Ao longo da minha vida, quando me perguntavam de que país eu vinha, dizer que era portuguesa não era suficiente. Por ser uma jovem negra, assumem sempre que não nasci em Portugal.
"Mas de onde és mesmo?", insistem, como se a minha resposta estivesse incompleta. Eles querem uma origem que explique a cor da minha pele. Querem uma narrativa que faça mais sentido para eles do que a ideia de uma negra ser apenas portuguesa.
Sou portuguesa, com tudo o que isso implica, com os pastéis de nata e com o racismo subtil que se esconde nos detalhes do dia a dia. Com a saudade como herança e com a eterna sensação de não ser suficiente para um país que ainda não aprendeu a olhar para além do espelho colonial.
Ser negra em Portugal é viver constantemente a explicar-se. A minha nacionalidade é interrogada com mais frequência do que o meu nome. A minha identidade é vista como exceção, e não como parte integrante do que é ser português no século XXI.
Cresci entre livros, novelas e revistas que não tinham personagens que se parecessem comigo. Já ouvi a minha mãe a ser referida como “pessoa de cor”, o que honestamente deixou-me confusa. Por vezes, pergunto-me se o país em que nasci me reconhece.
Recuso-me a ser apenas a filha de uma terra distante. Sou daqui. Faço parte deste chão, destas ruas, deste presente. O meu lugar não está à espera de ser legitimado. Já existe, mesmo quando insistem em ignorá-lo. Sou portuguesa. E isso devia bastar.
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