quarta-feira, 27 de maio de 2026

Entre o cansaço e a superação

O ginásio é um espaço onde o corpo se movimenta, mas onde também a mente aprende a resistir. Entre halteres, passadeiras e música alta, cada pessoa trava batalhas silenciosas contra o cansaço, a insegurança e a falta de motivação. Há quem procure saúde, quem queira mudar a aparência e até quem apenas precise de fugir ao stress do dia a dia. No fundo, todos chegam ali com um objetivo diferente, mas com a mesma vontade de melhorar.


Ao entrar num ginásio, percebe-se rapidamente que o esforço não se mede apenas pelo suor. Existem dias em que o treino parece leve e outros em que até levantar da cadeira custa. Ainda assim, é precisamente nessa disciplina diária que nasce a verdadeira mudança. O progresso não aparece de um dia para o outro; constrói-se lentamente, repetição após repetição. É uma lição que ultrapassa o exercício físico e serve para a própria vida.


Também é curioso observar como o ginásio se tornou um reflexo da sociedade moderna. Muitos treinam para publicar resultados nas redes sociais, enquanto outros preferem evoluir em silêncio. Há competição, vaidade e comparação, mas também amizade, incentivo e superação. Entre máquinas e espelhos, criam-se rotinas, hábitos e até relações humanas inesperadas. O ginásio acaba por ser um pequeno retrato das ambições e fragilidades de cada pessoa.


No final, mais importante do que ter músculos definidos é desenvolver força interior. O ginásio ensina persistência, paciência e autoconfiança, qualidades que fazem diferença fora daquele espaço. Cada treino concluído representa uma pequena vitória pessoal, mesmo que ninguém a veja. Talvez seja por isso que tantas pessoas regressam todos os dias: porque ali não treinam apenas o corpo, treinam também a capacidade de nunca desistir.



Tamir Varela


sexta-feira, 22 de maio de 2026

Não te quero perder

Existe amores que entram devagar na vida de uma pessoa, quase sem pedir licença. Chegam em conversas pequenas, em olhares demorados, em detalhes tão simples que ninguém imaginava um dia ser possível. E depois, sem percebermos quando aconteceu, aquela pessoa passa a morar nos nossos pensamentos, nos nossos hábitos, nos nossos silêncios. Passa a fazer parte daquilo a que chamamos “VIDA”.


E começa a nascer o medo.


O medo de perder alguém não começa no fim, mas sim quando percebemos o quanto a presença da pessoa nos acalma. Amar alguém é entregar uma parte vulnerável de nós. É confiar nas mãos de outra pessoa algo que demorámos anos a construir, o coração.

“Não te quero perder” não é apenas uma frase romântica, é uma confissão, é carinho, é a tentativa de salvar algo antes que o tempo, a distância ou o silêncio o destruam.


Existem muitas formas de perder alguém.


Há quem se perca por falta de amor, mas há quem se perca apesar dele. Acabamos por perder-nos no excesso de orgulho, nas palavras que não dissemos, nas mensagens ignoradas, nas discussões que começaram por coisas pequenas e que criaram muros enormes. Às vezes duas pessoas amam-se profundamente e mesmo assim afastam-se, porque amar nem sempre significa saber cuidar.


Talvez o amor seja exatemente isso: cuidado.


Cuidar é reparar quando o outro muda o tom de voz, é perceber o cansaço escondido atrás de um “está tudo bem”. É ficar nos dias difíceis, quando já não existe encanto cinematográfico nem frases perfeitas, porque o verdadeiro amor não vive apenas dos momentos bonitos, mas sim da paciência, da compreensão e da escolha diária de ficar.

Existem noites em que o medo de perder alguém pesa mais do que o próprio sono. Acabamos por ficar presos em memórias, a ler conversas antigas, a reviver os abraços, a pensar em tudo o que ainda queríamos dizer. E no meio disto percebemos algo assustador, algumas pessoas tornam-se insubstituíveis.

Não porque sejam perfeitas, porque nos conhecem de uma forma que ninguém mais conhece. Sabem onde sorrimos, onde fingimos ser fortes e mesmo assim escolhem ficar.

Talvez seja por isso que custa tanto imaginar a ausência, porque perder alguém que amamos não é apenas perder uma pessoa, mas perder uma rotina, um refúgio, uma versão de nós mesmos que só existia com ela.


O amor tem outro lado, o lado bonito da coragem. Dizer a frase “não te quero perder” exige verdade, exige baixar defesas, abandonar máscaras e admitir dependência emocional num mundo que nos ensina a parecer frios e independentes.

No fundo, só queremos alguém que lute por nós. Alguém que, no meio do caos, escolha ficar. Alguém que transforme despedidas em recomeços.


Talvez o amor verdadeiro não seja aquele que nunca falha, mas aquele que mesmo ferido, ainda encontra força para dizer:


“FICA. ENTRE TUDO O QUE A VIDA ME PODE TIRAR, PERDER-TE SERIA A DOR QUE EU NÃO SABERIA SUPORTAR”

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Aquilo que deixamos de ver

Habituamo-nos tão depressa às coisas boas, que acabamos por deixar de as ver.

Transformamos pequenos privilégios em rotina sem sequer perceber. A casa onde voltamos todos os dias, as pessoas que estão sempre presentes, os momentos simples que, por acontecerem tantas vezes, deixam lentamente de parecer especiais. Como se aquilo que é constante deixasse automaticamente de ter valor.

Passamos tanto tempo focados naquilo que nos falta, que nos esquecemos de olhar para aquilo que já temos. Queremos sempre mais tempo, mais dinheiro, mais conquistas, mais qualquer coisa. E, no meio dessa procura constante, acabamos por ignorar coisas que, noutro momento da nossa vida, talvez tivéssemos desejado profundamente.

O mais estranho é que, muitas vezes, só percebemos o valor de algo quando deixamos de o ter. Quando a rotina muda, quando alguém se afasta, quando um momento deixa de acontecer da mesma forma. É aí que percebemos que aquilo que parecia normal era, afinal, importante.

Talvez a rotina tenha essa capacidade silenciosa de esconder as coisas boas debaixo do hábito. Tudo continua lá, mas deixamos de reparar. Como quem passa todos os dias pelo mesmo lugar e, passado algum tempo, já nem levanta os olhos para o observar.

E talvez seja por isso que estamos constantemente à procura de algo novo, como se a felicidade estivesse sempre no próximo momento e nunca naquele onde já estamos. Procuramos tanto aquilo que ainda não chegou, que deixamos escapar aquilo que já fazia parte da nossa vida.

No fundo, talvez o problema nunca tenha sido a falta de coisas boas. Talvez tenhamos apenas desaprendido a repará-las.


