O seu dia começa com uma paragem no café. Toma
o pequeno-almoço demoradamente, não tem pressa de ir trabalhar, prefere ficar a
fazer conversa fiada e a proferir mentiras durante longas horas. Lá se decide a
abandonar o café e a ir para o trabalho, menos de dez minutos e está à porta
das ruínas da vacaria. Atravessa as manjedouras e chega a um pátio amplo,
estaciona o seu carro e prepara-se para abrir o portão da sua oficina. A manhã
vai a meio, quando veste o seu fato-macaco azul, todo sujo de óleo e se prepara
para fazer alguma reparação em algum carro. As ações são todas realizadas de
forma muito calma e pachorrenta, permeadas por conversas com o seu ajudante e
clientes que visitam a oficina, ou por vários cigarros acendidos e pisados no chão.
Quando o relógio anuncia as doze horas, o pouco trabalho desenvolvido pela
manhã é cessado, dando lugar à hora de almoço. Desloca-se até a algum
restaurante presente numa terreola qualquer, à borda da estrada. Faz questão de
pagar o almoço ao seu ajudante e a algum conhecido que encontra no restaurante,
enquanto lhe conta mais piadas e mentiras. Assim se passa o tempo, até serem catorze
horas e este decidir voltar á oficina e regressar ao trabalho. A tarde é uma
cópia e reflexo da manhã, perdida em mais conversas, cigarros e pouca
produtividade. Por vezes, volta a sair a meio da tarde para ir buscar algumas
peças ou rebocar algum carro.
Uma mesa grande de madeira que improvisa de
escritório, um pequeno lavatório que serve de casa de banho, um calendário com
a fotografia de uma mulher nua, uma aparelhagem grande preta sempre situada na
rádio marinhais, um quadro branco com a lista de caloteiros, onde em primeiro
lugar consta o seu próprio nome. Tudo elementos que dão uma ainda maior
peculiaridade àquele espaço. Os clientes continuam a aparecer, alguns perguntam
se o carro vai levar muito tempo a arranjar, outros dizem que o carro continua
com os mesmos problemas que tinha antes de ser arranjado e outros ficam a dever
dinheiro pelas peças e mão de obra. De vez em quando o telemóvel toca, é alguém
a perguntar se pode passar pela oficina para deixar o seu carro. Por vezes,
também é alguém a pedir dinheiro para pagar o aluguer de um quarto, numa cidade
sempre diferente, telefonema esse que o deixa sempre irritado. Assim se passa a
tarde, até serem dezoito horas e este dar por encerrado o trabalho por hoje. Há
dias em que sai ainda mais cedo e outros em que sai mais tarde, tudo depende da
sua vontade e apetite laboral.
Retira o fato-macaco azul que se encontra
colado ao seu corpo, despede-se do seu ajudante, fecha o portão da oficina e
sai hoje pela última vez da vacaria, para retornar somente amanhã. Conduz o seu
Audi a3 verde de 98, por uma estrada sinuosa ao pôr do sol, até chegar a uma
pequena aldeia. O normal seria passar por esta com alguma velocidade, mas desta
vez detêm-se à sua saída, acabando por parar. Uma sensação de arrependimento invade
os seus sentidos, levando-o a sair do carro e ir dar uma volta pela aldeia.
Percorre as ruas vazias, mergulhadas no silêncio, de forma contemplativa.
Observa a sua antiga casa, que outrora tentara vender, juntamente com tantas
falcatruas e trafulhices que realizou ao longo da sua vida. Tantas histórias que
não se sabe se são verdadeiras ou apenas um mito. Contudo, da fama e do seu
passado duvidoso, já não se consegue livrar, apesar de com a idade e o
prolongar dos anos, aparentar estar um pouco mudado. Mas não o suficiente para
que a indiferença e o desapego perante os outros tenham desaparecido. Findada a
sua caminhada pela aldeia, regressa de novo ao seu carro e arranca a todo o
gás, deixando esta para trás. Assim se passa quase uma vida, até ser tarde
demais e este sem ter consciência do que realmente fez.
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