Para a maioria, a palavra
“felicidade" associa-se a momentos da vida, como o nascimento de um filho, ou na
vitória do Benfica. É, por isso, definida como um estado de espírito idealmente
positivo, consequente de eventos circunstancialmente bons. Mas será que este
vocábulo merece esta definição ou poderá haver outra?
A verdade é que vejo a
“felicidade” como um nome traiçoeiro e hipócrita. Para os muitos que estão
neste momento a coçar o couro cabeludo e, talvez, a reler a minha afirmação
anterior, fiquem sabendo que me baseio em factos para enunciar a minha tese.
Onde há felicidade, houve, outrora, infelicidade. O feliz momento do nascimento
de um filho nosso, é antecedido pelo sofrimento da nossa amada, que recorre a
todas as suas forças físicas e mentais, para ultrapassar toda a dor que o parto
lhe implica. Enquanto isso, como excelentes maridos e companheiros, os homens
ficam do lado das suas companheiras a promover a calma… A sua calma, de forma a
evitar um possível desmaio na maternidade, visto que isso seria embaraçoso. Depois
da vitória do nosso clube favorito, é prioritário uma visita celebrativa ao bar
da esquina, mas durante 90 e muitos minutos, os jogadores que vestem as cores da
nossa equipa correram, sofreram, sangraram e suaram, para que fossemos para o
bar tomar uns copos com os nossos amigos, em vez de irmos para casa fumar uma
maço de cigarros de desconsolo.
Os céticos irão dizer que se
trata de uma questão de perspetiva, como a derradeira metáfora do “copo meio
cheio ou meio vazio”. Porém, o que aqui trago trata-se de pura objetividade.
Viver implica sofrer, implica um monte de infelicidades que dão lugar à
felicidade da vida, em todo o seu esplendor e beleza. Só aprendemos a ser
verdadeiramente felizes, se passarmos por momentos desagradáveis e difíceis e
aqui, sim, entra a perspetiva, pois podemos viver agarrados ao desconforto
desses momentos menos bons, ou utilizá-los como motor de busca da nossa
felicidade. Isso, sim, é verdadeiramente difícil.
Em Portugal, cerca de 10 em
cada 100 mil portugueses colocam um fim a essa busca, mas não à dor e à
infelicidade, pois é tumultuoso esse caminho para a felicidade. Implica nos
expormos ao mundo dos mortais, que nos julga e faz de tudo para nos derrubar. A
busca da luz ao fundo do túnel, não pode ser feita sem ajuda, por mais que a
desejarmos afastar. É um tamanho exercício de mudar mentalidades e todos
sabemos o quão difícil é mudar uma mentalidade.
Em suma, ser feliz é, por
isso, o que nós quisermos, o que nós sonharmos e idealizarmos na nossa mente.
Não existe uma maneira certa de ser feliz, apenas uma vontade e um desejo que
reside nas entranhas do nosso pensamento, daí a dificuldade de “remar contra a
maré da infelicidade”. Mas, como os eternos navegadores que somos, adaptados à
Caravela Portuguesa, esculpidos pelas ondas dos quatro mares, o truque é
deixarmo-nos guiar pelo sabor da corrente e cheirar todos os salpicos de água
salgada que se aproximam de nós, pois a conquista está à vista, por mais
difícil que seja reconquistar a nossa felicidade.
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