quinta-feira, 25 de maio de 2023

Era um homem como os demais, só que o pior de todos

 

O seu dia começa com uma paragem no café. Toma o pequeno-almoço demoradamente, não tem pressa de ir trabalhar, prefere ficar a fazer conversa fiada e a proferir mentiras durante longas horas. Lá se decide a abandonar o café e a ir para o trabalho, menos de dez minutos e está à porta das ruínas da vacaria. Atravessa as manjedouras e chega a um pátio amplo, estaciona o seu carro e prepara-se para abrir o portão da sua oficina. A manhã vai a meio, quando veste o seu fato-macaco azul, todo sujo de óleo e se prepara para fazer alguma reparação em algum carro. As ações são todas realizadas de forma muito calma e pachorrenta, permeadas por conversas com o seu ajudante e clientes que visitam a oficina, ou por vários cigarros acendidos e pisados no chão. Quando o relógio anuncia as doze horas, o pouco trabalho desenvolvido pela manhã é cessado, dando lugar à hora de almoço. Desloca-se até a algum restaurante presente numa terreola qualquer, à borda da estrada. Faz questão de pagar o almoço ao seu ajudante e a algum conhecido que encontra no restaurante, enquanto lhe conta mais piadas e mentiras. Assim se passa o tempo, até serem catorze horas e este decidir voltar á oficina e regressar ao trabalho. A tarde é uma cópia e reflexo da manhã, perdida em mais conversas, cigarros e pouca produtividade. Por vezes, volta a sair a meio da tarde para ir buscar algumas peças ou rebocar algum carro.

Uma mesa grande de madeira que improvisa de escritório, um pequeno lavatório que serve de casa de banho, um calendário com a fotografia de uma mulher nua, uma aparelhagem grande preta sempre situada na rádio marinhais, um quadro branco com a lista de caloteiros, onde em primeiro lugar consta o seu próprio nome. Tudo elementos que dão uma ainda maior peculiaridade àquele espaço. Os clientes continuam a aparecer, alguns perguntam se o carro vai levar muito tempo a arranjar, outros dizem que o carro continua com os mesmos problemas que tinha antes de ser arranjado e outros ficam a dever dinheiro pelas peças e mão de obra. De vez em quando o telemóvel toca, é alguém a perguntar se pode passar pela oficina para deixar o seu carro. Por vezes, também é alguém a pedir dinheiro para pagar o aluguer de um quarto, numa cidade sempre diferente, telefonema esse que o deixa sempre irritado. Assim se passa a tarde, até serem dezoito horas e este dar por encerrado o trabalho por hoje. Há dias em que sai ainda mais cedo e outros em que sai mais tarde, tudo depende da sua vontade e apetite laboral.

Retira o fato-macaco azul que se encontra colado ao seu corpo, despede-se do seu ajudante, fecha o portão da oficina e sai hoje pela última vez da vacaria, para retornar somente amanhã. Conduz o seu Audi a3 verde de 98, por uma estrada sinuosa ao pôr do sol, até chegar a uma pequena aldeia. O normal seria passar por esta com alguma velocidade, mas desta vez detêm-se à sua saída, acabando por parar. Uma sensação de arrependimento invade os seus sentidos, levando-o a sair do carro e ir dar uma volta pela aldeia. Percorre as ruas vazias, mergulhadas no silêncio, de forma contemplativa. Observa a sua antiga casa, que outrora tentara vender, juntamente com tantas falcatruas e trafulhices que realizou ao longo da sua vida. Tantas histórias que não se sabe se são verdadeiras ou apenas um mito. Contudo, da fama e do seu passado duvidoso, já não se consegue livrar, apesar de com a idade e o prolongar dos anos, aparentar estar um pouco mudado. Mas não o suficiente para que a indiferença e o desapego perante os outros tenham desaparecido. Findada a sua caminhada pela aldeia, regressa de novo ao seu carro e arranca a todo o gás, deixando esta para trás. Assim se passa quase uma vida, até ser tarde demais e este sem ter consciência do que realmente fez.

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