Lisboa sempre foi uma cidade com talento para o drama, uma espécie de viúva jovem que recusa tirar o luto mas não abdica de um decote generoso para atrair os olhares da vizinhança. Se percorrermos o eixo que vai da Baixa ao Chiado, sentimos o peso de um século que se atropela a si próprio. É uma sobreposição de camadas tão densa que, se escavássemos a calçada com o rigor de um arqueólogo com insónias, encontraríamos, por baixo do cimento de um novo hotel de luxo, o fumo de um cigarro de 1920 e o eco de uma discussão política que terminou em duelo, ou pelo menos em má poesia.
Nos anos 20, Lisboa era uma metrópole que tentava, com um esforço comovente, ser Paris. O Chiado era o centro do mundo, ou pelo menos o centro do mundo que interessava a quem usava polainas e tinha opiniões sobre o cubismo. O Garrett e o "A Brasileira" eram os laboratórios da inteligência nacional, onde Fernando Pessoa, esse homem que era vários e nenhum, se sentava a destilar o tédio existencial em doses de aguardente. Imaginem Pessoa hoje. Que faria ele com um iPhone? Provavelmente teria um perfil diferente para cada heterónimo: o Alberto Caeiro publicaria fotos de ovelhas sem filtro no Instagram, o Ricardo Reis faria citações em latim no LinkedIn para parecer corporativo, e o Álvaro de Campos estaria constantemente a ser banido do X por insultar a passividade da tecnologia moderna. A ironia suprema é que a angústia de Pessoa, que era tão gratuita e profunda, hoje seria monetizada por um coach de saúde mental num workshop de fim de semana em Alfama.
Entrar nos anos 30 e 40 é entrar numa Lisboa de luzes baixas e silêncios altos. Enquanto a Europa se desintegrava em carne e ferro, Lisboa transformava-se num aquário de espiões e refugiados. Era a capital da neutralidade cínica. Nos hotéis da Avenida da Liberdade, jantavam alemães e ingleses a duas mesas de distância, trocando olhares de ódio por cima de um prato de linguado. Os cronistas da época, como o incisivo e brilhante António Ferro antes de se tornar o coreógrafo da estética do regime, desenhavam uma cidade que era um cenário de filme noir. Havia uma dignidade pobre, um orgulho de sapatos engraxados e fome escondida. Hoje, a fome em Lisboa é diferente; é uma fome de espaço. Onde antes se escondiam espiões em quartos de pensão baratos, hoje escondem-se turistas americanos que pagam trezentos euros por noite para dormir num cubículo que cheira a "autenticidade" e a humidade renovada.
A Lisboa dos anos 50 foi a década do betão e da esperança contida. Era a cidade dos cafés monumentais, onde o fumo era tão espesso que se podia esculpir. Os homens discutiam o futebol e a censura, esta última com o olhar fixo na porta para ver se entrava algum senhor de gabardine e ouvido apurado. Havia uma hierarquia clara: o poeta era um ser sagrado, o cronista era o juiz do quotidiano. Se um cronista de 1950 visse a atual Rua Cor-de-Rosa, provavelmente teria um colapso nervoso. O que antes era um antro de marinheiros e perdição, um lugar onde a vida acontecia sem edição, transformou-se num cenário de cartão-postal onde se tiram selfies com um cocktail de cores fluorescentes na mão. A prostituição de outrora, que tinha a sua própria ética trágica, foi substituída pela prostituição imobiliária, que é muito mais limpa mas muito mais cruel.
A transição para a nossa atualidade não foi um degrau; foi uma queda livre de um elétrico desgovernado. Lisboa tornou-se uma cidade "cool", e não há nada mais foleiro do que ser "cool" por obrigação. O sarcasmo da história dita que expulsámos os lisboetas para as periferias para podermos vender a "experiência de viver como um lisboeta" a quem vem de fora. É uma lógica de canibalismo estético. As lojas de ferragens, onde se encontrava a solução para todos os males domésticos, deram lugar a lojas de cereais ou de sabonetes artesanais que cheiram a infâncias que ninguém teve. Onde o mestre Almada Negreiros lançava os seus manifestos futuristas, desafiando a burguesia a acordar, hoje temos cartazes de festivais de música que prometem "sustentabilidade" enquanto vendem cerveja em copos de plástico a preço de ouro.
Falemos dos poetas. Onde estão eles? Nos anos 40, a poesia era uma arma, hoje é uma legenda de fotografia. A profundidade foi trocada pela rapidez. O cronista atual não precisa de observar a rua durante horas; basta-lhe olhar para as tendências do Google. A ironia é que temos mais meios de comunicação e menos coisas para dizer. O fado, que era o lamento de quem não tinha voz, tornou-se uma banda sonora para o jantar de quem não quer ouvir. Já não se canta o ciúme ou a desgraça com a mesma verdade; canta-se a "portugalidade" para exportação, com um arranjo de guitarra que não ofenda os ouvidos mais sensíveis da classe média europeia.
