terça-feira, 11 de março de 2025

Deixam-nos ser jovens?

 Lembro-me que quando era uma criança, ainda em muito tenra idade, todos os adultos me diziam sempre: “Aproveita agora, enquanto és criança, que depois quando fores adulto, vai ser difícil”. Mal sabia eu que todos estavam a falar a sério. Não que a minha infância fosse fácil, entre todos os trabalhos da escola, regras e horários impostos pelos adultos, que sempre tinham a expectativa que um dia iria dar um bom adulto. Mas ninguém nos prepara para a pressão que é ser jovem em Portugal.

 A pressão, começa mais cedo daquilo que imaginávamos. Ainda nem tinha aprendido a fazer contas complexas, ou até mesmo a escrever textos, e já se ouvia vozes a falar do “futuro”. Um futuro, que parece ainda estar tão longe, mas que por sua vez, nos exige uma preparação constante. Começando pelos exames nacionais, que decidem mais o nosso futuro que nós próprios, que nos colocam uma pressão de perfeição para pudermos ter um futuro “minimamente” decente. Escolhemos uma área de estudo, muitas vezes sem sequer saber se gostamos ou não, mas temos de escolher dentro do tempo que o sistema acha o mais indicado, que por vezes, esse tempo é tão curto que nem temos tempo para parar, refletir e perguntar: “Será mesmo isto que eu quero?”.

 Depois disso, vem as responsabilidades e ainda mais pressão. Primeiro vem a faculdade, onde quase somos obrigados a frequentar e a escolher algo que dê emprego, o que não foi bem o meu caso. Por causa disso, andamos numa montanha-russa de emoções, onde nela estão as obrigações, trabalhos da faculdade, estágios, empregos, sim porque muitos de nós jovens, ainda tem de crescer um pouco mais rápido, arranjando um emprego para completar os estudos, este aqui já é o meu caso, onde as vezes, nem temos tempo de ser jovens, e viver as experiências que tantas esperanças nos deram, ao alcançar esta idade. Terminamos a faculdade, com uma promessa de uma vida social promissora, empregos de sonho, casa de sonho, ou seja, uma vida de sonho.

 A questão que coloco agora, no meio destes pensamentos todos é: “Deixamos de ser jovens tão cedo por opção, ou a sociedade assim nos exige este crescimento, e maturidade toda?” Há sempre uma cobrança própria, interior, em que ficamos a pensar, que devemos estar sempre prontos para todos os desafios, que ao acabarmos a escola, qualquer seja o ano de escolaridade, temos logo de arranjar um trabalho, se tivermos um emprego mais precário, foi porque não nos esforçamos o suficiente.

 Ao nos queixarmos destas coisas, a geração anterior, vem perto de nós e ainda nos dizem que “temos tudo de mão beijada”, “no nosso tempo não era assim”. É verdade que temos a vida um pouco mais simplificada, mais oportunidades, tanto de empregos como estudos, mais recursos a tecnologias e ao mundo. Mas também temos umas maiores expectativas a cumprir, pois, se não tivermos um curso superior, não vamos ser ninguém na vida, se vivermos na casa dos mais aos vinte e cinco ou trinta anos, parece que falhámos, se não tivermos um emprego, que os adultos considerem a sério, também falhámos na vida. Somos cada vez mais “controlados”, com os adultos nos medindo cada passo que damos, vendo se é o mais correto ou não, para eles atenção, pois, por vezes, o que não parece correto para os outros, para nós é o mais acertado.

 E posto isto, o que nos sobra de sermos jovens? Haverá espaço para erros e indecisões? Haverá tempo para nos focarmos em nós, e nos encontrar mos enquanto pessoas ou seres humanos? Ou somos obrigados a acelerar o passo, ignorando o que nos faz mais feliz, para corresponder ao relógio imposto pelos adultos, controlando assim o nosso tempo, sendo obrigados, e passo a citar de novo, a andar no ritmo que querem, ou no nosso próprio ritmo, sem termos tempo para saborear o nosso tempo enquanto jovens?

 Com a ansiedade e pressão, que a nossa geração de jovens tem, por vezes esquecemo-nos de viver o presente, e ver as coisas belas que a vida tem, sim porque fora das nossas bolhas de ansiedade, pressão e expectativas, temos um mundo belo e maravilhoso lá fora.

 Então, em suma, como os grandes escritores dizem, é justo perguntarmos nos se entre tantas pressões e expectativas, nos deixam ser jovens. Porque, no fundo, não é as responsabilidades que nos assustam, pelo menos a mim não, o meu medo é de tentar crescer rápido demais, olhar para trás e ver que não aproveitei nada da minha juventude, que não terei histórias incríveis para contar na velhice, e ainda, o que mais me assusta, é que, quando me tornar adulto, fique igual aos outros de agora, que tanta pressão e expectativas nos dão.

 Porque, no fim disto tudo, a pergunta que fica no ar é: “Se não conseguirmos ser jovens agora, quando é que poderemos ser?”


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