Inês Garção

quarta-feira, 20 de maio de 2026

​O Silêncio antes do Tiro

O despertador ainda não tocou, mas os olhos já estão abertos. Na verdade, há quem diga que o corpo acorda ali, naquele minuto, mas a verdade é que a mente nunca chegou a adormecer. Ficou em vigilância, a correr pistas imaginárias no teto do quarto, a antecipar curvas, a contar os passos até à meta. 

Há uma solidão tremenda nas horas que antecedem uma prova. Um turbilhão silencioso de sentimentos, entre os quais, nervos e ansiedade. O deitar na cama na noite antes da prova faz-nos quase ser filósofos, de tanto que pensamos. Pensa-se se podemos não fazer a prova. Se vão estar muitas pessoas ou se faremos um mau tempo.  

Verbalizar a palavra prova ou ouvi-la cria ansiedade no peito e complexos grandes na mente. O que queima no peito antes da partida não é o medo de perder a corrida, é o medo de não honrar o caminho que nos trouxe até aqui. 


O levantar, vestir e fazer a mochila deixa o coração a tremer, as mãos inquietas e as pernas fracas. O pequeno-almoço não tem grande sabor e a fome parece nem existir. Uma prova parece ser só correr e dizem-nos sempre para não ficarmos nervosos mas não fazem ideia de que a prova já começa ao acordar quando lutamos contra a nossa própria mente porque o atletismo mais do que físico é uma prova mental connosco próprios. 

Sair de casa com a mochila às costas é cruzar uma linha de não retorno. O caminho até à pista é feito de um silêncio profundo de fones nos ouvidos a ecoar apenas a música para levar a mente a distrair-se enquanto ainda é possível. Mas quando o carro estaciona e temos de sair parece que nos falta oxigênio para respirar normalmente. O burburinho das bancadas, o som metálico dos altifalantes a anunciar as séries e o bater seco dos sapatos de bicos no chão transformam o ambiente. Vemos os outros atletas. Na nossa mente, já fragilizada, todos eles parecem mais calmos, mais rápidos, mais preparados. Sentimo-nos pequenos dentro da nossa própria pele. Entrar na pista para o aquecimento é como estar na praia e começar a chover. O coração bate na garganta, as mãos continuam frias e o suor que nos escorre pela testa ainda é de pura ansiedade. O corpo resiste, pesado, como se nos implorasse para não o submetermos àquela dor. Antes de pisar a pista, antes sequer de ouvir o barulho das bancadas ou o sinal de partida, a verdadeira batalha já foi travada e ganha no balneário: a batalha de aceitar o medo, respirar fundo e, ainda assim, dar o primeiro passo em frente. 


Mas depois, acontece o milagre 

do foco. 


Colocamos o dorsal na camisola, chamam o nosso nome e caminhamos para a linha de partida ou para os blocos. Os nervos não desaparecem por milagre. Eles continuam lá, a esmagar o peito. As pernas ainda parecem de chumbo. Mas há um segundo. Um único segundo. Entre o "aos vossos lugares" e o tiro, em que o turbilhão silencia. O erro de quem está de fora é achar que o nervosismo nos enfraquece. Não percebem que este turbilhão é o corpo a blindar-se. O medo não nos paralisa, afia os nossos sentidos. E quando o dedo do juiz de partida se aproxima do gatilho e o silêncio faz-se sentir na pista, aquela mente que nos massacrou desde o acordar finalmente cala-se. Ela sabe que a guerra connosco próprios já foi ganha. Agora, é só correr. 

E a verdade é que eu ainda não corri, mas já me sinto neste turbilhão de sentimentos só de escrever esta crónica. 


Não perturbes

 Há uma crueldade discreta em estar sentado numa cadeira, imóvel, aparentemente entregue ao grande desporto nacional de não fazer ponta de um corno, enquanto por dentro se passa uma espécie de congresso clandestino, com ideias a levantar a mão sem ordem, memórias a interromper assuntos que não lhes dizem respeito, frases que aparecem tortas mas com potencial, dúvidas a circular de um lado para o outro como funcionários das Finanças à procura de uma impressora que funcione, e tudo isto sem que haja, do lado de fora, qualquer sinal minimamente convincente de produtividade, porque uma pessoa que pensa não sua necessariamente, não levanta tijolos, não carrega sacos de cimento, não tem uma bata, não tem um crachá, não tem sequer a decência visual de estar a escrever num papel, o que ajudaria imenso, admito, porque o papel sempre dá aquele ar respeitável de quem sofre com método, mas às vezes nem papel há, nem caneta, nem secretária, nem espaço físico onde se possa dizer “pronto, agora vou isolar-me e transformar este caos numa coisa com princípio, meio e fim”, há apenas um corpo largado num sítio qualquer, talvez numa sala onde alguém vê televisão em volume de missa campal, talvez num café onde duas pessoas discutem o preço da dúzia de ovos como se estivessem a redigir a Constituição, talvez num quarto que não chega a ser abrigo porque também lá entram barulhos, mensagens, responsabilidades e pequenas merdas domésticas que parecem inofensivas mas têm a capacidade de assassinar uma ideia ainda em fase embrionária, e mesmo assim a cabeça trabalha, reorganiza, apaga, recupera, compara, rejeita, tenta outra vez, vai buscar uma imagem absurda, percebe que a imagem afinal é melhor do que a ideia original, abandona a ideia original com uma frieza quase criminosa e segue caminho, tudo isto enquanto quem passa olha e pensa que estamos apenas ali, parados, como um micro-ondas desligado, sem perceber que há um universo a tentar arrumar-se por dentro sem estantes suficientes, e talvez seja isso o mais difícil neste tipo de trabalho, não a escrita em si, mas a parte invisível antes dela, a fermentação, o tempo morto que afinal está vivo, o intervalo que afinal é oficina, a pausa que parece preguiça mas é só pensamento sem uniforme, até ao momento em que, finalmente, alguém nos vê calados e pergunta se se passa alguma coisa.

Licenciados em sobreviver

Esta semana voltou-se a falar da habitação em Portugal, mas bastava entrar numa residência universitária, num quarto arrendado por seiscentos euros ou numa chamada entre pais e filhos para perceber que o problema já não é apenas económico. Tornou-se emocional.

Os universitários portugueses vivem hoje numa espécie de intervalo permanente: demasiado velhos para depender completamente dos pais, demasiado pobres para serem verdadeiramente independentes.

Há estudantes que escolhem universidades não pelo curso, mas pela cidade onde ainda conseguem pagar um quarto. Outros fazem duas horas de comboio todos os dias porque viver perto da faculdade é um luxo reservado a poucos. E depois há os que entram na universidade com entusiasmo académico e acabam especialistas em folhas Excel, subsídios, rendas e promoções de supermercado.

