terça-feira, 18 de abril de 2023

Alguns lugares onde podemos encontrar amor

 Esta crónica é um guia prático e amador, feito para os amantes do amor, que contém os locais mais inóspitos e quotidianos onde se pode encontrar o amor. Guia este, feito para qualquer um que se identifique e se assemelhe às seguintes características: já se emocionou vendo um filme; já sentiu saudades da infância; já quis um abraço dos pais, mas não conseguiu dizer; já procurou algum sentimento em noites vazias, mas preenchidas por sons e flashes de cores e acontecimentos; se calou em uma discussão pois não sabia reagir à dor de ser magoado; já sentiu o cheiro da pessoa amada no ar; ouviu músicas tristes de madrugada; fez um presente para alguém que você não sabia se te amava; fechou os olhos para sentir o pôr-do-sol a acariciar e aquecer a pele; se abaixou para brincar com um cão na rua; perdoou alguém que te magoou; fez um bolo para a família em um domingo aconchegante; ajudou alguém com uma matéria na escola; lembrou-se da cidade natal em algum acontecimento, como o cheiro do pão doce que alguma padaria emanou.

Se você se encaixa nestes exemplos, ou já tenha sentido o amor nas situações mais subtis, mais ínfimas, mais passageiras e infinitas, esse texto é para você. Mas esse guia é feito, especialmente, para os que não são capazes de encontrar o amor na sua rotina, para aqueles que estão tão submersos nos problemas, que estão tão preocupados em sobreviver que deixam de ver, que atravessam os dias e não se lembram dos mesmos. Essa é uma forma de tentar ajudá-los a encontrar os rostos da própria família na memória, o clima e a umidade das cidades e das estradas, os gostos e o cheiro da nuca da pessoa amada. Essa é uma forma de despertar a sensibilidade para as coisas mais simples e bonitas; as que dia após dia, dão significado à vida; as que dia após dia nos dão a motivação para seguir em frente, mesmo quando não nos apercebemos.

A lista a seguir não é feita por ordem de importância, sendo aleatoriamente posicionada, visando unicamente formar rimas com as situações descritas, para que o leitor não enjoe desse texto ligeiramente piroso.

O amor está…

1.       No olhar do cachorro que acabou de ser adotado e resgatado de um abandono. Na gratidão nos olhos do dono que, sem se aperceber, foi salvo por este cão;

2.       Na mãe acordada, que espera os filhos retornarem a casa;

3.       Na avó que cria os netos quando os pais não o podem fazer;

4.       Na pipoca quentinha que uma amiga prepara para agradar a outra que acabou de brigar com o namorado;

5.       Na motorista do autocarro que dá boleia ao estudante que se esqueceu do passe;

6.       No casal de namoradas que se ajudam mutuamente, sem precisarem de se referir ao que fazem uma pela outra;

7.       Ao casal que se perdoa, e aos parceiros que realmente procuram melhorar depois de pedirem desculpas;

8.       Nos amigos, familiares e namorados que discutem as situações que os incomodam;

9.       Na música que um amigo, que você já nem fala, te dedicou quatro anos atrás;

10.   No ronronar do seu gato;

11.   Na preocupação da esposa com a queda de cabelo do marido;

12.   Na compreensão, da sua namorada ou namorado, com a sua rabugice matinal;

13.   Na forma como algumas pessoas conseguem te acalmar no meio das suas crises, mesmo quando você constrói muros ao seu redor;

14.   Na professora que acredita e fomenta o potencial do seu aluno, talvez ela até te tenha dito “você tem potencial”;

15.   Nas lágrimas de alegria em um casamento;

16.   Nas pessoas que choram imaginando a morte do seu animal de estimação que está vivo e saudável no seu colo;

17.   Na música calma e emocional que nós dançámos na casa dela, em um fim de verão;

18.   O amor está na mudança, no perdão, na escuta, no respirar antes de falar, para não ofender quem amamos;

19.   Nos lápis de cor que seus pais compraram para você com o pouco de dinheiro que eles tinham;

20.   Nos abraços que o pai dá ao filho sempre que a equipa favorita marca um golo, sendo esse o único momento de afeto entre eles;

21.   Na mesa de bar rodeada por amigos que mesmo com pouco dinheiro marcam presença;

22.   Nos poucos amigos que entendem seus silêncios, seus sumiços e seus descompromissos;

23.   Nos abraços que terminam em uma sesta de cinco horas;

24.   Na confiança para despir, não apenas a roupa, mas toda a pele, abrindo-se para alguém até o mais profundo da alma, e dos pulmões, dividindo o mesmo ar e os mesmos suspiros;

25.   Nas viagens durante a noite;

26.   Na praia e nos olhos castanhos;

27.   No churrasco numa calçada;

28.   No filme de baixa qualidade num CD riscado;

29.   Nas pessoas que fazem questão de conhecer seus gostos, sua rotina e seus prazos;

30.   No corpo que se encaixa no seu, sem esforço, que noite após noite aquece o sono, e previne os pesadelos;

31.   Na maldição de Tam Lin e em Scarborough Fair;

32.   Em acordar e ouvir um “eu te amo” em lábios secos e de bafo quente;

33.   Nas mães, nos filhos e nos amantes, nos familiares e nos amigos, nos cães, gatos e outros animais, no dia, na noite, e em toda a natureza. Adaptando-se dia a dia, crescendo como Heras discretas, que invadem e preenchem o nosso coração.

 

E um “etc.;” marcado por infinitas reticências pois, essa lista se estende até ao fim dos tempos, já que as formas de demonstrar amor sempre vão se renovar, retornar e permear. Atravessando os tempos, as gerações e as tragédias, é o amor que prevalece e encandeia os olhos com esperança no nascer do sol. 

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