Há qualquer coisa de fascinante (e profundamente embaraçosa) na forma como os reality shows se tornaram o espelho preferido da sociedade. Não um espelho límpido, claro, mas daqueles de feira popular que distorcem tudo: ampliam egos minúsculos, encolhem inteligência e esticam conflitos até ao absurdo.
A promessa é sempre a mesma: “vida real”. Ora, se aquilo é vida real, então andamos todos a viver muito mal, porque me parece que a maioria das pessoas não passa os dias a discutir por causa de um iogurte desaparecido ou a elaborar estratégias maquiavélicas para decidir quem lava a loiça. A não ser, claro, que haja um prémio de 50 mil euros no fim, nesse caso, admito que até eu considerasse trair um aliado por uma omelete.
O mais curioso é o empenho quase científico com que os concorrentes analisam emoções básicas. Uma conversa banal transforma-se numa tese de doutoramento em ressentimento: “Eu senti que tu sentiste que eu senti…” e assim sucessivamente, num loop emocional digno de estudo académico. Freud teria material para décadas, embora provavelmente desistisse ao terceiro episódio.
Depois há a figura do “estratega”, essa criatura que acredita estar a jogar xadrez enquanto, na realidade, participa numa espécie de jogo da glória emocional. Fala em “movimentos”, “jogadas” e “posicionamento”, como se estivesse a disputar uma final olímpica, quando na verdade está a tentar não ser nomeado numa casa onde o maior desafio intelectual é decidir entre arroz ou massa ao jantar.
E nós, espectadores, assistimos. Com pipocas, comentários nas redes sociais e uma estranha sensação de superioridade moral, como quem observa um aquário cheio de peixes particularmente barulhentos. Criticamos, rimos, indignamo-nos e voltamos no dia seguinte para mais. Há aqui uma ironia delicada: ridicularizamos o espetáculo, mas alimentamo-lo com a nossa atenção quase devota.
No fundo, os reality shows são uma espécie de teatro contemporâneo onde o argumento é fraco, a representação é exagerada e, ainda assim, a sala está sempre cheia. Talvez porque, no meio de tanto exagero, encontramos um conforto estranho: perceber que o ridículo não é exceção. É, afinal, um recurso inesgotável da condição humana.
E isso, convenhamos, é ao mesmo tempo trágico… e excelente para audiências.
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