A universidade devia ser o lugar das primeiras descobertas. Descobre-se um autor, uma teoria, uma paixão, uma vocação. Mas muitos estudantes descobrem primeiro o preço da eletricidade.

Hoje, um quarto sem janela em Lisboa pode custar mais do que a propina anual de muitos cursos. É uma ironia particularmente portuguesa: entrar no ensino superior talvez seja mais fácil do que conseguir viver perto dele.

E nota-se no quotidiano. Nos estudantes que fingem normalidade enquanto fazem contas mentalmente ao saldo da conta bancária. Nos cafés das faculdades cheios até à noite porque “ficar mais um bocado” significa gastar menos aquecimento em casa. Nos grupos de amigos onde quase toda a gente trabalha ao mesmo tempo que estuda, como se descansar fosse um privilégio extracurricular.

Criou-se uma geração altamente qualificada na arte de sobreviver. Sabem procurar descontos, dividir despesas, partilhar contas de streaming, esticar bolsas de estudo até ao último cêntimo. Muitos acabarão o curso com competências impressionantes de gestão financeira adquiridas não por ambição empresarial, mas por necessidade.

E, apesar disso, continuam a pedir-lhes entusiasmo.

Pedem-lhes espírito académico, produtividade, médias altas, Erasmus, networking, projetos pessoais e saúde mental equilibrada. Tudo isto enquanto vivem frequentemente em quartos que parecem arrecadações caras com ligação Wi-Fi.

Talvez seja essa a maior contradição do país atual: nunca se exigiu tanto aos jovens e nunca lhes foi dado tão pouco espaço para começar a vida.

Antigamente dizia-se aos estudantes que o esforço compensava. Hoje diz-se algo mais vago: “logo se vê”.

E talvez seja isso que assusta mais um universitário em Portugal. Não é apenas a renda. É a sensação de estudar para um futuro que parece sempre adiado.


terça-feira, 19 de maio de 2026

A Máquina que já pensa por nós

Há uns anos, o maior medo era que as máquinas começassem a pensar como humanos.

Atualmente, o problema é que os humanos começaram a pensar como máquinas.

Tudo tem de ser feito mais rápido, eficaz e automático. As pessoas já não perdem tempo a escrever um texto, responder a um e-mail ou até mesmo palavras para se pedir desculpas. Mas existe sempre uma inteligência artificial a fazer isso por nós e faz isso de uma forma instantânea.

Também já me deparei com pessoas a usarem a inteligência artificial para escrever uma mensagem romântica. A máquina escolheu as palavras, os emojis e mesmo o tom. Mas isto dá que pensar, será que isto ainda é o mesmo amor que existia antes?

A inteligência artificial entrou na nossa vida da mesma forma que entrou o Wi-Fi, em primeiro é um luxo, depois é indispensável e agora ninguém imagina viver sem ela. Por exemplo, pedimos para ela resumir os livros que não queremos ler e escrever textos que fingimos ser nossos. 

Mas nem tudo é um mar de rosas, podemos estar a criar uma geração sem vontade de pensar e uma geração que sabe pedir respostas, mas desaprendeu a fazer perguntas.

A IA não é a vilã da história, porque a culpa não é da ferramenta. Um martelo tanto constrói uma casa como parte uma janela. Ela ajuda estudantes, médicos, artistas e pessoas comuns, mas também ajuda a ter conhecimento a quem nunca teve acesso a ele.

O maior problema e perigo, é quando deixamos de usar a máquina como um apoio e a usamos como substituto. Substituto da criatividade, do esforço, da reflexão e até da nossa própria voz.

Porque escrever mal e dar erros é humano; hesitar também; apagar frases, mudar ideias e procurar palavras de várias maneiras faz parte da experiência de pensar.

Se calhar uma máquina escreve um poema perfeito, mas ainda não sente e será assustador se um dia sentir o silêncio depois de uma discussão, o nervosismo antes de uma despedida ou o peso de certas memórias.

E talvez seja aí que o ser humano continue a ganhar. Não na velocidade, não na eficiência, mas sim na imperfeição.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

O Chamado

A vida comum de uma médium clarividente, não é algo agradável mas sim marcada por noites em claro e a sensação constante de estar sendo observada . De modo que o sentimento de medo se faz presente em vários ocasiões onde não há perigo eminente. Onde as pessoas não acreditam. As que tem um leve conhecimento romantisam e pessoas que de facto vivem a espiritualidade tem a certeza que não é nada fácil e reconhecem o pesso que se  carrega.

Nunca fui uma menina comum, por mais que sempre levei uma vida relativamente comum . Desde criança tive contacto com o mundo espiritual e quanto mais conheço do assunto mais próxima quero estar de Deus . O chamado veio quando eu era criança, onde sempre brincava com amigos que mais ninguém via e sussurravam coisas que iriam acontecer e por incrível que seja de acreditar, eles sempre estavam certos.  

Na minha infância íamos nas Segundas, Quartas e Sextas num lugar chamado Racionalismo Cristão , era como um centro espírita. Gerido por alguns médiuns . E ali eu vi tantas coisas que se eu contar não acreditariam.

Desde de pequenina eu via vultos , mas o auge dessas aparições foi nos meus 15 anos , onde o meu estado de espírito estava muito baixo e minha vontade de viver menos ainda, eu tinha várias paralesias do sono e o mais marcante foi o homem da capa preta e com um chapéu pontiagudo ,ele era  preto e parecia que segurava uma bengala. Ele ficou parado na porta do meu quarto me encarando , ele não se mexia mas também não quebrava o contacto visual. Eu não sentia medo e  não conseguia me mexer, nem emitir nenhum unico son. Consegui sair do transe e corri para o quarto da minha mãe.

Apartir dali as coisas se intensificaram , passei a vê-los mesmo durante o dia . Ate que eu tinha crises de pânico só de imaginar dormir sozinha.  Durante as paralesias eu sentia toques  e o meu corpo inteiro ficava dolorido , tinha noites que me tiravam da cama e jogavam de volta com certa brutalidade. 

Há silêncios que pesam mais do que  gritos. Naquelas noites o ar do quarto ficava gelado,tão denso que respirar parecia rasgar os pulmões. Eu sabia que eles vinham mesmo antes de os ver. Era o son do chão que não rangia sob passos reais , o eco de sussurros que não passavam pelos ouvidos, mas que ecoavam diretamente dentro da minha mente , frios e malévolos. Sentir garras invisíveis apertar me o pescoço enquanto minha voz morria na garganta , ensinou me o verdadeiro significado de desespero . 

