quinta-feira, 10 de abril de 2025

Wi-fi, logo existo

 

Lembro-me do tempo em que tinha um telemóvel Alcatel dos anos dois mil que servia para fazer chamadas e escrever mensagens com mais abreviações do que vogais. Era um tempo em que o silêncio tinha espaço e o tédio ainda era permitido. Hoje, o tédio foi substituído por notificações. Há sempre algo a acontecer algures, e somos convocados a participar  mesmo que não queiramos, mesmo que estejamos cansados.

Vivemos ligados. Literalmente. Acordamos com o alarme do telemóvel, passamos o dedo pela tela como quem cumpre um ritual sagrado, e mergulhamos no mundo: redes sociais, e-mails, notícias, vídeos curtos com humor duvidoso e danças ensaiadas. Um mundo onde tudo acontece depressa, mas onde, paradoxalmente, o tempo parece escapar-se.

A tecnologia prometeu-nos mais liberdade, mas será que nos deu mais prisão? À primeira vista, temos o mundo no bolso. À segunda, somos nós que cabemos num ecrã. As redes sociais criaram uma ilusão de proximidade, mas deixaram-nos com saudades do toque. O GPS evita que nos percamos, mas também impede-nos de descobrir por acaso aquela rua bonita com o café de esquina que cheira a bolo de avó. Não, isto não é um discurso anti-tecnologia. Seria hipócrita da minha parte: escrevo esta crónica num portátil, com música no Spotify e sentada numa esplanada. A tecnologia é maravilhosa. É arte, ciência, milagre e progresso. É o que nos permite falar com alguém do outro lado do mundo, operar corações à distância ou trabalhar sem sair de casa. O problema não é a tecnologia é o que fazemos (ou deixamos de fazer) com ela. A questão não é desligar. É saber quando, como e porquê estar ligado. A tecnologia devia ser uma ferramenta, não uma extensão da ansiedade. Devia ajudar-nos a estar mais presentes, não mais dispersos. Talvez o futuro passe por isso: reaprender a estar, a ver, a ouvir, mesmo rodeados de ecrãs.

No fundo, tudo se resume a uma pergunta simples: quem é que está no comando nós ou os nossos dispositivos? Se a resposta for “eles”, talvez esteja na hora de desligar o Wi-Fi e lembrar que existir é mais do que estar online.

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