Existe um tabu acerca de algo natural. Uma bolha de vergonha e reclusão que se formou ao redor do nosso mais velho instinto, algo que cresce na maioria de nós. Essa bolha estendeu-se e agarrou geração após geração, e o elefante na sala tornou-se um meteoro em um átomo. Todos sabem que está lá, todos sentem a presença, a tenção, todos são pegos por isso alguma vez, mas todos parecem se envergonhar.
Sim, eu falo sobre o
sexo. Esta palavra parece tão reservada para momentos particulares que, enquanto escrevo essa crónica pesquisei algumas vezes sinónimos para essa palavra. Parece que não há um ponto de equilíbrio que se possa encontrar para
falar sobre este assunto. Parece que não há um consenso, um tratado silencioso que deixe todos confortáveis. Alguns maníacos distorcem e excitam-se com tudo, outras
pessoas sexualizam quase todas as situações, e outros, para combater essa hipersexualização fingem
que o sexo simplesmente não existe. Esses últimos restringem os atos apenas
entre quatro paredes, se tanto. Digo “se
tanto” porque muitas vezes esse tabu persegue os casais até suas camas, e
tornam o momento em algo ditado pela sociedade, como se houvesse um júri
popular a volta das suas camas a constatar se o que ali acontece é muito fora do
convencional. Não deveria existir medo do julgamento se todos os envolvidos se satisfazem com o que estão fazendo.
O sexo começa muito antes do toque propriamente dito, e é
exatamente essa parte que me faz agora escrever. É engraçado analisar, em uma
sala cheia de pessoas, o que elas fazem para se conectarem com alguém, para
atrair alguém. É engraçado ver as estratégias, as armadilhas psicológicas. Essa
é a parte mais instigante e intrigante. Esse processo pode ser muito doloroso
de assistir quando o flerte de alguém é tão ruim que envolve piropos
extremamente batidos e conhecidos, mas existem situações que são excecionalmente
interessantes de se observar.
Refiro me ao toque entre os dedos quando alguém vai entregar
um objeto para a pessoa por quem se interessa; o rapaz que trança os cabelos da
“amiga” durante a aula; ao som audível do gaguejar de uma pessoa em frente à
outra, o som que deixa claro que o seu cérebro ficou tão confuso e excitado que
simplesmente desligou; a massagem que um amante faz ao outro, que está passando
por um dia cansativo; ao esforço dos país para colocarem os seus filhos para
dormir mais cedo, uma estratégia desenhada em silencio nas trocas de olhares
durante o jantar em família; ao "eu te amo" dito em um sussurro, ao pé da orelha, que
silencia a multidão ao redor; à duas "amigas" que tocam a coxa uma da outra, em baixo da mesa, escondido dos
país; ao olhar entre o barman e o cliente que quer muito
mais do que uma bebida, e que confia no funcionário a sua frente para fazer escolhas muito além do que colocar no copo. Em todos esses
momentos nota-se a caça, o prazer pela conquista, a busca pela adrenalina.
Claro que tudo isso só pode ser visto como interesse quando
ambas as partes querem, e quando tudo ali é consentido, seja em palavras ou em
silencio. E nós conseguimos ver, nós conseguimos sentir o ar começando a pesar
com as respirações quentes e ofegantes. Nós conseguimos sentir, mesmo como
observadores, a atmosfera que se reserva apenas para dois, mesmo que cercados
por outras pessoas. E então podemos ver como cada uns dos olhares parecem
projetar quem eles irão se tornar quando estiverem os dois completamente
sozinhos, e o que eles vão fazer. Os olhares atravessam as salas sem pudor
nenhum, e nós fingimos não perceber.
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