Não era apenas um pesadelo, era a certeza absoluta, de que no escurro , eu nunca estava sozinha . E o pior de tudo ? Eles sabiam que eu conseguia ver .

Para tentar livar me dessa perseguição espiritual , comecei a estudar o mundo espiritual e como funcionava. Ao adquirir este conhecimento comecei a sair do transe e voltar a realidade e o mais difícil foi fechar o meu corpo de modo que eles não consigam controlar minha mente .

Hoje em dia nada me apavora e sempre sei oque dizer para afastar os obsessores de perto de min. Eles são seres que não aceitaram a sua própria morte , e se agarram aos vivos porque é a única forma de se aproximarem da luz. Podem ter contas pendentes ou possuem muita magua ou maldade . Porém é sempre melhor os manter longe .

Quando sentires que estas demasiado angustiado , cansado , ou extressado sem motivo aparente pode ser que es vítima de um obsessor , então muito cuidado com o que fazes e o que falas , porque não sabes quem ou oque te acompanha.  O mundo espiritual é real e tudo aqui , reflete la . 

Este conhecimento no entanto, não veio para eu me tornar superior ou para que eu vivesse com medo . Pelo contrário.  Hoje , compreendo que a mediunidade é uma ferramenta de serviço, um canal para levar equilíbrio e auxiliar na transição de almas que, por vezes ,se perdem . 

Fechar o corpo , não significa fechar o coração,e sim , sentir e filtrar oque permitimos que nos toque . A minha jornada transformou o medo em propósito, e assim , sigo .

Arlinda do Rosário 



A pandemia das opiniões

 

Hoje em dia, toda a gente tem opinião sobre tudo.
Não interessa se percebe do assunto ou não, o importante é falar primeiro e pensar depois. Às vezes nem o pensar chega a acontecer.

Antigamente, para alguém dar opinião em público, era preciso estudar, investigar ou, no mínimo, saber do que estava a falar. Hoje basta ter internet, duas horas livres e coragem suficiente para escrever: “Vou ser cancelado por dizer isto, mas…”.

E o mais impressionante é a velocidade.
Ainda uma notícia acabou de acontecer e já existem especialistas em política, medicina, futebol, guerras internacionais, tudo na mesma caixa de comentários. Há pessoas que conseguem analisar conflitos mundiais enquanto comem cereais e discutem no WhatsApp sobre onde jantar logo à noite. Um talento impressionante.

Parece que ficar calado virou sinal de fraqueza. Se acontece alguma coisa no mundo, dá a ideia que há uma pressão para comentar, repostar, indignar-se e escrever textos enormes como se o planeta estivesse à espera daquela opinião para continuar a rodar.

E claro, ninguém diz apenas “não sei”.
Essa expressão está praticamente em vias de extinção. Hoje prefere-se inventar, exagerar ou repetir a opinião de alguém famoso, mas com palavras diferentes, para parecer original.

O problema nem é existirem opiniões. Isso sempre existiu. O problema é a necessidade quase doentia de opinar sobre absolutamente tudo. Um vídeo de um gato a cair de uma cadeira já é suficiente para gerar debates filosóficos sobre a sociedade atual.

Toda a gente quer responder, corrigir, ensinar ou ganhar a discussão. Pouca gente quer realmente perceber, talvez o silêncio hoje incomode tanto porque obriga as pessoas a fazer uma coisa que já não praticam muito, pensar antes de falar.

 

O Banco da Praça

Existe, no centro da minha cidade, um banco de jardim que parece guardar segredos. Não é diferente dos outros: tem a tinta já gasta pelo tempo, algumas marcas feitas por mãos distraídas e está debaixo de uma árvore antiga. Ainda assim, quem passa por ele sente que há algo especial naquele lugar.


Dizem os mais velhos que aquele banco escuta histórias há dezenas de anos. Já ouviu risos de crianças, promessas de namorados, desabafos silenciosos e até lágrimas escondidas ao cair da noite. É como se cada pessoa que ali se sentasse deixasse um pedaço de si, uma memória invisível presa entre a madeira envelhecida.


Certa tarde, decidi sentar-me ali por curiosidade. O movimento da praça continuava à minha volta, mas naquele banco havia uma estranha sensação de calma. Fechei os olhos por um instante e imaginei quantas vidas já teriam passado por ali, quantos sonhos começaram ou terminaram naquele mesmo lugar.


Enquanto pensava nisso, reparei numa pequena inscrição gravada num dos cantos: “Volto sempre.” Eram apenas duas palavras, mas carregavam um mistério enorme. Quem as teria escrito? Alguém que partiu e prometeu regressar? Alguém que encontrou naquele banco um refúgio para os dias difíceis?


Desde esse dia, passei a olhar para aquele banco de forma diferente. Percebi que, por vezes, os lugares mais simples guardam as histórias mais bonitas. Nem sempre são precisos grandes monumentos para marcar a memória de uma cidade; às vezes, basta um velho banco de praça e a imaginação de quem nele se senta.


Hoje, sempre que passo por lá, sorrio. Gosto de pensar que ele continua a colecionar histórias, à espera de novos visitantes. E talvez, sem perceber, eu também já tenha deixado ali um pequeno pedaço da minha.



Tamir Varela

sexta-feira, 15 de maio de 2026

A pressão das notas na vida dos estudantes

   Há uma pergunta que nos acompanha a nós estudantes durante o ano letivo: “Que nota tiveste?”. Raramente nos perguntam se aprendemos alguma coisa interessante, se gostamos  da matéria ou se sentimos  curiosidade por um determinado tema. O que parece importar, muitas vezes, é apenas o número que aparece no teste.

As notas tornaram-se uma espécie de cartão de visita dos alunos. Um valor elevado é motivo de elogios e orgulho; uma classificação mais baixa pode gerar desilusão, críticas e comparações. Assim, sem dar-mos  conta, a escola transforma-se num espaço onde o sucesso é medido por números e não pelo conhecimento adquirido.

Esta realidade cria uma pressão constante. Muitos jovens vivem preocupados com os testes, os trabalhos e os exames, com medo de não corresponder às expectativas dos pais, dos professores ou até das nossas próprias ambições. Há quem passe noites em branco  a estudar, quem abdique de momentos de lazer e quem sinta ansiedade com medo de falhar.

É verdade que as notas têm a sua utilidade. Permitem avaliar o nosso desempenho e identificar dificuldades. No entanto, quando passam a ser o único objetivo, corre-se o risco de esquecer aquilo que deveria estar no centro da educação: a aprendizagem. Afinal, decorar matéria para um teste não significa necessariamente compreendê-la.

