quinta-feira, 22 de maio de 2025

Portugal, um país de promessas por acabar

 Crescemos a ouvir que somos o futuro, mas o futuro nunca mais chega. Em Portugal, ser jovem é andar com a sensação de que estamos sempre numa sala de espera. Há quem diga que somos a geração mais preparada de sempre, e talvez até sejamos, mas preparados para quê, quando tudo à nossa volta parece ser feito para nos empurrar para fora?

Dizem-nos que temos de estudar, trabalhar, fazer estágios, aprender línguas, ter iniciativa, mostrar vontade. Fazemos isso tudo. E no fim? Contratos a prazo, salários de miséria e rendas que nos mandam de volta para casa dos pais. O caminho é sempre a subir, mas a paisagem raramente muda.

Portugal adora a juventude, mas somente nos cartazes. Nos discursos. Nos relatórios que ninguém lê. Mas quando chega a hora de dar espaço, oportunidades, ou sequer um voto de confiança, somos tratados como se ainda não soubéssemos nada do mundo. Como se fôssemos um rascunho à espera da versão final. E enquanto isso, os que podem, vão embora. Os que ficam, vão aprendendo a sobreviver no intervalo entre a frustração e o conformismo.

Existe talento em todo o lado. Em escolas secundárias onde faltam aquecedores, mas sobram ideias. Em universidades onde se cria com o que há, mesmo que seja pouco. Em bairros onde se inventa arte, se escreve, se dança, se vive com força apesar do aperto. Mas o país tem uma maneira estranha de tratar os seus jovens como se fossem um luxo, e não um investimento.

Somos muitas vezes acusados de não querer trabalhar, de viver na internet, de querer tudo de para ontem. Mas o que queremos, na verdade, é simples, a possibilidade de construir uma vida aqui. Com dignidade. Com tempo. Com espaço para errar sem que isso nos custe tudo. Com futuro.

Portugal não é um país mau. É bonito, é nosso, tem coisas boas que nos seguram mesmo quando tudo nos empurra para longe. Mas também é um país que ainda não aprendeu a cuidar dos seus jovens como deve ser. Que ainda olha para nós como um problema a gerir, e não como a solução que já cá está.

Mas era bom que um dia, o país também viesse ao nosso encontro. Que deixasse de dizer “um dia” e começasse a dizer “agora”.

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