segunda-feira, 20 de março de 2023

Viver com o contrabando

O contrabando foi algo que fez parte da vida de muita gente inclusive da vida do meu avô. É muito bom ter alguém que nos conte essas histórias e que nos faça refletir sobre como seria a vida dessas pessoas que praticavam contrabando para se sustentarem, já pensaram nisso?

Sempre que oiço as histórias do meu avô acerca do contrabando há sempre uma que me salta logo à memória, a altura em que ele foi preso pelas autoridades fiscais sendo apenas um rapaz de 14 anos que foi preso quatro vezes. Na altura eram três irmãos e, o meu avô, já com nove anos começou a percorrer, sozinho, os vários trilhos e caminhos longos entre Portugal e Espanha. Ultrapassava a fronteira para conseguir algum sustento para tod
os em casa.

Segundo ele eram tempos muito duros, pois na altura a sua mãe cozinhava duas sardinhas que tinham de dar para os seis lá em casa, uma delas era dividida ao meio para os seus pais e a outra sardinha era dividida em três para o meu avô e os seus irmãos. Alguém consegue imaginar como era sobreviver apenas com aquilo que havia e que muitas vezes poderia faltar? Acho que não. Porém, o mais interessante é que tudo o que fosse preciso contrabandear eles estavam dispostos a transportar, sendo o seu item de transporte uma saca atada com corda, que servia de mochila e com solas de sapatos velhos protegia os ombros para as poderem carregar. Era recorrente transportarem café, batatas, passas de uva, sutiãs, latas de mel e até pirex, tudo o que pudessem. Todos os dias eram dias diferentes, pois tinham de encontrar estratégias para que não fossem apanhados pelas autoridades que se encontravam em alguns caminhos pelos quais eles percorriam, embora eles soubessem os horários e os sítios onde as autoridades se encontravam, por vezes poderia ser difícil escaparem.

A última vez que o meu avô foi preso e depois foi ao “julgado” espanhol, as autoridades já o conheciam ganhando assim uma alcunha o “capitão pé descalço”. Esta alcunha surgiu, pois ele só teve os seus primeiros sapatos aos sete anos. Perante este acontecimento parou de praticar contrabando dedicando-se assim aos trabalhos no campo.

Eu acho que estas histórias são fascinantes! Atualmente, muitas das vezes, não damos importância a pequenas coisas que já damos por adquiridas e que, naquela altura, nem sabiam se iria sequer ter algo para comer no dia seguinte. É importante revivermos estas memórias e tentar perceber o quão difícil era a vida entre as décadas de 30 e 60.



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