Além disso, cada estudante tem o seu ritmo, as suas capacidades e os seus desafios. Comparar constantemente resultados pode ser injusto e desmotivador. Uma nota não revela o esforço investido, as dificuldades superadas ou a evolução alcançada ao longo do tempo.

Talvez esteja na altura de olhar para as classificações com mais equilíbrio. O sucesso escolar é importante, mas não deve definir o valor de uma pessoa. Os estudantes são muito mais do que os números que aparecem numa pauta. São jovens que aprendem, erram, crescem e constroem, todos os dias, o seu próprio caminho.

No fim de contas, a pergunta mais importante talvez não seja “Que nota tiveste?”, mas sim “O que aprendeste hoje?”.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

O FOGO QUE FAZ ESQUECER

O primeiro sinal que aparece nem sempre é o fogo.

Às vezes é apenas o cheiro.


Um cheiro estranho no meio do ar quente de agosto, misturando com um vento seco e silêncio. Depois começa aparecer as mensagens nos telemóveis, os helicópteros no céu e as sirenes ao longe. E entramos na fase em que Portugal fica num estado de ansiedade coletiva que já conhece muito bem.


Todos os verões, o país parece transformar-se num rastilho que simplesmente está a espera de uma faísca.

Existe algo profundamente triste na forma como ficamos habituados aos incêndios florestais.

Falamos deles no verão como quem fala do calor ou da praia, quase como se fosse tradição da estação. Junho traz as festas populares, agosto traz os emigrantes e no meio disto chegam as chamas. Como se já fizesse parte da identidade do nosso país.


Mas não pode ser assim.

Uma floresta não arde apenas sozinha


Por trás de cada incêndio existe abandono, existe aldeias vazias onde antes havia pessoas a cuidar da terra. Existe as serras entregues ao mato, os caminhos esquecidos, os terrenos sem dono e as políticas adiadas ano após anos. O fogo nasce muitas das vezes antes da primeira chama.


Mas quando começa, até ganha vida própria.


As labaredas sobem encostas como se fossem animais famintos. O vento transforma pequenos focos em monstros impossíveis de controlar, a noite fica laranja e o céu deixa de "existir". Há famílias a molhar telhados às três da manhã, idosos a abandonar as suas casas, crianças a olhar para o horizonte com medo de algo que ainda não compreendem.


E no meio disto tudo, surgem os bombeiros.


Homens e mulheres comuns entram no inferno enquanto todos fogem dele.


Existe qualquer coisa de cruel na relação que o país tem com os bombeiros. São apenas relembrados quando precisamos de heróis. Durante o verão são considerados orgulho nacional, aparecem na televisão, recebem aplausos, homenagens e discursos, mas depois vem o inverno e com a chuva o país acaba por voltar a esquecer.


Secalhar o maior problema dos incêndios em Portugal seja a memória curta.

Ardemos depressa e esquecemos ainda mais depressa.

São prometidas mudanças quando vemos montanhas negras na televisão, dizemos sempre que será diferente no próximo ano, mas os meses passam e a urgência desaparece e tudo fica igual. A floresta continua desordenada, o país continua a reagir ao fogo em vez de o prevenir.


E talvez seja isso o mais assustador, não o fogo em si, mas a normalidade com que olhamos para ele.

Um país que se habitou a ver as suas florestas sempre a arder corre o risco de começar também deixar arder a sua responsabilidade, a sua memória e a sua consciência.


A floresta portuguesa não pede pena

Pede cuidado antes das chamas, e não as lágrimas depois das cinzas

 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Entre o barulho e o silêncio

A cidade cansa-me. O interior também.

Na cidade, tudo parece acontecer depressa demais. Há sempre barulho, trânsito, pessoas atrasadas e a sensação constante de que nunca há tempo suficiente para nada. Vive-se no automático. Acordar, sair, voltar, repetir. No meio de tanta gente, acaba por existir uma estranha sensação de solidão.

Durante muito tempo, achei que precisava de fugir disso tudo. E talvez por isso o interior parecesse tão reconfortante. O silêncio, a calma, as ruas vazias, o ritmo lento. Há qualquer coisa nas pequenas vilas que nos faz respirar de forma diferente, como se a vida ali tivesse menos pressa de acontecer.

Mas o problema é que o silêncio também se torna cansativo. Ao início sabe bem não ouvir carros nem confusão, mas, passado algum tempo, parece que nada acontece. O tempo passa devagar demais. Há uma sensação constante de estar longe de tudo, quase como se o mundo continuasse a andar sem nós.

E talvez seja isso que mais me intriga. Quando estou na cidade, só penso na tranquilidade do interior. Quando estou no interior, começo a sentir falta do movimento da cidade. Como se nenhum dos dois fosse suficiente durante muito tempo.

Passamos a vida a idealizar o lado oposto daquele onde estamos. A cidade parece excessiva até chegarmos ao silêncio. O interior parece tranquilo até se tornar vazio. E, no meio disso tudo, acabamos presos entre dois extremos que, de formas diferentes, nos cansam na mesma.

Talvez o problema nunca tenha sido a cidade ou o interior. Talvez o problema seja esta necessidade constante de procurar noutro lugar aquilo que, por muito tempo, nunca conseguimos encontrar completamente em lado nenhum.

Inês Garção



terça-feira, 12 de maio de 2026

Demasiado Novos para Ter Medo das Rugas

Há qualquer coisa de profundamente estranha no facto de uma criança de dez anos saber distinguir um sérum antioxidante de um creme hidratante enquanto continua, provavelmente, sem perceber bem como funcionam os impostos ou porque é que temos de estudar frações. Ainda assim, ali estão elas, no Instagram, diante de um espelho iluminado por um aro de luz maior do que a própria autoestima, a explicar ao mundo a importância de “cuidar da pele desde cedo”.

Desde cedo. Como se a infância tivesse prazo de validade.

Ultimamente, o algoritmo decidiu oferecer-me vídeos de crianças com rotinas de «skin care» mais complexas do que o meu currículo académico. Há máscaras faciais, «patches» para olheiras inexistentes, massagens com pedras frias retiradas de um congelador que provavelmente devia guardar apenas douradinhos e gelo para Coca-Cola. Tudo apresentado com uma calma quase profissional, como se a miúda não tivesse acabado de aprender a divisão silábica há meia dúzia de meses.

E eu fico sempre com a sensação de que a própria pele da criança deve estar em pânico. Uma pele lisa, impecável, praticamente acabada de sair da fábrica, a levar com tratamentos «anti-idade» como quem tenta salvar um edifício em ruínas.

