quinta-feira, 15 de abril de 2021

Os corajosos da Guerra do Ultramar

            Durante uma conversa com o meu avô, surgiu o tema da Guerra do Ultramar. Contou-me que tinha apenas 21 anos quando foi convocado para combater na guerra pelas colónias portuguesas em Angola. Teve de deixar a sua esposa e uma filha com apenas 1 ano. Não tinha opção de escolha, poderia fugir, mas iria ser procurado e estaria a falhar com o seu dever pela nação, apesar de contar que, muitos conhecidos conseguiram fugir e esconderam-se nas serras da ilha, pois não queriam combater e arriscar as suas vidas, e sejamos honestos, ninguém queria correr o risco de perder a vida. Eram jovens, a maioria deles tinham apenas 20 anos, foram todos obrigados a ir para a guerra, muitos deles terrivelmente assustados, “eu só rezava para sobreviver à guerra e voltar para ao pé da minha família”, disse-me o meu avô ao recordar aqueles tempos terríveis. Imaginem lá, ver uma quantidade imensa de pessoas mortas, e muitas delas conhecidas vossas. Contou, com lágrimas nos olhos, que foi obrigado a assistir à morte do seu mais fiel amigo, levou um tiro em cheio na cabeça e caiu ao seu lado. A guerra é feita de momentos injuriosos, que não desejo ao meu maior inimigo, pelos relatos do meu avô, não chega a ser nem perto do que se vê nos filmes, mostram-nos uma versão romantizada da guerra. Foram 8 290 soldados que deram a vida pela nação portuguesa, outros 100 000 que saíram desta guerra com doenças, e gravemente feridos, física e psicologicamente. Um número esmagador de jovens, com uma longa vida pela frente e com muita coragem para lutar pela pátria.

            Enquanto a conversa decorria, comecei a observar a tatuagem que o meu avô tem no braço, é uma tatuagem que simboliza a guerra, são duas espadas cruzadas, com uma faixa na qual está escrito “ANGOLA 73-75 4912”, perguntei-lhe o porque de ter tatuado aquilo, seria para marcar aqueles anos da vida dele? Ele respondeu-me que fez a tatuagem como uma maneira de “mostrar” às pessoas que foi um dos tais que esteve em campo de batalha pelo país, tatuou os anos que iria estar em combate (que acabou por ser um ano a mais, pois a guerra acabou mais cedo, em 1974) e o número do batalhão. E então surgiu-me a grande pergunta, como é que aquelas tatuagens eram feitas, se na guerra não haviam máquinas para fazer as tatuagens, então, perguntei-lhe como, ao que ele respondeu-me que eram feitas com agulhas normais partilhadas por todos e apenas desinfetadas com a chama de um fósforo, com tinta da china. Devido a esses métodos caseiros de tatuar, muitos soldados desenvolveram infeções e entre outras doenças.

            Estes soldados que foram combater por Portugal foram verdadeiros homens de coragem, que estavam na flor da juventude e que não queriam lutar e arriscar as suas vidas, mas que mesmo assim, não se esconderam, não fugiram e lutaram com toda a sua braveza, muitos sem perceberem muito bem o porquê de estarem ali, mas que no fim de contas contribuíram para a luta do país em tentar recuperar as colónias. Tudo isto só demonstrou o quanto os portugueses são um povo honrado no que toca ao cumprimento dos seus deveres. Todos os portugueses deviam orgulhar-se da grande coragem destes eternos heróis. Apesar de termos perdido a guerra e termos orgulho na nossa pátria, no povo conquistador e heroico que os portugueses foram, e em todos estes jovens soldados, não nos podemos esquecer que este período da história está enquadrado numa ditadura em que a coragem destes jovens não foi um ato deliberado, mas forçado pela necessidade que a obrigação do dever lhes impunha. Nos dias que decorrem, na plena liberdade da nossa democracia é quase impensável e atrevo-me mesmo a dizer, desumano, este tipo de conflitos políticos e territoriais serem resolvidos com guerras onde um número exuberante de vidas humanas se perdiam, chega até a ser bárbaro pensar que obrigaram estes jovens, em nome do dever militar, a fazerem frente a algo que o ser humano mais teme, a morte.


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