Catarina rumou de armas e bagagens pronta para sair de casa. Cansara-se de estar submissa à monotonia dos dias. Nada no calendário lhe parecia diferente. Precisava de acalento e aventura, sobriedade e de bravura, de descobrir mundo sem mais nem porquê. Vestia todos os dias a mesma roupa, a mesma pele. Era empregada doméstica na casa do senhor Estevão há demasiado tempo e algo lhe indicava que esse tempo chegara ao fim. As mãos despediram-se do detergente e sacudiu-se o pó do espanador pela última vez. Agregado a ele, sentia-se a poeira do cansaço e da amargura. Ia sem propósito ou pelo menos era o que dizia. Os céticos chamaram-lhe louca, porque aparentemente mudar de vida aos 54 anos era o "Ai Jesus passou-se de vez". Já os atentos, no fundo constatavam, que Catarina ia só à procura de si e que na realidade estava na altura de perceber que aos 54 anos, o armário tinha espaço reservado para mais roupas, para além da do trabalho. Ás vezes a vida embrenha-nos num enredo de tal forma forte, que se torna difícil perspetivar o capítulo seguinte, mas ela conseguiu. No final da história ela conseguiu. Sabe-se que ainda enfrentou umas quantas tempestades pelo caminho, mas sabe-se ainda com mais veemência que simplesmente partiu à descoberta. Serve esta narrativa para te fazer constatar que quase todos nos identificamos com isto, não é? Há sempre aquele momento em que se sente o desejo de mudança. Depois há quase sempre o barulho e a confusão da quantidade infindável de vozes, que por alguma razão fazem morada em nós e que teimam em atrapalhar mais do que ajudar. Para depois se seguir o impasse, a incerteza e o medo aliado ao desconhecido. No entanto, o que a história da Catarina nos relembra, é que o segredo deve sim prender-se na premissa, de que do outro lado do desconhecido se encontra a vontade e a clareza. A certeza de que independentemente de onde venhas, do teu propósito, do que procuras, o caminho a fazer, será aquele que te levará até ti. A história da Catarina relembra-nos que cabem muitas outras vidas dentro desta, que somos nós os pioneiros de cada início e que no fundo, no fundo é para isto que as histórias existem.
(Por último, já reparaste que descoberta e desconhecido partem do mesmo radical? Não há de ser por acaso.)
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