sábado, 4 de junho de 2022

À descoberta

 Catarina rumou de armas e bagagens pronta para sair de casa. Cansara-se de estar submissa à monotonia dos dias. Nada no calendário lhe parecia diferente. Precisava de acalento e aventura, sobriedade e de bravura, de descobrir mundo sem mais nem porquê. Vestia todos os dias a mesma roupa, a mesma pele. Era empregada doméstica na casa do senhor Estevão há demasiado tempo e algo lhe indicava que esse tempo chegara ao fim. As mãos despediram-se do detergente e sacudiu-se o pó do espanador pela última vez. Agregado a ele, sentia-se a poeira do cansaço e da amargura. Ia sem propósito ou pelo menos era o que dizia. Os céticos chamaram-lhe louca, porque aparentemente mudar de vida aos 54 anos era o "Ai Jesus passou-se de vez". Já os atentos, no fundo constatavam, que Catarina ia só à procura de si e que na realidade estava na altura de perceber que aos 54 anos, o armário tinha espaço reservado para mais roupas, para além da do trabalho. Ás vezes a vida embrenha-nos num enredo de tal forma forte, que se torna difícil perspetivar o capítulo seguinte, mas ela conseguiu. No final da história ela conseguiu. Sabe-se que ainda enfrentou umas quantas tempestades pelo caminho, mas sabe-se ainda com mais veemência que simplesmente partiu à descoberta. Serve esta narrativa para te fazer constatar que quase todos nos identificamos com isto, não é? Há sempre aquele momento em que se sente o desejo de mudança. Depois há quase sempre o barulho e a confusão da quantidade infindável de vozes, que por alguma razão fazem morada em nós e que teimam em atrapalhar mais do que ajudar. Para depois se seguir o impasse, a incerteza e o medo aliado ao desconhecido. No entanto, o que a história da Catarina nos relembra, é que o segredo deve sim prender-se na premissa, de que do outro lado do desconhecido se encontra a vontade e a clareza. A certeza de que independentemente de onde venhas, do teu propósito, do que procuras, o caminho a fazer, será aquele que te levará até ti. A história da Catarina relembra-nos que cabem muitas outras vidas dentro desta, que somos nós os pioneiros de cada início e que no fundo, no fundo é para isto que as histórias existem.      

 (Por último, já reparaste que descoberta e desconhecido partem do mesmo radical? Não há de ser por acaso.)

Rita Nobre

Sem comentários:

Enviar um comentário

O Amor na Era do "Visto por Último"

       Namorar já teve as suas regras bem definidas. Houve um tempo  que hoje parece saído de um romance histórico em que namorar envolvia e...