quinta-feira, 8 de maio de 2025

Liberdade, igualdade, atualidade

 Lembro-me de estar na aula de História no décimo primeiro ano e ouvir as palavras liberté, egalité, fraternité da Revolução Francesa. Toda aquela revolta com baguetes e queijo. Achei engraçado (não muito engraçado tendo em conta o contexto) a Maria Antonieta ter dito que se não havia pão, o povo poderia comer brioche. Refletindo sobre este acontecimento, sinto-me triste ao pensar que o povo francês estava na miséria e a rainha acreditava mesmo que eles conseguiriam arranjar um brioche.

O povo queria pão e queria liberdade. Liberdade para viver, para decidir, para existir com dignidade. Séculos depois, cá estamos nós, todos modernos, todos conectados, com mais direitos e hashtags do que cabe numa Constituição. E no entanto… ainda falta pão. Ou talvez falte liberdade.

Dizemos que somos livres. Que podemos ser quem quisermos. Que podemos dizer o que pensamos. Mas será mesmo assim? Há dias em que me pergunto se a liberdade não se tornou apenas mais um ideal bonito, uma daquelas palavras que se escrevem nas paredes das escolas e nos discursos dos políticos. Na prática, parecemos cada vez mais presos.

Presos ao medo de não sermos aceites. Presos ao receio de dizer algo que vá “ofender” alguém — não no sentido justo, de quem combate o preconceito, mas no sentido em que qualquer opinião pode ser distorcida, triturada e cuspida nas redes sociais por um grupo de desconhecidos com tempo a mais e empatia a menos. Vivemos numa era em que tudo é motivo para “dar hate”. Um erro, uma frase mal colocada, uma escolha diferente — e pronto, lá está o tribunal virtual a distribuir sentenças.

A liberdade, hoje, parece ter um preço: o julgamento constante. A vigilância disfarçada de likes. A necessidade de agradar toda a gente para não sermos “cancelados”. É cansativo e profundamente irónico.

Porque se há algo que a liberdade deveria significar, é precisamente o contrário: o direito a sermos autênticos, mesmo quando não encaixamos, mesmo quando discordamos. Liberdade é poder dizer “não penso como tu” sem medo de ser maltratado digitalmente. Liberdade é poder ser vulnerável. É poder existir fora da norma, sem ter de pedir desculpa por isso.

Talvez a Maria Antonieta nunca tenha dito aquilo do brioche. Talvez tenha sido só um boato conveniente. Mas o que é certo é que, enquanto houver quem não tenha liberdade para ser, sentir ou expressar sem medo, continuaremos todos um pouco na miséria. Não de pão, mas de empatia, escuta e coragem.


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