segunda-feira, 4 de maio de 2026

Quando brincar não precisava de bateria


Já lá vai o tempo em que a melhor notificação era a voz da minha mãe a chamar da janela para ir jantar. Vinha quase sempre no pior momento possível, quando o jogo ainda não tinha acabado e ninguém queria ser o primeiro a ir embora.

As tardes eram longas, andávamos sempre sujos de terra e cheios de imaginação. Um pau para nós era uma espada, uma bola meia vazia era o suficiente para um jogo inteiro, e qualquer rua se transformava num campo.

Hoje, as crianças têm tudo, menos isso.

Têm tablets, consolas, telemóveis, jogos… Mas, de alguma forma, parece que lhes falta espaço para criar o seu próprio mundo. Já não precisam de imaginar, porque já está tudo feito.

Antes, perdíamos a noção do tempo. Agora, controlamos o tempo ao segundo. Antes, um “já vou” podia durar horas. Hoje, um atraso de cinco minutos já é o fim do mundo.

Na rua, discutíamos, ríamos, fazíamos as pazes. Ao vivo. Sem emojis para amenizar palavras nem ecrãs para esconder expressões.

Não posso dizer que “antigamente era melhor” porque cada um tem a sua opinião, para mim era, sem dúvida. Talvez não fosse. Mas era diferente, era tudo tão simples, uma liberdade inexplicável.

O problema não é as crianças de hoje crescerem com tecnologia, coitadinhas não têm culpa. O problema talvez seja nós termos crescido sem ela e sabermos perfeitamente o que ficou para trás.

Porque, no fundo, há memórias que nenhum dispositivo consegue guardar, só quem as viveu é que as pode carregar.

 

O Espetáculo do Supérfluo

Há qualquer coisa de fascinante (e profundamente embaraçosa) na forma como os reality shows se tornaram o espelho preferido da sociedade. Não um espelho límpido, claro, mas daqueles de feira popular que distorcem tudo: ampliam egos minúsculos, encolhem inteligência e esticam conflitos até ao absurdo.

A promessa é sempre a mesma: “vida real”. Ora, se aquilo é vida real, então andamos todos a viver muito mal, porque me parece que a maioria das pessoas não passa os dias a discutir por causa de um iogurte desaparecido ou a elaborar estratégias maquiavélicas para decidir quem lava a loiça. A não ser, claro, que haja um prémio de 50 mil euros no fim, nesse caso, admito que até eu considerasse trair um aliado por uma omelete.

O mais curioso é o empenho quase científico com que os concorrentes analisam emoções básicas. Uma conversa banal transforma-se numa tese de doutoramento em ressentimento: “Eu senti que tu sentiste que eu senti…” e assim sucessivamente, num loop emocional digno de estudo académico. Freud teria material para décadas, embora provavelmente desistisse ao terceiro episódio.

Depois há a figura do “estratega”, essa criatura que acredita estar a jogar xadrez enquanto, na realidade, participa numa espécie de jogo da glória emocional. Fala em “movimentos”, “jogadas” e “posicionamento”, como se estivesse a disputar uma final olímpica, quando na verdade está a tentar não ser nomeado numa casa onde o maior desafio intelectual é decidir entre arroz ou massa ao jantar.

E nós, espectadores, assistimos. Com pipocas, comentários nas redes sociais e uma estranha sensação de superioridade moral, como quem observa um aquário cheio de peixes particularmente barulhentos. Criticamos, rimos, indignamo-nos e voltamos no dia seguinte para mais. Há aqui uma ironia delicada: ridicularizamos o espetáculo, mas alimentamo-lo com a nossa atenção quase devota.

No fundo, os reality shows são uma espécie de teatro contemporâneo onde o argumento é fraco, a representação é exagerada e, ainda assim, a sala está sempre cheia. Talvez porque, no meio de tanto exagero, encontramos um conforto estranho: perceber que o ridículo não é exceção. É, afinal, um recurso inesgotável da condição humana.

E isso, convenhamos, é ao mesmo tempo trágico… e excelente para audiências.

Quando brincar não precisava de bateria

Já lá vai o tempo em que a melhor notificação era a voz da minha mãe a chamar da janela para ir jantar. Vinha quase sempre no pior momento p...