Portugal gosta
de se imaginar como o país da saudade. Damos-lhe esse estatuto de património,
exibimo-lo com orgulho como se fosse um traço de identidade nacional, quase tão
nosso como o fado ou os cravos de abril. Mas poucas vezes paramos para pensar
no que ela realmente significa. No que custa, a quem a carrega essa saudade do
país que outrora era dele.
A saudade é
bonita nas canções e nas campanhas turísticas. Lá fora, é sinónimo de alma
profunda e coração quente. Mas para quem está fora é peso. É ausência. É aquilo
que se sente quando o país que amamos, nos força a partir, como quem nos diz
que gostava que ficássemos, mas não tem como nos manter.
Fomos fazendo
deste sentimento uma bandeira. Como se fosse nobre viver de longe, lembrar de
tudo com lágrimas nos olhos, idealizar o que ficou para trás. Mas a verdade é
que o país da saudade é, muitas vezes, o país da desistência. O país que sabe
cultivar a memória, mas não o futuro. Que embala com palavras bonitas os que
partem, em vez de lhes dar razões para ficar.
Quem vive no
país da saudade aprende a habitar dois tempos em simultâneo: o do que deixou e
o do que tenta construir. E quase sempre sente que não pertence totalmente a
nenhum. O passado pesa como a herança, o presente exige reinvenção constante, e
o futuro... o futuro, depende do visto, do contrato e da sorte.
Sim,
continuamos a amar este país. Continuamos a cantar na sua língua, a comer os
seus sabores com orgulho, a seguir à distância os jogos da seleção como se
fosse ali ao lado. Mas amar não é o mesmo que pertencer. E o país da saudade,
esse que só existe para quem parte, é um lugar feito de nostalgia e desilusão,
é uma nação sem fronteiras, mas cheia de fronteiras invisíveis.
No fim, talvez
sejamos mesmo o país da saudade. Não por escolha, mas por consequência. Um país
que se orgulha daquilo que sente, em vez de se comprometer com aquilo que podia
mudar, um país que prefere ver partir e viver de recordações, do que fazer
ficar e criar memórias.
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