O mais curioso é que isto já nem parece extraordinário. Tornou-se manso, banal, quase esperado. Há uma geração inteira a crescer convencida de que envelhecer é uma tragédia que deve ser combatida antes mesmo de existir. E talvez seja essa a parte mais triste: crianças a herdarem inseguranças que nem sequer tiveram tempo de desenvolver sozinhas.

Claro que cuidar da aparência não é um problema. Todos gostamos de nos sentir minimamente apresentáveis. Há um certo prazer em sair de casa sem parecer um saco de roupa esquecida num canto do quarto. O problema começa quando o cuidado deixa de ser bem-estar e passa a ser performance. Quando cada gesto é pensado para ser filmado, publicado e avaliado por desconhecidos que distribuem aprovação através de corações digitais.

Porque já não basta existir. Agora é preciso existir de forma esteticamente convincente.

E os pais? Bom, os pais parecem assistir a tudo isto com o entusiasmo de quem descobriu um talento precoce. Antigamente havia crianças-prodígio ao piano; hoje há especialistas em contorno facial no quinto ano de escolaridade. Não tarda muito e teremos miúdos a pedir ácido hialurónico como presente de aniversário enquanto os avós tentam perceber porque é que a criança precisa de “hidratação intensiva” aos onze anos.

O argumento utilizado costuma ser sempre o mesmo: “Ela diverte-se”. E acredito que sim. Uma criança diverte-se facilmente. Também se divertiria a comer gelados ao pequeno-almoço durante um mês seguido ou a atravessar a rua sem olhar para os lados. A capacidade infantil de gostar de uma coisa nunca foi um grande critério educativo.

Mas há uma diferença entre brincar e aprender a transformar a própria imagem num produto. Porque é isso que muitas destas redes sociais incentivam: uma espécie de mercado permanente da aparência, onde até a infância começa a ser tratada como uma montra.

E depois existe aquele detalhe inquietante que raramente entra nas conversas mais panfletárias sobre “liberdade criativa” nas redes: a internet não é um recreio supervisionado. É um espaço caótico, por vezes cruel, onde basta um comentário infeliz para ficar alojado na cabeça de alguém durante anos. Um adulto já pode ter dificuldade em lidar com julgamento constante; imaginar uma criança a crescer dependente dessa validação parece-me um caminho perigosamente escasso em equilíbrio emocional.

Talvez o mais irónico seja que tudo isto acontece em nome da autoestima, quando na verdade parece produzir exatamente o contrário. Quanto mais alguém aprende a medir o seu valor pela reação dos outros, mais distante fica da possibilidade de gostar genuinamente de si próprio. É uma corrida impossível de ganhar, porque a perfeição da internet funciona como o horizonte: parece estar ali à frente, mas afasta-se sempre mais um bocadinho.

E no meio disto tudo há crianças que talvez só precisassem de fazer aquilo que crianças sempre fizeram bem: brincar, cair, sujar-se, ter fases constrangedoras e cortes de cabelo duvidosos sem que isso fique eternamente arquivado numa plataforma digital.

Pode ser uma visão antiquada da minha parte. Talvez daqui a uns anos seja perfeitamente normal uma rotina antirrugas antes dos trabalhos de casa. Talvez existam mochilas escolares com compartimentos próprios para séruns e água micelar. Mas, sinceramente, continuo a achar estranho que haja crianças preocupadas em parecer eternamente jovens numa fase da vida em que ainda deviam estar apenas preocupadas em ser crianças.

As Raízes que Trago Comigo

Nasci em Lisboa, entre o barulho dos elétricos, o cheiro do café acabado de tirar e a pressa das pessoas que nunca param. Cresci numa cidade cheia de vozes diferentes, onde cada rua parece guardar uma história antiga. Há dias em que Lisboa parece pequena, quase uma aldeia. Outros dias, parece um mundo inteiro.

Tenho 20 anos e, apesar de ainda me sentir no início de tudo, já carrego muito da cidade em mim. Aprendi cedo a olhar para o Tejo como quem procura respostas. Há qualquer coisa naquele rio que acalma. Talvez porque continua sempre ali, mesmo quando tudo muda.

As minhas origens não vivem apenas no lugar onde nasci. Vivem também nos hábitos pequenos. No pão quente ao domingo. Nas conversas demoradas à mesa. Na maneira como os portugueses reclamam de tudo, mas defendem o seu país com orgulho quando alguém de fora o critica. Vivem na saudade que aparece sem aviso e naquela mania de dizer “logo se vê”, mesmo quando o futuro assusta.

Lisboa ensinou-me a andar depressa, mas também a parar. Ensinou-me a ouvir histórias de pessoas diferentes e a encontrar beleza nas coisas simples. Nas roupas estendidas nas varandas, nos miradouros cheios ao fim da tarde, nos músicos de rua que transformam o silêncio em companhia.

Às vezes penso que crescer em Lisboa é aprender a viver entre o antigo e o novo. Entre prédios velhos e sonhos modernos. Entre a tradição e a vontade de partir para conhecer mais. Talvez por isso muitos jovens da minha idade sintam uma ligação estranha à cidade: queremos sair, mas levamos sempre Lisboa connosco.

As minhas origens são feitas disso tudo. Da cidade onde nasci, da língua que falo, das pessoas com quem cresci e das memórias que ainda estou a construir. E mesmo sem saber exatamente quem vou ser daqui a uns anos, há uma coisa que sei, haverá sempre um pedaço de Lisboa na pessoa em que me tornar.

Ser portuguesa também é carregar uma certa nostalgia sem explicação. É sentir saudade até de momentos que ainda não acabaram. É ouvir certas músicas e sentir imediatamente vontade de voltar a casa. Acho que Portugal tem isso: transforma as memórias em sentimentos difíceis de explicar.

Hoje olho para Lisboa de outra forma. Já não é apenas a cidade onde cresci. É quase uma parte da minha personalidade. Está na maneira como falo, na forma como observo os outros e até no silêncio que às vezes prefiro guardar. E, mesmo que um dia saia daqui, sei que vou procurar Lisboa em muitos lugares. Noutras cidades, noutras pessoas, noutras versões de mim.

Porque as origens ficam sempre connosco. Mudamos de idade, de sonhos e até de caminho, mas há lugares que continuam a viver dentro de nós. Lisboa será sempre um desses lugares para mim.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

A chuva que muda o humor

 

A chuva tem uma estranha capacidade de transformar as pessoas. As ruas ficam mais silenciosas, os passos mais rápidos e os pensamentos mais altos. Num dia de sol, o mundo parece empurrar-nos para fora de casa, num dia de chuva, empurra-nos para dentro de nós próprios.

A chuva abranda tudo, as ruas tornam-se mais lentas, os cafés ganham vida e as janelas passam a ser lugares de observação silenciosa. Nos dias de chuva, até o relógio parece andar mais devagar.

