Não sei se te recordas, não sei sequer se esta é uma ideia presente no teu imaginário, mas sinto que quando éramos
pequeninos, tínhamos a inevitável tendência de ignorar o que nos diziam. Limitávamo-nos
a ir brincar, a colocar os dedos nos ouvidos ou a fazer caretas, no desejo sincero de que o "Vai
arrumar o quarto", o "Come a sopa" e o "Não tires isso do lugar", vindo da boca dos nossos, não nos
atingisse. Havia uma pequenez que nos assistia, pelo simples facto de fazermos morada numa
realidade distinta, onde a principal condição era deixar de lado tudo o que considerássemos
acessório. (Talvez viesse daí a "Nostalgia da Infância" de que Pessoa tanto falava). Justamente nos
últimos anos, o mundo tem dado um grito tão ou mais audível do que aqueles que teimávamos em
ignorar e adivinha… Embora a vida tenha passado por nós, embora digam que do caminho se faz
aprendizagem, há uma reação que se mantém. Andamos todos a ser gente pequenina. Diariamente,
há um vírus que ocupa espaço e que pode tomar conta do nosso corpo sem darmos conta, há
um mundo demasiado aquecido para em pouco tempo podermos viver nele, há uma guerra a
ocorrer mesmo aqui ao lado… e por tudo isto, acho mesmo que é chegada a hora de percebermos, que estamos há demasiado tempo a ser parte integrante do problema e não da solução. Perdemo-nos
em ajuntamentos desmedidos e o vírus vingou com muito mais facilidade, consumimos até
mais não e contribuímos para a libertação de Gases com Efeito de Estufa na atmosfera, e por fim, se
fizermos uma viagem até ao epicentro da guerra, percebemos que o grande responsável por toda
aquela questão, não é nada mais nada menos do que: um ser humano. Então quando é que se
tenta inverter esta situação? perguntas tu. Quando o mundo se cansa de gritar e começa a chorar a
bandeiras despregadas, digo-te eu. É que por alguma razão, somos sempre mais sensíveis ao choro
do que ao desespero que o antecede. Em jeito de nota final, importa referir que escrevo esta crónica
para que de alguma forma ela possa chegar até ti (se te fizer sentido). Contudo, também eu faço
parte deste lugar comum e ando há muito a ser gente pequenina. Assim e tendo tudo isto em consideração, só me resta
esfregar a lamparina e desejar atempadamente que de uma vez por todas, todos nos tornemos
gente grande.
Rita Nobre.
* imagem 1: “Into the Eye”[2015] . https://society6.com/product/into-the-eye_print#1=45; imagem 2: pensador.uol.com.br; imagem3: https://66.media.tumblr.com/fcdf05f82c218d7cbf5d8d5d5f9a205f/2c3af71c3b786532-60/s640x960/3c8cdc396fdd3a14922d507feaaa1215394372e4.jpg; imagem 4: https://lh3.googleusercontent.com/-5iFlHudeW4x6yGt1I3NuFlRLhqR1G42u4RFzHTzSDBwnGsVrIK-QlXPTuHBAbaxpmzEBCs=s94

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