente notificados pelo nosso taxista de que o que procurávamos se tratava de uma miragem longínqua e distante. Encarnando dois burros de carga, vamos entrando pela estação à procura de nos pôr a caminho do Alentejo, porém, para nosso azar, o único comboio com paragem mais próxima do nosso destino já havia partido. Sem saber o que fazer, ponderámos ir de táxi, mas após saber que o preço final rondaria as duas centenas, decidimos nos dirigir à estação rodoviária de sete rios que, após uma breve pesquisa na internet, se mostrava capaz de nos encaminhar até Portalegre. 

Espreitando pelo translúcido vidro retangular do autocarro, após atravessar a Ponte da Lezíria e a zona do estuário do rio Tejo, almejei uma mudança paisagística radical. Os aglomerados arbóreos, deram lugar a intermináveis terrenos, cuja única defesa contra a sua desertificação, são os sobreiros nus que ramificam as suas entranhas. O conceito açoriano de pasto que trazia comigo, rapidamente foi substituído por um sentimento de admiração pelos animais que batalham as inóspitas condições do interior português, auxiliados pelo fiel e trabalhador “Homem alentejano”. Chegados, após quase dia e meio de viagem, rapidamente simpatizámos com os afáveis portalegrenses que nos receberam sempre de sorriso na cara, com palavras amigas e de conforto para nós, meros viajantes. Tão longe, era como se estivéssemos de novo em casa e por isso, tornei minha missão percorrer as ruas e ruelas desta histórica cidade e conhecer o rosto por de trás das muralhas. 

A calçada, já fatigada por culpa do tempo, jaz sem consolação. Os pequenos retângulos rochosos que a compõem, levantam-se como que em protesto pelo seu património, pelas bonitas fachadas típicas que se vêm, hoje, a desmoronar, sem que seja feita mais nenhuma ação para além da gravítica. O certo, é que ouvi este protesto e segui à procura de respostas sobre o porquê desta desertificação, sobre o porquê da história, tão importante para esta cidade, estar abandonada e à mercê. 

A resposta apareceu rapidamente. Após conversar com alguns portalegrenses, por cá nascidos e criados, escutei os seus desabafos. E falam eles nos tempos de glória, onde existiam fábricas para trabalhar, onde era possível ganhar sustento da terra que os viu nascer. Porém, com a saída das fábricas de Portalegre, os postos de trabalho foram com elas e, consequentemente, as pessoas, deixando para trás o seu património, até o seu coração. 

É por isso que me ergo também, proclamando um melhor futuro para esta grande cidade, que hoje, encurtece e entristece. Não merecem, amigos portalegrenses, que seja uma viagem de mais de um dia para chegar até aos vossos afáveis braços; Não merecem, ser descriminados por uma linha férrea que une Portugal, mas deixa os vossos visitantes a dezasseis quilómetros de vós; Não merecem, andar pela vossa cidade histórica, sem que não se importem pelo vosso património; Merecem, sim, melhores condições de acessibilidade, para que se possam fixar cá empresas e postos de trabalho; Merecem andar por uma cidade que vos relembre o passado, sem que tenham medo do futuro! Merecem, também, que lutem por vós e é assim, desta forma, que milito pelo que merecem e vos agradeço por serem portalegrenses. Bem-haja! 

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