Esta crónica é um guia prático e amador, feito para os amantes do amor, que contém os locais mais inóspitos e quotidianos onde se pode encontrar o amor. Guia este, feito para qualquer um que se identifique e se assemelhe às seguintes características: já se emocionou vendo um filme; já sentiu saudades da infância; já quis um abraço dos pais, mas não conseguiu dizer; já procurou algum sentimento em noites vazias, mas preenchidas por sons e flashes de cores e acontecimentos; se calou em uma discussão pois não sabia reagir à dor de ser magoado; já sentiu o cheiro da pessoa amada no ar; ouviu músicas tristes de madrugada; fez um presente para alguém que você não sabia se te amava; fechou os olhos para sentir o pôr-do-sol a acariciar e aquecer a pele; se abaixou para brincar com um cão na rua; perdoou alguém que te magoou; fez um bolo para a família em um domingo aconchegante; ajudou alguém com uma matéria na escola; lembrou-se da cidade natal em algum acontecimento, como o cheiro do pão doce que alguma padaria emanou.
Se você se encaixa nestes exemplos, ou já tenha sentido o
amor nas situações mais subtis, mais ínfimas, mais passageiras e infinitas,
esse texto é para você. Mas esse guia é feito, especialmente, para os que não
são capazes de encontrar o amor na sua rotina, para aqueles que estão tão
submersos nos problemas, que estão tão preocupados em sobreviver que deixam de
ver, que atravessam os dias e não se lembram dos mesmos. Essa é uma forma de
tentar ajudá-los a encontrar os rostos da própria família na memória, o clima e
a umidade das cidades e das estradas, os gostos e o cheiro da nuca da pessoa
amada. Essa é uma forma de despertar a sensibilidade para as coisas mais simples
e bonitas; as que dia após dia, dão significado à vida; as que dia após dia nos
dão a motivação para seguir em frente, mesmo quando não nos apercebemos.
A lista a
seguir não é feita por ordem de importância, sendo aleatoriamente posicionada,
visando unicamente formar rimas com as situações descritas, para que o leitor
não enjoe desse texto ligeiramente piroso.
O amor está…
1.
No olhar do cachorro que acabou de ser adotado e
resgatado de um abandono. Na gratidão nos olhos do dono que, sem se aperceber,
foi salvo por este cão;
2.
Na mãe acordada, que espera os filhos retornarem
a casa;
3.
Na avó que cria os netos quando os pais não o podem
fazer;
4.
Na pipoca quentinha que uma amiga prepara para
agradar a outra que acabou de brigar com o namorado;
5.
Na motorista do autocarro que dá boleia ao
estudante que se esqueceu do passe;
6.
No casal de namoradas que se ajudam mutuamente,
sem precisarem de se referir ao que fazem uma pela outra;
7.
Ao casal que se perdoa, e aos parceiros que
realmente procuram melhorar depois de pedirem desculpas;
8.
Nos amigos, familiares e namorados que discutem
as situações que os incomodam;
9.
Na música que um amigo, que você já nem fala, te
dedicou quatro anos atrás;
10.
No ronronar do seu gato;
11.
Na preocupação da esposa com a queda de cabelo
do marido;
12.
Na compreensão, da sua namorada ou namorado, com
a sua rabugice matinal;
13.
Na forma como algumas pessoas conseguem te
acalmar no meio das suas crises, mesmo quando você constrói muros ao seu redor;
14.
Na professora que acredita e fomenta o potencial
do seu aluno, talvez ela até te tenha dito “você tem potencial”;
15.
Nas lágrimas de alegria em um casamento;
16.
Nas pessoas que choram imaginando a morte do seu
animal de estimação que está vivo e saudável no seu colo;
17.
Na música calma e emocional que nós dançámos na
casa dela, em um fim de verão;
18.
O amor está na mudança, no perdão, na escuta, no
respirar antes de falar, para não ofender quem amamos;
19.
Nos lápis de cor que seus pais compraram para
você com o pouco de dinheiro que eles tinham;
20.
Nos abraços que o pai dá ao filho sempre que a
equipa favorita marca um golo, sendo esse o único momento de afeto entre eles;
21.
Na mesa de bar rodeada por amigos que mesmo com
pouco dinheiro marcam presença;
22.
Nos poucos amigos que entendem seus silêncios,
seus sumiços e seus descompromissos;
23.
Nos abraços que terminam em uma sesta de cinco
horas;
24.
Na confiança para despir, não apenas a roupa,
mas toda a pele, abrindo-se para alguém até o mais profundo da alma, e dos
pulmões, dividindo o mesmo ar e os mesmos suspiros;
25.
Nas viagens durante a noite;
26.
Na praia e nos olhos castanhos;
27.
No churrasco numa calçada;
28.
No filme de baixa qualidade num CD riscado;
29.
Nas pessoas que fazem questão de conhecer seus
gostos, sua rotina e seus prazos;
30.
No corpo que se encaixa no seu, sem esforço, que
noite após noite aquece o sono, e previne os pesadelos;
31.
Na maldição de Tam Lin e em Scarborough Fair;
32.
Em acordar e ouvir um “eu te amo” em lábios
secos e de bafo quente;
33.
Nas mães, nos filhos e nos amantes, nos
familiares e nos amigos, nos cães, gatos e outros animais, no dia, na noite, e
em toda a natureza. Adaptando-se dia a dia, crescendo como Heras discretas, que
invadem e preenchem o nosso coração.
E um “etc.;” marcado por infinitas reticências pois, essa
lista se estende até ao fim dos tempos, já que as formas de demonstrar amor
sempre vão se renovar, retornar e permear. Atravessando os tempos, as gerações
e as tragédias, é o amor que prevalece e encandeia os olhos com esperança no
nascer do sol.
Sem comentários:
Enviar um comentário