Lembro-me
do tempo em que tinha um telemóvel Alcatel dos anos dois mil que servia para
fazer chamadas e escrever mensagens com mais abreviações do que vogais. Era um
tempo em que o silêncio tinha espaço e o tédio ainda era permitido. Hoje, o
tédio foi substituído por notificações. Há sempre algo a acontecer algures, e
somos convocados a participar mesmo que
não queiramos, mesmo que estejamos cansados.
Vivemos
ligados. Literalmente. Acordamos com o alarme do telemóvel, passamos o dedo
pela tela como quem cumpre um ritual sagrado, e mergulhamos no mundo: redes
sociais, e-mails, notícias, vídeos curtos com humor duvidoso e danças
ensaiadas. Um mundo onde tudo acontece depressa, mas onde, paradoxalmente, o
tempo parece escapar-se.
A
tecnologia prometeu-nos mais liberdade, mas será que nos deu mais prisão? À
primeira vista, temos o mundo no bolso. À segunda, somos nós que cabemos num
ecrã. As redes sociais criaram uma ilusão de proximidade, mas deixaram-nos com
saudades do toque. O GPS evita que nos percamos, mas também impede-nos de
descobrir por acaso aquela rua bonita com o café de esquina que cheira a bolo
de avó. Não, isto não é um discurso anti-tecnologia. Seria hipócrita da minha
parte: escrevo esta crónica num portátil, com música no Spotify e sentada numa
esplanada. A tecnologia é maravilhosa. É arte, ciência, milagre e progresso. É
o que nos permite falar com alguém do outro lado do mundo, operar corações à
distância ou trabalhar sem sair de casa. O problema não é a tecnologia é o que
fazemos (ou deixamos de fazer) com ela. A questão não é desligar. É saber
quando, como e porquê estar ligado. A tecnologia devia ser uma ferramenta, não
uma extensão da ansiedade. Devia ajudar-nos a estar mais presentes, não mais
dispersos. Talvez o futuro passe por isso: reaprender a estar, a ver, a ouvir,
mesmo rodeados de ecrãs.
No
fundo, tudo se resume a uma pergunta simples: quem é que está no comando nós ou
os nossos dispositivos? Se a resposta for “eles”, talvez esteja na hora de
desligar o Wi-Fi e lembrar que existir é mais do que estar online.
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