Portugal, esse pequeno lugar que é tudo
Há um país à beira-mar, deitado, como dizia Pessoa, que
não sabe muito bem se está a descansar ou a tentar levantar-se outra vez.
Portugal é esse lugar onde a luz é mais leve, onde o tempo parece andar
devagar, mas a vida corre depressa. Um país onde se fala baixinho nas filas,
mas se grita nos cafés e onde os problemas se encolhem com um “logo se vê”.
Somos um povo de extremos suaves. Sofremos com
intensidade, mas calados. Temos uma história imensa e um presente pequeno, mas
que nos serve. Somos melancólicos por defeito e esperançosos por teimosia.
Choramos com fado e rimos com pouco. Dizemos mal de tudo, mas não deixamos que
ninguém diga mal de nós. Lá fora somos "os melhores do mundo", cá
dentro somos sempre “poucochinhos”. Portugal é aquela casa antiga que precisa
de obras, mas onde se vive bem. Com azulejos que resistem ao tempo e paredes
que guardam memórias de gerações. Temos mar, sol e vinho, mas também salários
baixos, rendas altas e promessas políticas que caducam mais depressa do que o
iogurte no frigorífico.
O português sabe viver com pouco, mas sonha com muito. Há
quem parta por necessidade, mas nunca por gosto. Lá fora, os nossos fazem tudo:
limpam hospitais, constroem pontes, ensinam línguas, dirigem empresas. E cá
dentro? Cá dentro lutam. Esperam por concursos públicos, por lugares que não
abrem, por reconhecimentos que não chegam. E mesmo assim, continuamos.
Continuamos a fazer sopa, a votar, a ir ao café todos os dias. A dizer “bom
dia” ao vizinho mesmo que esteja de trombas. A fazer piadas com a nossa própria
desgraça. A acreditar, de quatro em quatro anos, que agora é que vai ser. Portugal
é um país em que se diz "desenrasca-te" como quem entrega a alma à
criatividade. É onde há fila para tudo menos para mudar as coisas. É onde um
abraço pode durar mais que uma solução política e onde a solidariedade aparece
nas tragédias, mas se esquece no resto do ano.
Mas é o nosso país. É aquele onde a saudade tem morada
permanente. Onde a comida sabe à infância e a praia sabe a liberdade. Onde o
futebol ainda une (e separa), e onde as avós têm mais poder que muitos
ministros. Portugal é pequeno, sim. Mas carrega dentro de si um mundo inteiro.
Um país cansado, mas que resiste. Que se zanga, mas não desiste. Um país onde
tudo muda para ficar mais ou menos na mesma, mas onde, com sorte, um dia tudo
muda mesmo.
Sem comentários:
Enviar um comentário