Curiosamente, a chuva não afeta toda a gente da mesma forma, há quem fique triste e preso em memórias antigas (como é o meu caso). Outros sentem conforto. Há pessoas que adoram ouvir a chuva cair enquanto bebem café ou ficam enroladas numa manta a ouvir música calma. Como se o mau tempo desse autorização para descansar da pressão constante de ter de estar sempre bem, sempre produtivo, sempre ocupado.

Em criança, a chuva tinha outro significado. Era sinónimo de poças de água, botas molhadas e desculpas para faltar ao recreio. Hoje, quase sempre, significa trânsito, roupa encharcada e guarda-chuvas esquecidos. Talvez crescer seja também isto, deixar de ver magia na chuva e começar a ver inconveniência.

Mas, mesmo assim, há qualquer coisa nela que continua especial. Talvez porque a chuva nos obriga a parar por alguns segundos. Obriga-nos a olhar pela janela, a ouvir o silêncio entre as gotas, a pensar em coisas que normalmente evitamos no meio da correria dos dias normais. Num mundo onde tudo acontece depressa demais, a chuva cria um intervalo.

E talvez seja exatamente por isso que ela muda o humor. Não porque traga tristeza, mas porque traz reflexão. No fundo, a chuva não cai apenas sobre as cidades, cai também sobre as memórias.

Queria voltar a ser "Eu"

Eu queria voltar a uma vida que não me pertence mais , reviver experiência passadas e me expressar sem ter medo do julgamento do próximo , viver de forma livre e espontânea.

Conviver com os meus pais como se eu só dependesse deles para ser feliz , amar intensamente  e ser amada da mesma forma. Ser tocada por mãos cuidadosas e respeitosas .A minha família me fazia sentir como se eu fosse uma pequena diamante ,completamente frágil.

A minha lembrança favorita da infância, é e continua a ser a paciência que o meu amado avô tinha comigo . Recordo do cheiro dele , da melodia da sua gargalhada e da beleza do seu sorriso. Ele vestia sempre camisa de botões com uma camisola de interior branca , eu adorava posicionar me entre as suas pernas e desabotoava os botões da camisa e abotoar lhes de volta repetidas vezes, ele não se zangava, pelo ao contrário continuava sempre com a sua expressão serena e calmo . 

Eu vivia uma vida feliz , os almoços de domingo na casa dos avós, que eu os chamo carinhosamente de mama e papa , com toda a família reunida , só de lembrar consigo sentir o cheiro de casa , eu e meus primos corríamos a casa inteira e riamos de histórias que era suposto não intendermos , onde a nossa maior diversão era subir em árvores e fazer bolos de lama . Eu nunca fui tão feliz como eu era numa quarta qualquer na minha infância. 

De vez em quando, pego me rindo com as lembranças que tenho de casa e sinto um enorme orgulho de onde eu vim. O estranho é sair de um lar barulhento e ter que lidar com o silêncio de estar só , à um mar de distância daqueles que moldaram a sua personalidade. 

Lembro me de como tudo era  fácil na infância, onde minha maior preocupação era acordar cedo no fim de semana para assistir desenhos animados na tv, acompanhada com um leite quentinho de Nesquik , e a casa silenciosa pois todos ainda dormiam. Essa era a maior felicidade de uma criança.  

Não consigo me lembrar da última vez que brinquei de boneca , mas me lembro quando deixei de ser criança.  Aos catorze anos , passei pelo maior perda que já vivi ate agora . Perdi o meu papa , meu querido avô. E o mais triste é que já não consigo me lembra da sua voz, a mesma que me contava histórias e me repreendia quando necessário. 

Desde esse dia , nunca mais fui a mesma. O luto é uma ferida que continua aberta , nós só aprendemos a conviver com a dor, e o buraco que deixa não se preenche com nada . 

Acredito que há pessoas que simplesmente a convivência cria a conexão e há outras que parece ser o encontro entre duas almas que se amaram através das reencarnações . O vazio deixado por essas pessoas, não têm palavras que sejam capazes de o descrever. 

A inocência de acreditar que quando eu crescer tudo iria ser diferente, viviria aventuras novas todos os dias . De facto tudo é diferente, creio que varia pela forma que se vê o mundo e as experiências ja vividas. 

Para minha amada infância , não sei porque quiz eu tanto te deixar , se foi contigo que vivi o melhor da vida . 

Arlinda do Rosário. 


Entre o Silêncio e a Pressa

Viver na aldeia ou na cidade é, no fundo, escolher o tipo de silêncio que queremos ouvir.

Na aldeia, o silêncio é diferente: o som do galo a cantar, que para muitos serve de despertador; o vento que passa pelas árvores; e o caminhar daqueles que nela vivem e que se cumprimentam sempre. O tempo parece ser maior, como se os dias tivessem mais horas, só para haver mais um pouco de conversa entre os vizinhos ou mais um café, que nem sempre é “só um café”.

Na cidade, o silêncio é de outra maneira. É coisa rara e, maioritariamente, para alguns, um luxo. Vive-se num misto de acontecimentos: buzinas, telefonemas, notificações e pessoas com muita pressa, como se andassem sempre atrasadas para os seus compromissos. Aqui, poucas são as pessoas que se conhecem, ao contrário das aldeias, onde toda a gente praticamente se conhece, e, às vezes, possa parecer estranho, pode ser um alívio. Há liberdade no anonimato, na possibilidade de sermos só mais um no meio da multidão.

A vida na aldeia é completamente diferente: toda a gente sabe a vida de todos. Todas as pessoas que moram na aldeia sabem quando saímos, quando chegamos e até quando mudamos de humor. Pode parecer um pouco invasivo, mas existe sempre aquela pessoa que repara quando já não aparecemos há dias. São memórias coletivas, histórias repetidas à lareira, os nomes que passam de geração em geração, lugares que ficam iguais, como se fossem resistentes ao tempo.

Na cidade, se lá não formos há dias, ninguém dá conta, e os dias tanto podem ser solidão como paz. Mas a cidade não tem só coisas más: é lá que podem existir novas oportunidades, novos encontros, novas versões de cada um de nós. A cidade reinventa quem somos, mesmo sem aviso.

E o tempo na aldeia é diferente: ele passa devagar, mesmo muito devagar. Aprendemos a esperar — pela colheita, pelas estações, pela chuva. Já na cidade, o tempo passa tão depressa que nem damos conta, por vezes, das coisas. A vida é vivida entre horários, agendas e alarmes.

