Liberdade
é quando
Liberdade é quando deixamos de pedir desculpa por
existir. É quando o corpo respira e não pede licença ao chão para pisar firme.
É quando a voz sai sem medo de tropeçar nas sílabas, sem receio de ecoar onde
antes só se sussurrava. Liberdade não é um lugar, é um estado. É um gesto
invisível que se reconhece na pele, na alma e nos olhos que se erguem,
finalmente, sem medo de encontrar os olhos do outro.
Lembro-me da minha avó dizer que a liberdade cheirava a
pão quente. Era a primeira fornada da manhã, quando ainda não havia barulho nas
ruas e o mundo parecia mais limpo. Para ela, que viveu mais sob silêncio do que
sob palavra, a liberdade era simples: era poder sair de casa sem que lhe
dissessem como vestir, era poder amar sem fazer contas às consequências, era
poder não saber tudo e mesmo assim não ser punida por isso. Mas a liberdade
também pode ser um grito e há gritos que não se ouvem. São os que vêm de
dentro, que não fazem som, mas mudam tudo. São as mulheres que um dia disseram
"não" pela primeira vez. Os homens que choraram diante dos filhos sem
vergonha. Os jovens que disseram "eu sou" num mundo que preferia que
fossem "eles". Liberdade é também saber parar. Dizer “basta” ao que magoa,
“adeus” ao que aprisiona, “nunca mais” ao que nos torna pequenos. Liberdade não
é fazer tudo, é saber o que não se quer fazer. É recusar a violência, mesmo
quando parece justa. É escolher a ternura, mesmo quando o mundo pede dureza. E
há quem confunda liberdade com solidão, com rotura, com caos. Mas não.
Liberdade é o oposto da solidão. Porque só somos livres quando o outro também o
é. Quando a nossa escolha não oprime, não cala, não cancela. Ser livre é dançar
no espaço entre o “eu” e o “nós” sem pisar os pés de ninguém.
Os muros caem mais depressa quando somos muitos. A
liberdade tem disso: é contagiante. Cresce em silêncio, passa de mão em mão,
entra pelas pequenas aberturas que lhe damos. Uma ideia, uma canção, um gesto
de coragem basta para acendê-la. E às vezes, é só numa pequena esquina da vida
que nos damos conta do seu peso. Uma porta que se abre sem ser trancada. Um
beijo dado sem medo. Um filho que pergunta e não é punido por isso. Um corpo
que existe como quer. Uma memória que já não dói.
Sim, a liberdade é frágil e talvez por isso é que seja
tão preciosa. Precisa ser cuidada como se cuida de uma flor no deserto. Requer
coragem, mas também vigilância. Exige amor, mas daqueles que amam com
responsabilidade. Porque no fim, liberdade é quando e só quando ninguém precisa de perguntar se é livre.
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