terça-feira, 18 de abril de 2023

Felicidade infeliz

Para a maioria, a palavra “felicidade" associa-se a momentos da vida, como o nascimento de um filho, ou na vitória do Benfica. É, por isso, definida como um estado de espírito idealmente positivo, consequente de eventos circunstancialmente bons. Mas será que este vocábulo merece esta definição ou poderá haver outra?

A verdade é que vejo a “felicidade” como um nome traiçoeiro e hipócrita. Para os muitos que estão neste momento a coçar o couro cabeludo e, talvez, a reler a minha afirmação anterior, fiquem sabendo que me baseio em factos para enunciar a minha tese. Onde há felicidade, houve, outrora, infelicidade. O feliz momento do nascimento de um filho nosso, é antecedido pelo sofrimento da nossa amada, que recorre a todas as suas forças físicas e mentais, para ultrapassar toda a dor que o parto lhe implica. Enquanto isso, como excelentes maridos e companheiros, os homens ficam do lado das suas companheiras a promover a calma… A sua calma, de forma a evitar um possível desmaio na maternidade, visto que isso seria embaraçoso. Depois da vitória do nosso clube favorito, é prioritário uma visita celebrativa ao bar da esquina, mas durante 90 e muitos minutos, os jogadores que vestem as cores da nossa equipa correram, sofreram, sangraram e suaram, para que fossemos para o bar tomar uns copos com os nossos amigos, em vez de irmos para casa fumar uma maço de cigarros de desconsolo.

Os céticos irão dizer que se trata de uma questão de perspetiva, como a derradeira metáfora do “copo meio cheio ou meio vazio”. Porém, o que aqui trago trata-se de pura objetividade. Viver implica sofrer, implica um monte de infelicidades que dão lugar à felicidade da vida, em todo o seu esplendor e beleza. Só aprendemos a ser verdadeiramente felizes, se passarmos por momentos desagradáveis e difíceis e aqui, sim, entra a perspetiva, pois podemos viver agarrados ao desconforto desses momentos menos bons, ou utilizá-los como motor de busca da nossa felicidade. Isso, sim, é verdadeiramente difícil.

Em Portugal, cerca de 10 em cada 100 mil portugueses colocam um fim a essa busca, mas não à dor e à infelicidade, pois é tumultuoso esse caminho para a felicidade. Implica nos expormos ao mundo dos mortais, que nos julga e faz de tudo para nos derrubar. A busca da luz ao fundo do túnel, não pode ser feita sem ajuda, por mais que a desejarmos afastar. É um tamanho exercício de mudar mentalidades e todos sabemos o quão difícil é mudar uma mentalidade.

Em suma, ser feliz é, por isso, o que nós quisermos, o que nós sonharmos e idealizarmos na nossa mente. Não existe uma maneira certa de ser feliz, apenas uma vontade e um desejo que reside nas entranhas do nosso pensamento, daí a dificuldade de “remar contra a maré da infelicidade”. Mas, como os eternos navegadores que somos, adaptados à Caravela Portuguesa, esculpidos pelas ondas dos quatro mares, o truque é deixarmo-nos guiar pelo sabor da corrente e cheirar todos os salpicos de água salgada que se aproximam de nós, pois a conquista está à vista, por mais difícil que seja reconquistar a nossa felicidade.

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