Já lá vai o tempo em que a melhor notificação era a voz da
minha mãe a chamar da janela para ir jantar. Vinha quase sempre no pior momento
possível, quando o jogo ainda não tinha acabado e ninguém queria ser o primeiro
a ir embora.
As tardes eram longas, andávamos sempre sujos de terra e
cheios de imaginação. Um pau para nós era uma espada, uma bola meia vazia era o
suficiente para um jogo inteiro, e qualquer rua se transformava num campo.
Hoje, as crianças têm tudo, menos isso.
Têm tablets, consolas, telemóveis, jogos… Mas, de alguma
forma, parece que lhes falta espaço para criar o seu próprio mundo. Já não
precisam de imaginar, porque já está tudo feito.
Antes, perdíamos a noção do tempo. Agora, controlamos o
tempo ao segundo. Antes, um “já vou” podia durar horas. Hoje, um atraso de
cinco minutos já é o fim do mundo.
Na rua, discutíamos, ríamos, fazíamos as pazes. Ao vivo. Sem
emojis para amenizar palavras nem ecrãs para esconder expressões.
Não posso dizer que “antigamente era melhor” porque cada um
tem a sua opinião, para mim era, sem dúvida. Talvez não fosse. Mas era
diferente, era tudo tão simples, uma liberdade inexplicável.
O problema não é as crianças de hoje crescerem com
tecnologia, coitadinhas não têm culpa. O problema talvez seja nós termos
crescido sem ela e sabermos perfeitamente o que ficou para trás.
Porque, no fundo, há memórias que nenhum dispositivo
consegue guardar, só quem as viveu é que as pode carregar.
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