A Lisboa de hoje é uma cidade de fachadas. Literalmente. Mantemos a parede de azulejos para manter as aparências, mas por trás não há uma família a discutir o preço do azeite; há uma smart lock e um código de acesso enviado por e-mail. O humor da situação reside na nossa capacidade de fingir que nada disto nos incomoda. Sorrimos para o turista, servimos-lhe o pastel de nata morno e depois suspiramos porque o nosso aluguer subiu tanto que em breve teremos de ir viver para dentro de um poema de Cesário Verde, algures nos subúrbios esquecidos. Cesário, aliás, seria o cronista perfeito para esta era. Ele, que tão bem descreveu o "sentimento de um ocidental", estaria agora a descrever o sentimento de um ocidental que não consegue estacionar o carro nem comprar pão sem falar três línguas estrangeiras.
O que é real em Lisboa, afinal? O real é o frio que sobe do Tejo e que nenhuma renovação urbana consegue aquecer. O real é a luz de Lisboa, que continua a ser a melhor iluminadora do mundo, mesmo que agora ilumine mais trotinetas elétricas do que varinas. Há uma certa beleza sarcástica no facto de a cidade continuar a ser lindíssima, apesar de todos os nossos esforços para a tornar num centro comercial a céu aberto. As colinas continuam lá, a castigar as pernas de quem teima em andar a pé, ignorando que o progresso se faz de Uber.
Se subirmos ao Bairro Alto numa noite de sexta-feira, o choque geracional é absoluto. Nos anos 20, ouvíamos o bater das portas das redações dos jornais, o som das máquinas de escrever a ditar o destino do dia seguinte. Hoje, ouvimos o som de vidros partidos e de colunas portáteis a debitar música sem alma. A crónica da cidade já não se escreve no papel; escreve-se nos muros, muitas vezes com erros de ortografia, ou em comentários de fóruns de viagens onde alguém se queixa de que Lisboa "tem demasiadas subidas". É aqui que o sarcasmo atinge o seu auge: queremos a tradição, mas sem o desconforto que ela implica. Queremos a história, mas queremos que ela seja higienizada e tenha Wi-Fi gratuito.
Lisboa está a tornar-se uma cidade de fantasmas que não têm onde morar. O espírito de Eça de Queiroz deve andar por aí, a deambular pelo Grémio Literário, a rir-se da nossa nova aristocracia de influenciadores e investidores em criptomoedas. Ele, que tão bem retratou a vacuidade da sociedade do seu tempo, teria material para dez volumes de "Os Maias" só com uma tarde passada num rooftop da moda. A ironia é que, tal como no século XIX, continuamos a olhar para fora para saber como devemos ser por dentro. Antigamente imitávamos Paris; agora imitamos Berlim, Brooklyn ou qualquer outro lugar que nos prometa ser "alternativos" enquanto consumimos o mesmo café globalizado.
Mas, apesar de tudo, Lisboa resiste. Resiste na velha que se recusa a sair da casa onde nasceu, mesmo com o assédio do fundo de investimento. Resiste no empregado de mesa que mantém o mau feitio histórico, tratando o cliente com aquela mistura de servidão e desprezo que é uma arte em vias de extinção. Resiste na poesia que ainda se lê nos autocarros, nas mãos de quem não desistiu de pensar. A verdadeira crónica de Lisboa não é a que se vende nas livrarias de aeroporto; é a que se sente no cheiro das castanhas assadas no inverno, que continua a ser o mesmo desde os anos 20, um fumo democrático que envolve o rico e o pobre, o poeta e o turista, sem fazer distinções.
No final, somos todos personagens de uma crónica que começou muito antes de nós e que continuará quando os hotéis de hoje forem as ruínas de amanhã. Lisboa tem este poder: ela devora os que tentam mudá-la. A cidade é um organismo vivo que boceja perante as nossas tentativas de modernidade. Ela viu passar os salazares, os poetas suicidas, os revolucionários de cravo ao peito e os executivos de fato justo. E a todos ela parece dizer, com o seu eterno sarcasmo de pedra e cal: "Podem mudar a mobília, mas a casa continua a ser minha."
Talvez a maior lição que a Lisboa dos anos 20 a 50 nos deixou foi a de que a cidade precisa de sombras para ser real. Uma cidade sem sombras, sem recantos escuros onde a poesia e o crime se possam misturar, é uma cidade morta. A Lisboa atual está demasiado iluminada pelos ecrãs dos telemóveis, demasiado exposta, demasiado nua. Falta-nos o mistério de um encontro à esquina da Rua do Ouro, sob um candeeiro de gás, sem que ninguém faça um check-in para provar que ali esteve. A realidade é que Lisboa é mais bonita quando não está a tentar agradar a ninguém. É quando ela é sarcástica, mal-humorada e decadente que ela é mais verdadeira. E essa Lisboa, felizmente, ainda sobrevive nas entrelinhas de quem a sabe ler, entre um gole de ginjinha e um olhar perdido no horizonte do Tejo, que continua a correr, indiferente a séculos, modas e ao preço absurdo do metro quadrado.
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