Na aldeia, temos detalhes que só lá se podem sentir e ver: as noites escuras, com o céu estrelado, que parecem próximas de nós. As luzes apagam o céu na cidade, mas é lá que temos ideias, ambições e sonhos. Num lugar aprendemos a olhar para cima; no outro, a manter os olhos no horizonte.

A verdadeira diferença não está só no sítio, mas no ritmo que tomamos. Existem pessoas que precisam de barulho para se sentirem vivas; há quem encontre isso no som das folhas a mexer. E há até quem goste de viver nestes dois mundos, levando a calma da aldeia para a correria da cidade.

No final disto tudo, escolher entre viver na aldeia ou na cidade é apenas uma escolha geográfica e de respiração: se queremos inspirar fundo devagar ou respirar no meio da multidão.

E talvez o maior desafio seja esse: perceber que, onde quer que estejamos, estamos sempre à procura da mesma coisa, um lugar onde a vida faça sentido, mesmo nos dias mais comuns.

 

domingo, 10 de maio de 2026

A geografia do meu coração: cinco anos dentro das quatro linhas

Amarmos um desporto anos a fio torna-se parte de nós. Amarmos um desporto sem perder o brilho e a felicidade por cada jogo é um amor sentido do início ao fim. E eu amo um desporto. E ele chama-se voleibol. Talvez o ame porque sempre joguei com uma equipa que eram mais do que meras colegas de equipa. Talvez o ame porque joguei alguns anos. 

Mas a verdade é que, depois de tanto tempo, o voleibol já não é algo que eu apenas faço porque gosto, é o lugar onde eu existo com mais verdade. É curioso como o nosso corpo guarda memórias que a cabeça, às vezes, esquece. Mesmo depois de anos, o toque da bola nos braços ainda desperta o mesmo formigueiro elétrico. A rede, vista de baixo, continua a parecer um desafio que exige o melhor de mim, e o som da bola a bater no chão depois de um ataque certeiro ainda é a minha melodia favorita.

E as minhas colegas... elas são o arquivo vivo desta história. Partilhámos joelheiras rotas, vitórias choradas e derrotas que nos ensinaram a crescer mais do que qualquer manual de tática. Os treinadores mudaram, a equipa mudou e os esquemas táticos evoluíram, mas a união permaneceu como a única constante. No entanto, houve um momento em que achei que essa linha se ia partir. Lembro-me, como se fosse hoje, do meu último jogo no secundário. Estávamos no Regional, frente a frente com as melhores equipas, e o peso da rede parecia maior do que nunca. Quando o último ponto caiu contra nós, o chão pareceu fugir-me. Chorei. Chorei horrores, eu e mais umas quantas. Não era apenas pela derrota no marcador, era pela despedida. Era o nosso último jogo juntas antes da dispersão da universidade. Doeu muito pensar que não ia mais jogar com elas, as minhas miúdas. Chorei até chegar a casa, com o coração apertado de uma criança pequena que se recusa a largar o seu brinquedo favorito. Naquele dia, a dor de dizer adeus à equipa era maior do que o cansaço do jogo. Mas a vida, tal como um set difícil, dá-nos a oportunidade da recuperação.

Hoje, a caminho do meu quinto ano consecutivo a jogar, agora na universidade, percebo que aquele choro foi o adubo para o que sinto hoje. Jogo há quatro anos e olho para trás e vejo o quanto evoluí. Comecei sem saber dar um toque básico e hoje ocupo o meu lugar como líbero, a alma defensiva, aquela que se atira ao chão para que a bola e o sonho não morram.

O voleibol é um desporto longo, de paciência. Não se aprende em meses, nem se domina em anos. Mesmo agora, sei que há um universo por aprender, mas é essa busca constante que me mantém viva. Sinto cada ponto como se fosse o último, sinto cada defesa como um ato de resistência. É uma paixão, uma consistência, um amor que perdura.

Hoje, sinto cada treino como um processo de crescimento bruto. É ali que ganho a garra que levo para a vida, aquela vontade de não deixar nada cair. E quando chega o dia do jogo? Que privilégio é sentir o corpo ansioso, o estômago às avessas e o coração acelerado. Há quem fuja dessa pressão, mas eu abraço-a. Que bom que é sentir o sangue a correr nas veias desta maneira. Que sorte a minha ter algo que me faz vibrar assim. 


No final das contas, ser líbero é a metáfora perfeita para o que sinto por este desporto. É estar ali, no rés do chão, a ver o mundo de uma perspetiva que poucos compreendem. O voleibol ensinou-me que cair não é o fim, mas sim o início de uma nova jogada. Olho para as minhas mãos e vejo a história destes cinco anos. Vejo as marcas das bolas defendidas e sinto o peso das memórias. O amor pelo voleibol é um compromisso que assinei com a minha própria felicidade. É a certeza de que, enquanto houver uma bola no ar, eu terei um propósito. 


O voleibol é a batida do meu coração traduzida em jogo. Uma paixão que me faz sentir viva a cada toque e que nunca, em momento algum, deixará a bola cair.


sexta-feira, 8 de maio de 2026

A dieta do quase

 No dicionário de um estudante deslocado, a palavra "gastronomia" foi substituída pelo "desenrasque". A nossa é a dieta do quase: quase saudável, quase saborosa e, no final do mês, quase inexistente. Cozinhar num quarto alugado é um exercício de equilíbrio entre o que a bolsa permite e o que a paciência dita após um dia cheio de aulas.

O protagonista desta aventura é, invariavelmente, o atum. O amigo enlatado que é o suporte emocional de qualquer licenciatura, capaz de casar com a massa esparguete em segundas-feiras de preguiça ou com o arroz em terças-feiras de desespero. É uma dieta monocromática, onde o vermelho do molho de tomate de pacote tenta, em vão, disfarçar que estamos a comer a mesma coisa pela quarta vez consecutiva.

Há também o ritual dos "tupperwares" que chegam no domingo. Aquela bolonhesa congelada ou o rissol da avó são relíquias sagradas, geridas com precisão para que o luxo dure, pelo menos, até quarta-feira. Depois disso, entramos na fase do "quase": quase que dá para fazer uma omelete com aquele ovo solitário, quase que aquele pão endurecido se torna numa torrada gourmet.

Sobrevive-se ao café de máquina, que sabe a plástico e a noitadas de estudo, e a pizzas de supermercado que prometem prazer. No fundo, a dieta do quase não alimenta o corpo, alimenta a história. Um dia, seremos adultos com frigoríficos cheios, mas sentiremos falta da adrenalina de fazer um banquete com pouco mais do que fome e imaginação.

Beatriz Maia nº26858 

O Amor na Era do "Visto por Último"

       Namorar já teve as suas regras bem definidas. Houve um tempo  que hoje parece saído de um romance histórico em que namorar envolvia e...