quarta-feira, 15 de abril de 2026

O ritual do café entre aulas

Entre uma aula e outra, há sempre tempo (ou pelo menos arranja-separa um café. Não tanto pela cafeína, mas pelo ritual. Em Portalegre, isso repete-se todos os dias: sair da sala, atravessar o recinto, procurar um lugar ao sol ou à sombra, e, quase sem pensar, pedir o habitual. 

O café chega, quase sempre acompanhado de um “só para acordar”, mesmo quando ninguém acabou de acordar. Seguram-se as chávenas como se fossem pequenas pausas no meio de tudo o resto. Fala-se de tudo e de nada: da aula que acabou, da próxima que ninguém quer ter, de trabalhos que ainda nem começaram, mas já preocupam, de planos que raramente se concretizam. 

É um intervalo pequeno, mas parece suspender o resto. Durante aqueles minutos, os prazos não existem, os trabalhos ficam em pausa, e a pressa abranda. Até o tempo parece mais lento, como se estivesse também a beber café connosco. 

Curiosamente, é nesses momentos mais banais que a vida universitária parece mais real. Não nas aulas, nem nos exames, nem nas apresentações. Mas ali na conversa solta, no riso inesperado, nas interrupções que não incomodam, no silêncio confortável entre palavras. 

Há qualquer coisa de quase automático neste ritual. Não é preciso combinaracontece. E, ao mesmo tempo, é nesse gesto repetido que se criam rotinas, laços, memórias que, mais tarde, acabam por definir o que foi estudar em Portalegre. 

Depois, alguém olha para o relógio. O momento termina sem aviso. Levantamo-nos, recolhemos as coisas, e cada um segue o seu caminho. Como se nada de especial tivesse acontecido. 

Mas talvez seja precisamente aí que está o mais importante: no que passa despercebido, mas mais tarde torna-se memória. 

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