Quando eu era criança, a internet não existia, pelo menos não da forma como existe hoje. O nosso mundo, era feito de brincadeiras na rua, andar de bicicleta, jogar ao berlinde, trocar cartas colecionáveis entre amigos. Para fazer pesquisas ou saber algo, recorríamos às enciclopédias pesadas da estante da sala ou perguntávamos aos mais velhos. Jogávamos à bola, explorávamos florestas e inventávamos brincadeiras com paus e pedras. O tempo passava mais devagar, sem notificações ou distrações do telemóvel, sem a ansiedade de estar sempre ligado.
Hoje, olho para
as crianças e vejo um mundo completamente diferente. O recreio já não é na rua,
mas sim nos pequenos ecrãs do telemóvel. Os jogos que se joga, já não necessitam
de um espaço físico, apenas de uma ligação à internet. Os amigos já não se encontram
na entrada da escola, mas sim numa chamava no “Discord”. As enciclopédias,
velhas e pesadas da sala, foram substituídas pelo “Google”, e até as conversas são,
já muitas vezes, feitas por emojis e mensagens rápidas.
Não quero
entrar naquele discurso nostálgico e clichê de, “antigamente é que era bom”, mas
não posso ignorar as mudanças. As crianças de hoje em dia, têm acesso a um mundo
de informação e possibilidades que no nosso tempo não existia. Conseguem
aprender um idioma novo com uma aplicação, fazer pesquisas em segundos e
comunicar com qualquer pessoa do planeta com um simples clique. Mas ao mesmo
tempo pergunto-me: o que se perdeu pelo caminho, com esta evolução?
A tecnologia
trouxe conforto e conhecimento, mas também trouxe isolamento e dependência. As
crianças já não precisam de sair de casa para se divertir. Podem viajar por tantos
universos incríveis sem se levantarem do sofá. Mas será que sabem o que é
correr descalças na rua ou sujar os joelhos a jogar à apanhada, depois de ter caído
a correr? Será que conhecem a sensação de folhear um livro à procura de uma
resposta?
O maior desafio
das novas gerações não é aprender a usar a tecnologia, mas sim aprender a
equilibrá-la. Aprender que há um mundo fora do ecrã que vale a pena ser
explorado. Talvez o segredo esteja no meio-termo: aproveitar o melhor da
internet sem perder o encanto do mundo real. Afinal, a infância não deveria ser
feita apenas de cliques e ecrãs, mas também do vento no rosto, gargalhadas ao
ar livre ou fazer descobertas, sem recorrer a internet.
No fundo, não é
a tecnologia que está errada, mas sim a forma como nos deixamos consumir por
ela. Como pais, educadores ou simples observadores, cabe-nos a nós mostrar às
crianças que a vida não se resume a “feeds” intermináveis e “likes”
momentâneos. O desafio é ensinar-lhes que há beleza na espera, na paciência, no
toque de um livro e no cheiro da terra molhada depois da chuva.
Se conseguirmos
mostrar-lhes que há magia tanto num vídeo viral como num pôr do sol, então
talvez possamos encontrar o equilíbrio. Talvez as novas gerações consigam
crescer com a internet, sem se perderem nela. E talvez, um dia, consigam olhar
para trás e lembrar-se não apenas dos jogos online, mas também dos momentos em
que desligaram o ecrã para viver de verdade.
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