segunda-feira, 19 de maio de 2025

Portugal, esse pequeno lugar que é tudo

 Portugal, esse pequeno lugar que é tudo

Há um país à beira-mar, deitado, como dizia Pessoa, que não sabe muito bem se está a descansar ou a tentar levantar-se outra vez. Portugal é esse lugar onde a luz é mais leve, onde o tempo parece andar devagar, mas a vida corre depressa. Um país onde se fala baixinho nas filas, mas se grita nos cafés e onde os problemas se encolhem com um “logo se vê”.

Somos um povo de extremos suaves. Sofremos com intensidade, mas calados. Temos uma história imensa e um presente pequeno, mas que nos serve. Somos melancólicos por defeito e esperançosos por teimosia. Choramos com fado e rimos com pouco. Dizemos mal de tudo, mas não deixamos que ninguém diga mal de nós. Lá fora somos "os melhores do mundo", cá dentro somos sempre “poucochinhos”. Portugal é aquela casa antiga que precisa de obras, mas onde se vive bem. Com azulejos que resistem ao tempo e paredes que guardam memórias de gerações. Temos mar, sol e vinho, mas também salários baixos, rendas altas e promessas políticas que caducam mais depressa do que o iogurte no frigorífico.

O português sabe viver com pouco, mas sonha com muito. Há quem parta por necessidade, mas nunca por gosto. Lá fora, os nossos fazem tudo: limpam hospitais, constroem pontes, ensinam línguas, dirigem empresas. E cá dentro? Cá dentro lutam. Esperam por concursos públicos, por lugares que não abrem, por reconhecimentos que não chegam. E mesmo assim, continuamos. Continuamos a fazer sopa, a votar, a ir ao café todos os dias. A dizer “bom dia” ao vizinho mesmo que esteja de trombas. A fazer piadas com a nossa própria desgraça. A acreditar, de quatro em quatro anos, que agora é que vai ser. Portugal é um país em que se diz "desenrasca-te" como quem entrega a alma à criatividade. É onde há fila para tudo menos para mudar as coisas. É onde um abraço pode durar mais que uma solução política e onde a solidariedade aparece nas tragédias, mas se esquece no resto do ano.

Mas é o nosso país. É aquele onde a saudade tem morada permanente. Onde a comida sabe à infância e a praia sabe a liberdade. Onde o futebol ainda une (e separa), e onde as avós têm mais poder que muitos ministros. Portugal é pequeno, sim. Mas carrega dentro de si um mundo inteiro. Um país cansado, mas que resiste. Que se zanga, mas não desiste. Um país onde tudo muda para ficar mais ou menos na mesma, mas onde, com sorte, um dia tudo muda mesmo.

E quando isso acontecer, vamos olhar para trás e dizer: “Estava na cara que ia melhorar... só que demorou um bocadinho.”

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