terça-feira, 14 de abril de 2026

Um dia vais ter de sair

Nunca pensei que sair da minha zona de conforto tivesse uma data marcada. Mas teve. Veio num dia normal, com uma mala feita e um destino que ficava longe de tudo o que eu conhecia…casa. Pensar que o lugar onde vivi toda a minha vida ia deixar de ser o meu refúgio soava estranho mas acima de tudo assustador. Parte de mim queria ir. Queria mudar, crescer, descobrir o que estava para além do que conhecia. Mas havia outra parte mais silenciosa, mas mais forte, que só queria ficar no aconchego do seu lar.


É incrível o efeito que uma mala feita causa. Levamos muito mais do que meras roupas. Despedidas, silêncios e sobretudo lágrimas também fazem parte dessa mala. Lágrimas de um coração que percebe que o que antes era conforto está prestes a transformar-se em desconhecido. Sair custa mas é necessário. Crescer dói mas é fundamental. Estarmos fora da nossa zona de conforto é essencial. E estar fora do nosso conforto é enfrentar o desconhecido mesmo quando tudo em nós pede para ficar onde é seguro. É aprender a lidar com o desconforto, com o silêncio e com o medo de falhar. A minha zona de conforto eram as minhas pessoas, as que viviam comigo, as que me conheciam e sabiam-me ler de cor. Mas e quando se sai dessa zona? Quem vão ser as minhas pessoas de conforto? Um dia vais ter de sair. Não só da tua zona de conforto, mas do teu quarto, da tua casa, da tua rotina. Vais ter de deixar para trás tudo o que é certo para descobrir quem és sem isso. É exatamente, nesse silêncio, que percebo que sair da minha zona de conforto não foi apenas deixar a minha casa para trás. Foi também deixar a minha timidez ou pelo menos, aprender a enfrentá-la. Quando estamos na nossa zona de conforto não precisamos de ser faladores nem comunicativos. Meio que falam por nós. Se tenho vergonha alguém irá falar por mim. Isto acontece constantemente. Alguns chamam-lhe conforto, eu diria que é um péssimo hábito. Quando saímos dessa bolha voltamos a ser recém-nascidos. Voltamos a ser frágeis e pequeninos. Temos medo, vergonha e receio daquilo que não conhecemos. E é aí que tudo começa outra vez. Não com certezas, mas com dúvidas. Não com segurança, mas com coragem. Chegar à universidade foi exatamente isso. Um recomeço. Corredores cheios de pessoas que não me conheciam, vozes que não me eram familiares. E isso assusta. Assusta mais do que sair de casa. Porque fora dela, deixamos de ter alguém que fala por nós. Saí do carro dos meus pais e senti o meu coração a apertar como se quisesse ficar para trás. Olho ao meu redor e, de repente, sou eu. Só eu. O primeiro dia chegou. E com ele chegou a altura de começar a deixar a timidez em casa e despedir-me dela de uma vez por todas. Muitas pessoas ao meu redor mas nenhuma era casa, nem pouco mais ou menos. Foi um choque quando me caiu a ficha de que estava realmente na universidade sozinha. Tive de falar sem conhecer quem me ouvia. Tive de procurar saber quando eu era de ficar escondida. Tive de me abrir quando eu era fechada. A solidão inicial aterrorizou-me, fez-me pensar que não era capaz, que não queria fazer isto. Mas eu queria isto, queria sair da rotina, queria o novo e o desconhecido. Mas quando ele chegou, estremeci, é como se a nossa zona de conforto fosse a nossa manta quando nos aquece e fora dela o frio que sentimos quando estamos destapados. Demorou tempo até o novo se tornar familiar. Mas não foi sempre assim. Passou-se um ano e um “olá” deixou de custar tanto. Um e outro rosto começou a tornar-se familiar. Uma rotina começou a nascer. E sem dar conta, aquilo que era estranho começou a tornar-se acolhedor. Talvez isso seja crescer. Não deixar de ter medo, mas aprender a viver com ele. Porque a zona de conforto nunca desaparece. Ela muda de lugar. E, sem percebermos, começamos a construí-la outra vez.


No meio de tudo isto, fui percebendo que sair não foi só afastar-me de um lugar, foi aproximar-me de mim. Longe do que sempre me protegeu, tive de aprender a ouvir a minha própria voz, mesmo quando ela saía baixinho. A timidez que antes me acompanhava em tudo foi ficando para trás, quase sem fazer barulho, até se perder no caminho. Fui mesmo assim, com o coração apertado, com saudade e com medo. E foi aí que cresci. Hoje sei que me adaptei, que me encontrei em pedaços que nem sabia que existiam, e que construí um novo lugar dentro e fora de mim. Uma segunda casa. Percebi que sair da zona de conforto não é perder-nos, é, aos poucos, voltarmos a nós, é a melhor chave para abrir o cofre.


Sem comentários:

Enviar um comentário

Vemos e seguimos

A guerra cabe num ecrã de telemóvel, num vídeo de poucos segundos que vemos e esquecemos. Deslizamos para o lado e seguimos com o dia, como ...