domingo, 12 de junho de 2022

A bola já não rola como rolava

Lembro-me de ser miúdo e de correr sem parar, jogava há bola sem parar e quem é que sofria com isto as pobres jarras da sala de minha casa que acabavam sempre estilhaçadas no meio do chão. 

Ainda hoje me vem à memória os míticos jogos de futebol que eu e os meus amigos fazíamos num largo de uma igreja, caiamos, feriamo-nos, chorávamos, mas o pecado capital era ou deixar de jogar ou chamar algum adulto porque nos magoamos. 

Naquela altura já havia tablets, computadores e smartphones, mas os poucos que os tinham para utilizar não se preocupavam muito em ficar em casa a assistir vídeos no Youtube ou a jogar na nova Playstation, preocupavam-se sim em fazer rápidos os trabalhos de casa para depois pedirem à mãe para irem jogar futebol para o largo da igreja. 

Sinto-me um velho quando digo que “eram outros tempos”, e eram mesmo às vezes apanho conversas de pessoas na casa dos 30 com pessoas na casa dos 40 e não noto tanto esta diferença geracional, sinto que ambos faziam as mesmas coisas, falam das mesmas dificuldades e não denoto uma diferença assim tão grande como noto entre a minha geração e a dos miúdos de hoje em dia. 

Lembro-me bem que na minha época dizer a um amigo que ele era viciado num jogo era uma ofensa de quase morte, não podia ser dito em nenhuma circunstância, só na circunstância de atingir e magoar o outro, hoje em dia sinto que dizer ao outro que é viciado num jogo serve só de motivo e de justificação para a sua derrota nesse jogo. 

Enfim como os tempos mudam as mães já não gritam, já não embalam, já não abraçam para eles pararem de chorar agora apenas e só lhe passam o smartphone para as mãos enquanto eles veem vídeos de Youtubers brasileiros e dizem cadê em vez de onde está. 


A nossa cultura vai se perdendo a bola já não rola como rolava e sinto que a cada dia que passa o mundo virtual se vai tornando mais importante que o mundo real e físico. 


Alexandre Caseiro

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